Após mais de 15 anos longe das telonas, Street Fighter ganha uma nova adaptação cinematográfica com a promessa de inaugurar uma franquia de sucesso para o clássico jogo de luta da Capcom dos anos 90. Dirigido por Kitao Sakurai (Bad Trip) com roteiro assinado por TJ Fixman (Bagagem de Risco), o projeto conta com nomes de peso no elenco, reunindo Andrew Koji, Noah Centineo e Jason Momoa para reimaginar o universo que já foi estrelado por Jean-Claude Van Damme no passado.
O Torneio Mundial
A trama acompanha Ken Masters (Noah Centineo) como uma estrela em ascensão nos ringues de luta livre. Após anos de treinamento rigoroso e o impacto da morte violenta de seu antigo mestre, o lutador decide usar suas habilidades para buscar fama e dinheiro, especialmente depois do sumiço repentino de seu parceiro Ryu (Andrew Koji).
Receoso de virar motivo de piada no circuito, Ken enxerga uma grande virada quando Chun-Li (Callina Liang) surge com o convite para um novo Torneio Mundial. O evento surge como a chance perfeita para ele conquistar o título de campeão e, ao mesmo tempo, reencontrar seu melhor amigo nos ringues.
Por trás dos bastidores, Chun-Li executa uma missão secreta para vingar o assassinato de seu pai contra o império militar da Shadaloo, liderado por M. Bison (David Dastmalchian). Com o objetivo de expor a organização criminosa, a agente reúne competidores habilidosos de vários cantos do planeta no famoso torneio clandestino de artes marciais.
Enquanto Ken busca a glória sob uma postura otimista, Ryu tenta se isolar, carregando o fardo de pesados conflitos internos. No momento em que as conspirações da Shadaloo vêm à tona, os guerreiros precisam deixar antigas rivalidades de lado para conter a ameaça letal comandada por Bison.

A Estética e o Espírito dos Anos 90
Embora a trama pudesse funcionar em qualquer contexto temporal, a escolha de ambientar tudo com a atmosfera dos anos 90 enriquece a proposta do longa. Ao abrir mão de uma seriedade excessiva, o filme abraça os clichês clássicos da ação física: pancadaria franca, sangue, diálogos peculiares e a tradicional sensualidade caricata dos fliperamas, criando uma experiência divertida justamente pelo seu descompromisso.
Ao evitar o uso exagerado de telas verdes e cortes rápidos na montagem, a coreografia entrega embates viscerais e fáceis de acompanhar. Andrew Koji brilha no combate corpo a corpo de Ryu, imprimindo força e precisão aos golpes icônicos como o Hadouken, além de manter excelente entrosamento com Noah Centineo, recriando a relação de irmandade entre os protagonistas. Callina Liang impressiona pela agilidade física ao desferir os chutes característicos de Chun-Li, enquanto David Dastmalchian constrói um Bison teatral, megalomaníaco e intimidador, honrando a histórica atuação de Raul Julia.
O design de produção merece destaque ao reproduzir a identidade vintage do jogo original. Os figurinos conseguem emular o visual clássico dos consoles sem parecer fantasias amadoras. Paralelamente, a trilha sonora de Leo Birenberg e Zach Robinson (Cobra Kai) combina temas originais retrô com sucessos marcantes da época.
Outro ponto alto surge nas sequências pontuais de animação 2D usadas nos momentos de lembrança do passado. A decisão de produzir esse material sem ferramentas de Inteligência Artificial reforça a autenticidade artística e fisga o espectador pelo apelo nostálgico.
Nem Tudo São Flores
No empenho de agradar a base de fãs, a narrativa inclui dezenas de lutadores célebres da franquia, como Guile, Balrog, Dhalsim, E. Honda, Dan Hibiki, Akuma e Blanka. Com tanta gente em tela, vários combatentes acabam restritos a pequenas pontas ou viram apenas alívios cômicos momentâneos.
Além disso, se os embates práticos impressionam pela fisicalidade, os efeitos digitais apresentam certas oscilações técnicas. A computação gráfica utilizada para transformar Jason Momoa em Blanka e para recriar as rajadas de energia do Psycho Power de Bison nem sempre atinge o acabamento ideal.
O roteiro cumpre o padrão esperado para adaptações de videogame: uma narrativa simples e direta, cujo foco principal é o entretenimento nas salas de cinema.

Veredito
Street Fighter não tenta se vender como uma obra dramática profunda nem disfarça suas origens nos jogos eletrônicos. Trata-se de uma aventura vibrante, empolgante e totalmente consciente dos absurdos do seu próprio universo. Com boas coreografias, respeito ao material original e um elenco entrosado, consolida-se como a transposição em carne e osso mais divertida da marca até hoje.
Com excessos calculados, resolução ágil de conflitos e foco em diversão despretensiosa, o filme encontra seu público e diverte com louvor. Vale a pena permanecer até o fim para acompanhar a cena pós-créditos, que fecha a exibição com bom humor e audácia.
Pontos Positivos
- Coreografias e cenas de ação
- Direção segura
- Atuações e química do elenco
- Trilha sonora vibrante
- Figurinos fiéis ao material original
- Qualidade das sequências em animação
Pontos Negativos
- Roteiro raso com excesso de personagens
- Oscilações na computação gráfica (CGI)
Nota: 9 / 10