Envolta de polêmicas e expectativas, a nova adaptação do livro O Morro dos Ventos Uivantes, escrito por Emily Brontë em 1847, chegou aos cinemas. A nova versão cinematográfica é dirigida por Emerald Fennell (que comandou Saltburn) e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi. Mas será que o filme está à altura do clássico? Confira no veredito a seguir.
Enredo
Na Inglaterra do século 19, a família Earnshaw tinha apenas um bom sobrenome e estava à beira da falência. Ainda assim, isso não impediu o patriarca de adotar um rapaz, Heathcliff (Jacob Elordi), para ser criado como um empregado. Sua filha, Catherine (Margot Robbie), acaba desenvolvendo uma afeição que se transforma em paixão por Heathcliff.
O Morro dos Ventos Uivantes tem um roteiro estranho, que erotiza uma tragédia, mas não a vulgariza. Falta um estudo psicológico de Heathcliff e também uma contextualização mais aprofundada da vida dos Earnshaws. Em uma história que mistura amor e vingança, a motivação para se vingar parece vaga e torpe, o que deixa o espectador distante e distorce completamente o enredo original.
A escolha de Jacob Elordi para interpretar Heathcliff não é justificada, já que na primeira parte do filme ele é um criado (Owen Cooper, de Adolescência, interpreta o personagem quando criança), o que simplesmente não combina em nada com ele. Além disso, é claro o whitewashing do personagem, já que ele é descrito como alguém não branco no livro, que sequer fala inglês. Margot Robbie por sua vez não está mal no longa e entrega exatamente a personagem apaixonada, reprimida e chata que o roteiro pede.
Imagem: Divulgação
O Livro
O Morro dos Ventos Uivantes é o único livro de Emily Brontë, escritora britânica que morreu aos 30 anos. A obra é considerada um clássico da literatura inglesa. O livro apresenta um estudo psicológico importante e personagens muito bem escritos, além de uma crítica à sociedade de classes dos séculos 18 e 19 e à violência doméstica. Outra importante reflexão da obra é a condição feminina na época, podendo despertar discussões sobre feminismo.
A personagem Catherine é descrita como alguém que tem muitas vontades e por vezes é reprimida. O casamento entre Catherine e Edgar, onde sentimentos não estão envolvidos, representa uma chance de tirar os Earnshaws das dívidas. Mas eles têm uma pedra no caminho: Heathcliff, que faz questão de estar presente nos momentos corriqueiros do casal como forma de se vingar de Catherine, fazendo a personagem arder de um misto de desejo, ódio e amor.
Existem personagens que foram suprimidos no filme, mas são de extrema importância para a narrativa no livro. É o caso do irmão de Catherine, Hindley, que trata Heathcliff como alguém inferior e faz da vida dele um inferno, com toques de crueldade. Ele é um dos responsáveis pela queda da família Earnshaw e um dos motivos mais fortes que motivam a vingança de Heathcliff.
Imagem: Divulgação
Veredito
O Morro dos Ventos Uivantes é um filme que perde a oportunidade de apresentar a dualidade entre amor e ódio de forma interessante. A forma como a motivação da vingança é explorada no longa é um tanto vazia e o amor torna-se algo romântico demais. A consumação do desejo entre Catherine e Heathcliff pode ser interpretada como algo que a diretora do filme queria ter lido no livro.
O roteiro é perdido, com um primeiro ato lento e que tenta justificar algo que poderia ser colocado de forma mais clara e rápida. As cenas que simulam o ato sexual são desnecessárias, mesmo que supostamente sejam para exemplificar o quão sedenta Catherine está. Não há um estudo de personagens relevante, o que os torna apenas chatos.
Em nada se justifica a escolha de Jacob Elordi como Heathcliff além da tentativa frustrada de mostrar quão galã ele pode ser. Falta química entre os personagens principais, e a fase em que o Elordi é um empregado não é crível. Já Margot Robbie entrega um trabalho bem feito, mas longe do seu melhor.
P.S.: É importante salientar que a escolha do figurino não é algo ruim, apesar dos materiais destoarem do contexto histórico. A proposta estilística do filme, incluindo trilha sonora e design de produção, não é ser fiel ao período histórico, mas sim retratar e reforçar os desejos dos personagens.
Pontos Positivos:
- Trilha Sonora
Pontos Negativos:
- Jacob Elordi não convence
- Roteiro perdido
- Personagens desinteressantes
Nota: 5