O cinema nacional acaba de ganhar uma obra de impacto internacional com a estreia de Feito Pipa. Gravado nas paisagens marcantes de Quixadá, no Ceará, o longa conquistou os olhares do mundo ao vencer o prestigiado Urso de Cristal de Melhor Filme no Festival de Berlim.
Mas será que a produção entrega toda essa emoção nas salas de cinema? Assistimos e contamos os detalhes nesta crítica!
Enredo
A narrativa apresenta Gugu (Yuri Gomes), um garoto de 11 anos criado por sua avó, Dona Dilma (Teca Pereira), em um ambiente de afeto, escuta e liberdade, onde brincar vai do futebol nos campinhos até a experimentação com maquiagem artística. Essa rotina luminosa começa a ruir quando Dona Dilma apresenta os primeiros sinais de esquecimento, progredindo até o diagnóstico definitivo da Doença de Alzheimer.
Diante do avanço do quadro clínico, Gugu precisa se mudar para a casa de seu pai, Batista (Lázaro Ramos). Distante da dinâmica sensível que o garoto conhecia, Batista demonstra dificuldade para compreender o universo do filho, impondo barreiras e limitando a espontaneidade que sempre definiu o menino.
Feito Pipa emociona logo nas primeiras cenas ao retratar a cumplicidade entre avó e neto, construída com uma intimidade que ultrapassa os laços biológicos. O desenvolvimento do Alzheimer recebe um olhar responsável e comovente: à medida que esquece o neto no presente, Dona Dilma passa a reviver com clareza as lembranças da filha falecida, retratando com fidelidade o fenômeno clínico do retorno a memórias remotas.
Um dos maiores acertos poéticos do roteiro surge na metáfora da barragem em seca, cujo recuo das águas revela uma antiga igreja submersa. A imagem sintetiza de maneira primorosa o processo da perda de memória recente e a emersão do passado distante. Ao mesmo tempo, o sertão cearense ganha um retrato vibrante, festivo e caloroso nas noites de forró e encontros comunitários, sem romantizar ou esconder as reais adversidades do cotidiano local.

Bastidores e Resistência
A essência de Feito Pipa bebe das lembranças de infância do diretor Allan Deberton e do roteirista André Araújo na cidade de Russas, no interior do Ceará. Ambos cresceram sob a presença marcante de suas avós, convivendo com a sensação de deslocamento social que moldou o coração do argumento da obra.
Mesmo diante de uma proposta afetuosa e universal, Allan relata que a produção enfrentou forte resistência comercial nos grandes centros do mercado audiovisual, esbarrando em preconceitos regionais e no receio de distributivas quanto ao perfil do protagonista. O projeto ganhou viabilidade prática ao vencer editais da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE) e passar pelos laboratórios de desenvolvimento da prestigiada Escola Porto Iracema das Artes, polo fundamental na formação do cinema cearense contemporâneo.

Veredito
Feito Pipa é uma obra sublime e autêntica. O filme fisga o público por meio de um protagonista apaixonante e foge de qualquer armadilha melodramática rasa: os conflitos familiares surgem com honestidade e os impactos do luto ganham contornos de reconstrução e amadurecimento pessoal.
A condução de Allan Deberton evita transformar a doença em espetáculo apelativo, inserindo a finitude como parte orgânica da existência humana. No quesito interpretação, o elenco opera em sintonia perfeita, com Lázaro Ramos e Teca Pereira impecáveis em seus papéis. O grande triunfo, porém, pertence ao estreante Yuri Gomes, que preenche a tela com magnetismo raro, carisma de veterano e talento expressivo tanto nas falas quanto na dança.
Pontos Positivos:
- Roteiro sensível: Abordagem madura, emocionante e sem maniqueísmos sobre a perda de memória.
- Elenco primoroso: Atuações viscerais com destaque brilhante para a revelação Yuri Gomes.
- Metáforas visuais potentes: Direção de fotografia e escolhas poéticas de rara beleza plástica.
- Identidade cultural autêntica: Representação pulsante e humana do sertão nordestino.
Pontos Negativos:
- Nenhum ponto negativo expressivo a destacar.
Nota: 10 / 10