Veredito de Jogador Número Dois

20/12/2021 - POSTADO POR EM HQs/Livros
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Uma boa aventura gamer que se preze sempre tem uma continuação. Mesmo que essa aventura não esteja nos video games. É o caso do livro Jogador Número Dois, que dá seguimento à saga de Wade Watts como um mestre dos games num futuro distópico e nostálgico. Publicado em 2020 pelo escritor e entusiasta nerd Ernest Cline, a sequência chega este ano ao Brasil em edição de luxo pela editora Intrínseca

Apostando em novos elementos sentimentais, a obra já tem versão live-action confirmada para os cinemas. Agora, se esta continuação tem aventuras tão geniais como o primeiro livro, resta ler o veredito a seguir para saber.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DO LIVRO JOGADOR NÚMERO UM.

Finalizando a vida!

Wade “Parzival” Watts já não é mais o garoto pobre que morava em pilhas de ferro velho no subúrbio de Oklahoma. Após vencer a Caçada pelo Easter Egg de Halliday, Wade e seus amigos (Helen “Aech” Harris, Samantha “Art3mis” Cook e Akihide “Shoto” Karatsu) tornam-se proprietários da Gregarious Games, empresa responsável pelo jogo online OASIS. Com o dinheiro da companhia, cada membro da equipe passa a viver seus projetos individuais.

No entanto, Wade descobre que há mais uma caçada idealizada por James Halliday antes de sua morte. E que este novo desafio está ligado a uma tecnologia que permite uma simulação neural dentro do OASIS. Competitivo ao extremo, Wade resolve embarcar nessa empreitada, mas terá de lidar também com o retorno de um antigo vilão.

Imagem: Divulgação

Três anos de mudanças

A história de Jogador Número Dois ocorre três anos após os eventos do primeiro livro, que encerra-se com a batalha entre os caçadores de ovo do OASIS e os “seis”, jogadores contratados da empresa Innovative Online Industries, que deseja obter o controle do OASIS para fins puramente mercadológicos. 

Durante esse tempo, Ernest Cline gasta páginas e mais páginas de assuntos triviais que tiram o foco da história, fazendo com que a trama se perca no meio do caminho. Isso ocorre pois o autor pretende mostrar ao leitor a transformação da mentalidade de Wade Watts: de garoto humilde e obstinado a jovem magnata egoísta e insensível. 

Com muito dinheiro, vêm grandes responsabilidades. A maior de todas elas, um gerenciamento humanamente consciente dos recursos do OASIS, é cobrada constantemente por Art3mis, que se antes era a personagem mais madura do primeiro livro, aqui ela consegue ir mais além, sem soar arrogante ou desanimada.

É em Wade que vemos seus erros de caráter, camuflados antes, se mostrarem mais explícitos. Tão explícitos em várias passagens que a leitura se torna ou chata ou propícia à pergunta: “ok, mas onde o autor quer chegar mesmo?”. 

Talvez seja na tecnologia e imersão neural, elaborada por Halliday antes de morrer e que era um segredo mantido pelo desenvolvedor, que se encontra o maior ponto de discussão. Como ela permite apenas 12 horas de imersão e tem um efeito viciante, acaba causando uma discordância entre Wade (a favor da divulgação no mercado) e Samantha (contra).

Nos primeiros capítulos, aqui e acolá somos apontados para a nova caçada, mas dessa vez atrás de sete fragmentos para libertar a “Alma da Sereia”, uma premiação relacionada a Halliday e seu sócio Ogden Morrow. Até a aventura começar de verdade, a leitura segue por uma trajetória de alteração do comportamento de Wade, seu distanciamento com os amigos e a desintegração de seu relacionamento com Samantha.

Imagem: Divulgação

E a aventura começa!

Jogador Número Dois ainda mantém características geeks que se saíram bem no primeiro livro. E tal como foi mostrado no filme live-action, as referências não se prendem apenas aos anos 80. Filmes, jogos, séries, animes e músicas dos anos 1990 e 2000 foram inseridos. Isso dá maior expansão do que se pode aproveitar na cultura pop, além de sair da previsível nostalgia que só olha para a década oitentista.

A caçada é o ponto questionável a ser inserido neste livro. Mesmo sendo a sacada genial do primeiro livro, repetir essa estratégia na continuação não obteve o mesmo efeito. Se antes tínhamos um Parzival obstinado e curioso, em Jogador Número Dois temos um jovem envelhecido antes do tempo e que deixou o egoísmo estragar seu senso de aventura.

Outra inserção vinda do primeiro livro é o retorno de Nolah Sorrento. No melhor estilo vilão de filme de super-herói, ele ressurge cheio de vingança e com planos destrutivos para o herói.

A comparação com um estilo cinematográfico não é mera coincidência: em entrevistas, Ernest Cline admitiu que Jogador Número Dois surgiu da empolgação do autor com a adaptação de Jogador Número Um (2018) para os cinemas. E não há nada mais “cinema” do que um vilão vingativo, perfeito para a adaptação da sequência nas telonas.

Imagem: Divulgação

Veredito

Iniciado em 2015 e publicado em 2020, Jogador Número Dois carece de uma revisão. Não apenas de escrita, mas de propósito. Por mais visível que seja o esforço do autor em inserir uma textura mais madura para a obra, ela não consegue ser um produto que esteja à altura do que foi seu antecessor.

Não precisava ser igual (e este livro tenta), mas que soubesse trabalhar melhor seus momentos mais empolgantes para que estes pudessem dominar a história.

Se houver uma nova sequência, que o próximo livro possa ser escrito com maior amadurecimento em sua narrativa aliada à criatividade e paixão gamer. Caso encerre aqui a trajetória de Wade Watts e seus amigos, a maior aventura de Jogador Número Dois é procurar os bons momentos da história.

Pontos positivos

  • Expansão de conteúdos da cultura pop
  • Desenvolvimento da personagem Samantha “Art3mis”
  • Edição de luxo fiel à publicação original

Pontos negativos

  • Narrativa arrastada e cansativa
  • Protagonista sem carisma para a aventura
  • Referências pop sem muito contexto

NOTA: 5