O quão frustrante é acompanhar uma história intrigante que não tem um fechamento? Seja um livro, um filme ou uma série, somos acostumados a um arco dramático completo quando consumimos um produto de entretenimento.
“Mistérios sem Solução” é o reboot da famosa série que estourou no fim dos anos 1980 e encerrou apenas em 2010. Na última semana, os primeiros 6 episódios chegaram à Netflix, todos baseados em casos reais. Será que vale a pena assistir?
A escalada da tensão
Prender a atenção do espectador nos primeiros minutos é um dos grandes desafios de qualquer obra audiovisual. Uma vez que consiga isso, quem criou tem outra missão: entregar um desfecho para aquela história. A estrutura clássica de apresentação dos personagens e dos problemas com que lidam, o enfrentamento dessas questões e a resolução destas é seguida por diversos criadores.
“Mistérios sem Solução” não nos dá esse finale de suas histórias. A série, dos mesmos produtores de “Stranger Things”, possui, desde sua criação, em 1987, o mote de apresentar ao público um caso real que nunca foi terminado.
O reboot de 2020 traz 6 episódios que ocorreram, na maioria, nos Estados Unidos, nas últimas décadas. Apenas o 3º – um dos melhores, inclusive – ocorreu na França. Todos conseguem, nos momentos iniciais, nos lançar questionamentos acerca do mistério a ser explorado que nos engajam a acompanhar com atenção o desenrolar dos casos.
A escalada para seus pontos de maior tensão é feita de forma orgânica e, em alguns casos, não atinge seu pico dramático esperado. Infelizmente, a maior parte das histórias da série são de crimes dos quais diversas peças ainda faltam.
Foto: Divulgação
O desconforto da dúvida
De corpos encontrados dias após o assassinato da vítima à relatos de abdução por OVNIS, “Mistérios sem Solução” sempre carrega o forte elemento da dúvida. Aqui, não como um recurso narrativo conveniente, mas toda a base da estrutura da série. E é difícil para o público aguentar a frustração por não receber as respostas em suas mãos.
Mais frustrante ainda para as várias famílias e amigos das vítimas, que precisam suportar há anos as incertezas quanto ao casos expostos. Nos episódios “Mistério no telhado” e “Sem carona”, não há sequer uma figura dos possíveis culpados, apesar do incessante trabalho de investigação.
Foto: Divulgação
Veredito
A série deixa a entender, em dois casos, quem seriam os responsáveis pelos crimes, como nos capítulos “Casa do terror” e “Testemunha desaparecida”. Porém, a forma como constroem a enigmática imagem desses personagens compensa pela quebra da especulação dos suspeitos.
Sempre com uma fotografia trabalhada ora em close-ups dos entrevistados, ora em planos abertos – alguns lindos feitos por drone -, “Mistérios sem Solução” utiliza recursos gráficos e reconstrução de cenas que nos explicam de forma didática os casos e acrescentam muito ao tom dramático/tenso deles.
Um trabalho documental excelente, prezando pela apuração e pela edição, que performam um ritmo perfeito em quase todos os episódios. Para quem gosta de investigação criminal e até teorias da conspiração, um prato cheio. Os outros 6 episódios da 1ª temporada devem chegar à Netflix até o fim de 2020.
Pontos fortes
- Trabalho jornalístico de alta qualidade
- Nível técnico que se destaca
Pontos fracos
- 5º episódio fora de contexto dos outros
NOTA: 9