Acaba de chegar aos cinemas o remake de O Beijo da Mulher Aranha, clássico lançado em 1985 e estrelado por Raul Juliá e pela brasileira Sônia Braga. Nesta nova versão, Jennifer Lopez assume o papel da protagonista feminina. Mas será que a releitura faz jus ao original? A seguir, nossas impressões.
Enredo
Em 1983, a Argentina vivia sob uma ditadura violenta, marcada por perseguições, prisões e mortes de opositores do regime. Valentim (Diego Luna) é um revolucionário encarcerado por se recusar a delatar seus companheiros.
Seu cotidiano muda com a chegada de Molina (Tonatiuh Elizarraraz), um vitrinista apaixonado por cinema que passa a dividir a cela com ele. Para escapar da dureza da prisão, Molina narra filmes que assistiu, criando um refúgio imaginário. Aos poucos, essa troca aproxima os dois e dá origem a um vínculo inesperado.

Bom filme, musical mediano
O longa é uma nova adaptação do romance homônimo de Manuel Puig, publicado em 1976, que já havia sido levado ao cinema em 1985 sob a direção de Héctor Babenco. A proposta é interessante: além de um metafilme, a narrativa se desenvolve em dois planos paralelos e incorpora elementos de musical, repletos de metáforas bem construídas.
No entanto, as sequências musicais não alcançam o mesmo impacto do restante da obra. Falta energia, e em vários momentos o espectador anseia pelo retorno às cenas ambientadas na cela. Embora Jennifer Lopez cante e dance com excelência, sua interpretação soa excessivamente afetada, flertando com o caricatural. O figurino dessas cenas também decepciona, transmitindo a sensação de algo inacabado ou pouco lapidado.

O contexto histórico
Durante as décadas de 1960, 70 e 80, a América Latina enfrentou uma série de ditaduras marcadas por forte censura e repressão. Inserido nesse cenário, o livro de Manuel Puig foi proibido na Argentina, mas ganhou circulação internacional e repercussão fora do país.
Babenco, argentino naturalizado brasileiro, demonstrou grande interesse em adaptar a obra para o cinema. Seu longa foi aclamado pela crítica, mas teve desempenho modesto de bilheteria. Ainda assim, recebeu indicações ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator (William Hurt), vencendo nesta última categoria.
Veredito
O remake de O Beijo da Mulher Aranha chega em um momento oportuno, em que o escapismo se torna quase uma necessidade. Ainda assim, falta à nova versão o brilho do original, especialmente nas cenas musicais, que carecem de maior cuidado e impacto. A performance de Lopez também não alcança o mesmo nível dos demais elementos do filme, apesar de sua impecável execução vocal e corporal.
Por outro lado, Luna e Elizarraraz entregam atuações fortes e complementares. A dinâmica entre os dois, marcada por contrastes, sustenta a narrativa e surpreende quem não conhece a história original.
As músicas não são memoráveis a ponto de permanecerem com o espectador após a sessão, mas cumprem seu papel narrativo. E, novamente, vale destacar: a voz de Jennifer Lopez está irrepreensível.
Pontos positivos:
- Atuações de Diego Luna e Tonatiuh Elizarraraz
- Releitura respeitosa do material original
Pontos negativos:
- Atuação de Jennifer Lopez
- Iluminação excessivamente escura em algumas cenas
- Números musicais pouco empolgantes
NOTA: 7,5/10