Veredito da 2ª temporada de Expresso do Amanhã

05/04/2021 - POSTADO POR EM Séries

Baseado na HQ francesa O Perfuraneve (1982) e no filme homônimo do diretor Bong Joon-ho, Expresso do Amanhã chega à sua segunda temporada na Netflix acentuando os conflitos estabelecidos no primeiro ano e apresentando um vilão megalomaníaco. Confira no veredito a seguir tudo o que achamos da nova leva de episódios.

Big Alice

A primeira temporada de Expresso do Amanhã trouxe um plot-twist daqueles ao revelar que o criador original do trem, Mr. Wilford (Sean Bean), ainda estava vivo e chegou com sua própria locomotiva, o Big Alice, para dominar àquela em que se encontravam nossos heróis. Além disso, ele trouxe também outra personagem perdida: a filha de Melanie (Jennifer Connelly), Alex (Rowan Blanchard).

A chegada de tantos personagens novos já seria o suficiente para balançar as coisas no Snowpiercer, porém isso acabou acontecendo no pior momento possível, tendo em vista que o trem acabara de passar por uma revolução e tinha uma recém-estabelecida democracia, ainda muito frágil. Assim, o retorno daquele que era considerado o salvador dos passageiros só serviu para colocar mais combustível em conflitos muito recentes.

Usando de uma fachada amigável, a princípio a convivência com o Big Alice se deu de forma pacífica. Porém os espectadores já ficam a par da real situação muito rápido, pois vemos cenas com Wilford em sua locomotiva cheia de luxos, enquanto os demais passageiros não vêem comida fresca à anos. É óbvio que esse trem não recebeu os mesmos preparativos que o Snowpiercer e é defasado em muitos locais, algo pincelado, mas não aprofundado durante os episódios.

Foto: Divulgação

Disputas na fronteira

Há uma clara tentativa de retomar o poder por parte de Wilford. A turma formada por Layton (Daveed Diggs), Melanie e companhia conseguem segurá-lo por um tempo, mas a partida da maquinista-chefe para uma estação de pesquisa em busca de novas informações sobre o clima enfraquece a já frágil nova ordem do trem.

Assim, cabe ao espectador atravessar os episódios como quem acompanha uma panela em ebulição. Você entende que algo está prestes a explodir, só não sabe em que momento. E, mesmo com o apertado número de 10 capítulos, essa tensão não consegue se manter sempre em alta por certos problemas de ritmo da temporada. 

O início é caótico e muito bem executado, porém depois temos uma queda na urgência e acontecimentos mornos, com subtramas que não são devidamente exploradas. Apenas com os capítulos finais é que a tensão volta às alturas. Com episódios semanais, talvez o mais recomendado para Snowpiercer seja assistir tudo em maratona, assim os momentos parados se tornam menos evidentes.

Foto: Divulgação

Altos e baixos

Outro ponto importante a ser apontado na série é que os seus personagens são tanto a sua força quanto a sua fraqueza. É estranho notar que podemos contar nos dedos o número de passageiros no trem com os quais conseguimos ter um envolvimento real, mas são estes com os quais nos importamos que fazem a série seguir em frente.

A partir da premissa de um trem com os últimos remanescentes da Terra, é natural que o seriado nos apresente um sem-número de personagens para tentar emular essa diversidade, porém poucos são realmente bem-aproveitados nas tramas. Alguns possuem importância apenas quando a narrativa precisa – sem ter um desenvolvimento claro – enquanto outros têm um foco redobrado. 

Como exemplo, cito LJ (Annalise Basso), que teve a sua dose de relevância na temporada passada, mas que depois só tem breves aparições e nenhuma linha narrativa clara. Por outro lado vemos Ruth (Alison Wright), que parecia uma antagonista rasa no ano anterior e nos novos episódios apresentou um dos melhores desenvolvimentos de personagem da temporada.

Junto a ela trago também o maníaco e bem executado Wilford, com o qual Sean Bean trouxe um vilão ameaçador na medida certa, além de extremamente ciente de todo o seu poder. O personagem é alguém com o ego nas alturas e mania de dominação – representada por cenas perturbadoras que são um gatilho para automutilação – , tudo isso sem se tornar caricato em nenhum momento, o que só nos faz odiá-lo ainda mais.

Foto: Divulgação

Veredito

Mesmo com problemas claros de ritmo, Expresso do Amanhã segue trazendo uma trama consistente e com boas reviravoltas. A série se beneficiaria de uma maior atenção aos detalhes, e seu universo extremamente rico ainda traz muito potencial a ser explorado. Contudo, não há como dizer que ela não faz um bom trabalho ao perscrutar a condição humana levada aos extremos, o que é um de seus pontos fortes.

O novo ano coloca os conflitos nas alturas e mostra que não tem medo de reduzir ainda mais o que resta da humanidade para mostrar todo o poderio dos vilões. Aqui somos brindados com uma disputa entre ego e justiça, em que vemos nossos mocinhos metendo os pés pelas mãos ao tentar se manter em uma linha muito certa, enquanto seu antagonista se mostra cada vez mais inescrupuloso com seus métodos.

Expresso do Amanhã termina com um mais um gancho intrigante e que deixa muitas perguntas para sua já confirmada terceira temporada. Esperamos que esta chegue com um ritmo mais consistente, além de decisões mais firmes por parte dos nossos heróis – ou então não vai sobrar mais ninguém por quem lutar dentro do trem.

Pontos positivos

  • Bom desenvolvimento para alguns personagens
  • Início e final cheios de tensão
  • Vilão marcante

Pontos negativos

  • Personagens descartáveis dentro da narrativa
  • Problemas de ritmo
  • Subtramas mal-desenvolvidas

NOTA: 8