Veredito de Jogador Nº 1

05/11/2021 - POSTADO POR EM HQs/Livros

Antes de ser um blockbuster de sucesso em 2018, Jogador Nº 1 era um livro. A adaptação cinematográfica trouxe às telas a maior quantidade de referências da cultura pop que era possível caber a cada minuto de duração. Não por acaso, Steven Spielberg, o pai do cinema blockbuster, dirigiu o filme que reverenciava a própria cultura de entretenimento que ele ajudou a construir.

O livro que deu origem ao filme foi publicado em 2012, com a autoria do entusiasta geek Ernest Cline, que também roteirizou o filme junto com Zak Penn. Assim como no longa, as referências também transbordam as páginas do material. E é sobre esta obra da literatura nerd publicada em nova edição pela Intrínseca que iremos falar neste veredito, conhecendo mais sobre este livro que mistura sci-fi com referências geeks.

Preparado, jogador?

O ano é 2045 e o adolescente gamer Wade Watts divide sua atenção entre a realidade pobre e deteriorada do mundo real e suas aventuras como Parzival, seu avatar no jogo online de realidade virtual chamado OASIS, criado para estabelecer uma conexão entre jogadores do mundo inteiro em um universo de explorações digitais.

Com a morte do desenvolvedor do jogo, o enigmático James Halliday, é divulgado que o criador do OASIS decidiu repassar sua cobiçada herança a quem vencesse um concurso de três etapas intitulado “Caçada pelo Easter Egg de Halliday”. O torneio atrai não apenas jogadores como Wade a competir, mas também uma corporação multinacional inimiga de Halliday que está interessada em dominar os seus negócios.

Imagem: Divulgação

Ficção científica com nostalgia

Que o sci-fi sempre atraiu nerds, geeks, gamers e qualquer outra denominação utilizada dentro do universo do entretenimento, isso sempre foi conhecido. Agora, são poucas as obras que fazem a metalinguagem existente em Jogador Nº 1. Diferente do que é visto na adaptação cinematográfica, a paixão aficionada pela cultura pop não está no livro apenas pela exposição gratuita.

Na escrita de Ernest Cline, que viveu os anos 1980 absorvendo todo o tipo de entretenimento disponível, esse conteúdo se encaixa perfeitamente dentro da história. Vemos que os personagens  da trama são de fato pessoas aficionadas e que sabem do que estão falando quando o assunto é cultura pop.

A década oitentista é a delimitação do que é lido de referências presentes no livro. São séries, filmes, músicas, jogos, propagandas, produtos e acontecimentos da época. Tudo precisamente descrito dentro do reduto do entretenimento, algo que só poderia sair mesmo da cabeça de um nerd.

Wade Watts parece ser o avatar de Ernest Cline dentro de Jogador Nº 1. É por meio deste personagem que a paixão do autor de 49 anos é encarnada num adolescente de 18. Até mesmo as pieguices típicas de um adolescente que não liga pra mais nada a não ser ficar jogando videogame estão presentes (comportamento que irrita em alguns momentos).

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A jornada do gamer

Talvez a maior referência do Jogador Nº 1 é a sua história, pois ela soa como uma soma de A Fantástica Fábrica de Chocolates (1971) com Neuromancer (1984). Ou seja, um magnata excêntrico dono de um surreal universo de imersão digital que repassa seus bens para quem for digno. Wade até lembra um pouco Oliver Twist (1938), um garoto pobre que dribla a miséria com sua inteligência.

Mas, focando no que o livro oferece de original, podemos dizer que a leitura se torna cativante pelo fato dela instigar sentimentos nostálgicos confortáveis até mesmo para quem não viveu a época oitentista. Não tem como se sentir perdido com as referências caso não saiba, pois ou elas são explicadas ou você é instigado a pesquisar sobre.

Temas e aventuras

O livro, de forma bem diluída, expõe breves denúncias sobre aquecimento global, crises econômicas e os custos sociais de conflitos armados. A brevidade desses temas está ligada à percepção de Wade sobre o mundo, por ele ser o condutor da trama, e sua visão sobre as coisas fora do OASIS é bobamente apática.

A escrita de Cline é bem condescendente com isso, pois o que importa para o autor são as aventuras que Wade “Parzival” enfrenta sozinho ou com seus amigos jogadores, como Aech, Art3mis, Daito e Shoto

São momentos onde o autor demonstra ter mais confiança para ser inventivo que surpreendem. Em situações entre Wade e a multinacional IOI, vilã da história, os conflitos são bem trabalhados e sem medo de usar o clichê da grande corporação que liga apenas para o lucro, pondo em risco o convívio digital.

Já no envolvimento amoroso de Parzival e Art3mis, a inventividade está não só no fato dos dois se conhecerem apenas num mundo digital, mas também pela competição em que eles são concorrentes. A tensão entre os dois é leve, entremeada com alguns diálogos amorosos bobinhos bem na linha de seriados oitentistas.

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Design renovado

Nesta nova edição de luxo da Intrínseca, que também publicou o segundo livro, a capa segue as mesmas cores da edição original, tanto no primeiro como no segundo livro. É de se elogiar a atenta tradução, que preservou no texto termos bastante utilizados entre a geração Z e gamer, como “crush”, “dropar”, “feed” e “PvP”.

Confiando na condução do autor em trazer referências que se explicam durante a história, os editores utilizam das notas de rodapé em raros momentos. A capa dura, com fita marcadora, corte colorido e design característico da identidade gamer da obra fazem desta edição um produto atraente.

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Veredito

Jogador Nº 1 é um livro carregado de emoção geek escrito com muita confiança e propriedade. O autor Ernest Cline sabe extrair do leitor sensações nostálgicas que são confortáveis e claras para entendimento. Diferente do que é exposto no filme, tais sensações não estão apenas pela visualização da referência, mas sim pelo envolvimento emocional com elas.

A obra tem deficiências em sua história quando precisa se desprender da fantasia nerd e partir para conflitos mais intimistas, o que necessitaria de maior amadurecimento do autor como escritor. Entretanto, para cada um desses momentos, há um satisfatório engajamento em aventuras virtuais que só a paixão pela cultura pop pode proporcionar.

Pontos positivos

  • Referências bem colocadas no decorrer do livro
  • Nostalgia cativante
  • Edição de luxo atraente

Pontos negativos

  • Escrita desleixada na hora de narrar questões mais pessoais dos personagens
  • Falta de amadurecimento na condução da história

Nota: 7.5