Veredito de O Coração é o Último a Morrer

05/06/2022 - POSTADO POR EM HQs/Livros
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A mais nova distopia da consagrada autora Margaret Atwood chegou este ano ao Brasil pelas mãos da editora Rocco. O romance O Coração é o Último a Morrer apresenta uma trama bastante instigante, mas com personagens de moral questionável. Será que essa combinação deu certo? Continue lendo para descobrir.

Utopia ou distopia?

Logo nas primeiras páginas do livro conseguimos entender sobre o ponto de partida da trama: após um colapso econômico o casal Stan e Charmaine se vê morando em um carro velho, sobrevivendo com poucos dólares ao dia e sem perspectiva de sair daquela situação. 

Tudo muda quando Charmaine vê a propaganda do Projeto Positron na TV, que promete a oportunidade de teto garantido, emprego digno, além de segurança física e financeira. Então por que não? Parece bom demais para deixar passar. 

O casal se inscreve para, o que eles logo descobrem, ser uma espécie de experimento. As pessoas envolvidas devem se revezar mês a mês: um grupo fica na cidade de Consilience, vivendo uma vida civil comum, enquanto precisam ficar no presídio de Positron, realizando outro tipo de trabalho. A cada 30 dias essas equipes trocam.

A ideia aqui, segundo os organizadores do projeto, é garantir empregos para todos e um local auto sustentável a longo prazo. Porém, conforme o tempo passa, Charmaine e Stan descobrem que essa provável utopia não é tão perfeita assim.

“[…] Ela está muito entusiasmada! Quando Stan vier pegá-la, eles podem usar o telefone para saber mais detalhes. Ela pode sentir a sujeira de seu corpo, sentir o odor vindo de suas roupas, de seus cabelos, o cheiro da gordura rançosa das asas de frango da loja ao lado. Tudo isso pode ser abandonado, ela pode se descascar como uma cebola, pode largar aquela pele e ser uma pessoa diferente.”

O Coração é o Último a Morrer, pág. 44

Conhecendo o projeto

Se você já leu outros livros da autora, como O Conto da Aia, sabe que Atwood consegue realizar construções de mundo detalhadas, além de instigantes desde o primeiro momento. E é exatamente o que acontece aqui.

Desde as primeiras páginas você consegue se colocar na pele dos protagonistas, vivendo uma realidade opressora e topando qualquer coisa para sair dela. Assim, pular para a parte de Consilience parece um verdadeiro alívio, até que certas coisas começam a surgir.

A explicação da cidade e do projeto como um todo é bastante interessante, apesar de não tão profunda quanto poderia ser. Como só vemos as coisas pelos olhos de Stan e Charmaine, não temos como acessar recantos mais obscuros de Consilience, o que seria muito bem-vindo dado os rumos que a trama toma.

“Já é primeiro de outubro. Mais um dia de transição. Onde o tempo se foi?”.

O Coração é o Último a Morrer, pág. 106

Reviravoltas

Agora, sobre a trama em si, nós chegamos ao problema. Ver toda aquela construção de mundo e as possibilidades que ela poderia nos apresentar em contraponto com o que realmente recebemos é uma decepção.

É muito fácil ficar instigado por aquele ambiente, pensar nas tramas mirabolantes e conspiratórias que caberiam ali. Não que o livro careça de informações bizarras sobre o lugar, mas elas não passam de comentários e nunca ganhamos o devido aproveitamento.

Assim, nos deparamos com nada mais do que um drama novelesco, mas que tem o diferencial de resistir em um ambiente distópico futurista. Isso obviamente interfere no que está sendo contado, mas seu aspecto simples nos leva a pensar que poderia acontecer em qualquer outra realidade, se fosse permitido fazer adaptações.

“De olhos fechados, recuperando o fôlego, ela percebe o quanto realmente está preocupada: em uma escala de um a dez, é pelo menos um oito. E se Stan realmente souber?”

O Coração é o Último a Morrer, pág. 107

Expectativas x realidade

As expectativas podem matar uma obra, tanto as que o público cria como o próprio autor faz, e aqui parece ter sido uma infeliz combinação das duas. Ao conferir a sinopse e o início da trama, somos levados a crer que a narrativa irá criticar o modelo opressor do capitalismo, a ganância dos empresários de criarem uma utopia, a hipocrisia de se desviar do caminho por baixo dos panos, ou qualquer coisa semelhante. 

Em vez disso, o livro se foca em acompanhar as relações problemáticas dos protagonistas. O que se torna outro problema, já que Stan e Charmaine são ambos detestáveis, o que anula qualquer chance de nos importarmos com os seus destinos. 

As minhas próprias expectativas como leitora de Atwood também têm um papel nessa frustração. O Conto da Aia não deixa de ser uma trama menor e focada, assim como O Coração é o Último a Morrer, mas o contexto todo se desenrola brilhantemente, nos instigando a continuar a história. No livro atual, a narrativa contida parece apenas um desperdício de ambientação, nos forçando a acompanhar personagens desinteressantes e com os quais não nutrimos a menor empatia depois um tempo. 

“- Eu preciso de uma cerveja – comentou ele.

– Trabalhe para isso – disse ela, abruptamente áspera de novo. Ela deslizou a mão para cima da perna dele, apertou com força.”

O Coração é o Último a Morrer, pág. 155

Veredito

Ao contrário de ser uma distopia instigante, como muito bem poderia ter sido, O Coração é o Último a Morrer desperdiça sua excelente ambientação com uma trama murcha. As reviravoltas de sua narrativa renovam as esperanças do leitor em ver algo mais profundo, apenas para seguir no que já vinha sendo contado.

O livro ainda consegue tocar em temas sensíveis, mas eles ficam mais na área do comentário, do que uma reflexão real. Infelizmente uma história que tinha tudo para ser excelente, mas joga fora seu próprio potencial. Poderia pelo menos ser mais curta, obrigando o leitor a acompanhar mais de 400 páginas que não se justificam.

Pontos positivos

  • Boa ambientação

Pontos negativos

  • Trama enfadonha
  • Personagens detestáveis

NOTA: