Por que One Piece é transfóbico e misógino?

10/08/2022 - POSTADO POR EM Animes / Mangás
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One Piece é um dos animes mais aclamados dos últimos tempos e também um dos mais longos da história, com mais de 1000 episódios ininterruptos, a animação está no ar desde 1999, e o mangá desde 1997.

Com isso em mente muito de One Piece tem para ser analisado também. A história tem uma das melhores adaptações de culturas estrangeiras já feita em animes. É possível identificar de cara quais as inspirações utilizadas para cada arco do enredo, cidades como Veneza, países como Espanha e Holanda, até mesmo o próprio Japão, para que qualquer fã possa ver um pouco da própria cultura refletida pelos olhos do criador da série.

Porém, nem tudo é perfeito, e dois aspectos que ninguém pediu, mas são bem explícitos em One Piece, é a transfobia e misoginia em seus personagens e narrativas. Venha entender mais sobre o porquê disso.

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O foco da piada

Enquanto muitos fãs afirmam o quanto One Piece é inclusivo, talvez eles não entendam o quanto ser o foco de uma piada, e de forma repetitiva, pode ser doloroso. Personagens transsexuais e da comunidade LGBTQIA+ em geral estão sempre dentro dessa questão.

Começando com Mr. 2 Bon Clay. Um personagem que promete muito na sua chegada, mas que logo percebemos ter essa posição apenas por sua capacidade de alterar seu rosto e corpo após o toque na pessoa real. Com isso, ele se torna o espião perfeito da organização a que está ligado naquele momento. 

Com uma aparência não binária, utilizando maquiagem, sapatilhas e penteado de balé, um sobretudo rosa com babados e dois gansos nas costas, além de uma blusa azul com gola polo e um short bufante listrado, Bon Clay tem uma forma de falar diferente dos demais personagens. Mesmo que ele seja, em teoria, um vilão, ele também é amigo dos protagonistas e se torna o motivo de chacota, perdendo os motivos de ser uma ameaça, e escapando com uma nota de aviso.

Imagem: Divulgação

Um tempo depois, somos apresentados a Emporio Ivankov (Ivanzinho pros mais chegados). Comandante do Exército Revolucionário, o personagem estava preso em Impel Down, o presídio de segurança máxima da Marinha, quando conheceu Luffy

A aparência de Ivankov no início é a de uma mulher, tendo o poder de alterar hormônios, tanto do seu corpo quanto de terceiros. Após diversos acontecimentos, o personagem transforma seu corpo para a aparência masculina, dobrando de tamanho e tornando-se potencialmente mais forte. Contudo, ele também se torna o foco das piadas dentro da narrativa. Seus poderes possuem nomes com pouca criatividade, focando em sua aparência, além de soltar frases que seriam “engraçadas” mesmo em momentos sérios, sendo o responsável a trazer humor… Por qual motivo seria isso?

A nitidez da transfobia de One Piece acaba sendo mais escancarada quando Sanji vai treinar na Ilha Momoiro. O personagem apelida a ilha de Inferno, porque mesmo que ele tenha passado dois anos treinando lá e adquirindo incríveis habilidades, porque não existem mulheres cis da ilha para Sanji era o mesmo que estar em seu pior pesadelo

Quando o personagem reaparece, ele se torna incapaz de estar na presença de mulheres cis que ele julga bonitas porque, para a piada acontecer, ele ficou muito tempo longe delas, e agora sangra pelo nariz até ter uma hemoragia, ao ponto de Chopper precisar fazer transfusões. Então quando Sanji lembra de seu treinamento é sempre com desgosto, e quando vê algum personagem trans fica revoltado.

A representatividade de One Piece morre quando ele deixa os direitos e sentimentos de alguém de lado para focar no estereótipo e tornar o que poderia ser um espaço de conhecimento, em mais uma piada sem graça ou motivo.

Imagem: Divulgação

Feminilidade estereotipada

Falando em representatividade sem graça, vamos comentar sobre os personagens femininos na história. As mulheres em One Piece sempre irão, em algum momento, mostrar seu corpo em uma posição sexual. E piora quando elas já chegam com uma vestimenta pouco confortável ou que nenhum modelista consegue explicar sua existência. Além de precisarem ser resgatadas

O estereótipo grita tão forte nesse quesito, que poderia até ser utilizado como desculpa para o traço do autor “ser assim mesmo”, se não fosse os personagens femininos vilanescos e de ligação que aparecem na história. Personagens como Big Mom, Perona e Otohime são alguns exemplos, pois não possuem os traços típicos de uma mulher em One Piece, já que estão fora do padrão e logo somem.

Enquanto isso, temos que ver personagens como Nami, uma das mais inteligentes na narrativa, ser resgatada diversas vezes enquanto usa um top minúsculo, e Robin, que é uma das fugitivas mais procuradas da Marinha, quase desaparecer em cenas de ação. Ou até mesmo Boa Hancock, a única corsária, Rainha das Amazonas, que depois de um tempo passa a ter sua maior característica como “a pirata apaixonada pelo Luffy”.

Imagem: Divulgação

Se atualizando

Muitos dos pontos ressaltados podem levar a culpa pela época em que foram escritos, e talvez seja por isso que seja tão interessante para Eiichiro Oda que alguém comece a assistir One Piece dos arcos mais recentes, citando a recente fala do autor com seus fãs. Mesmo que apenas a partir de agora a história vá abordar o tesouro, One Piece não envelheceu bem para quem resolve assistir desde seu início e consegue observar claramente diversos problemas sociais.

E sim, mesmo que seja um anime, One Piece tem como responsabilidade, por causa de sua incrível popularidade, a de entreter e educar. Ilustrar minorias como piadas ou objetos não devia ser o objetivo de nenhuma obra, seja qual for seu meio.

Imagem: Divulgação