Veredito de O Milagre

24/11/2022 - POSTADO POR EM Filmes
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Florence Pugh aumenta sua lista de filmes em que protagoniza uma jovem chegando em um local com uma vibe esquisita e com mistérios a serem descobertos (da mesma família de Midsommar e de Não se Preocupe, Querida). 

O Milagre, lançamento da Netflix, leva a nova queridinha da indústria cinematográfica para um vilarejo irlandês no século XIX, em que deve observar uma garota com uma capacidade sobre humana: sobreviver meses sem se alimentar. Será que o filme vale a pena?

“Força” da Fé

A enfermeira Lib Wright (Florence) é contratada para monitorar Anna (Kíla Lord Cassidy), uma menina de 11 anos de um vilarejo na Irlanda que não come nada há quatro meses

Os habitantes e visitantes a veem como uma nova santa, nutrida somente pelo Maná do Céu (como a jovem chama seu alimento sagrado), durante uma época de muita fome, que matou mais de um milhão no país.

Lendo assim, parece uma obra bem espiritual e de superação por meio da fé. Pois não é o que o diretor chileno Sebastián Lelio quer que você pense. 

Desde o minuto inicial, o espectador já entende que a proposta é desafiar suas crenças. “Nós não somos nada sem histórias”, como diz uma narradora em off no começo, meio e fim do longa.

Nada de trilha sonora otimista, cores vibrantes ou uma sensação de intercessão divina. Há sempre uma aura de mistério entre os diálogos das protagonistas diante de cenários sem vida, um clima desolador que casa bem com a interpretação firme de Florence, a “voz da razão” entre adultos que querem um motivo para celebrar um milagre, por menor que seja.

Imagem de divulgação de O Milagre

Milagre ou desespero?

O confronto da enfermeira com o comitê formado no vilarejo para analisar Anna nem se compara ao seu conflito pessoal ao longo dos 100 minutos de duração do longa.

Como mãe em eterno luto pela morte de seu bebê e sem família para se amparar, resta à Lib apenas a chance de ajudar aqueles que precisam. Porém, quando o auxílio não é bem vindo, perigando a morte por escolha própria, o lado profissional vai falar mais alto que a moral

Ainda mais após a revelação de todo o “milagre” do longo jejum, transvestindo uma forte e discutível penitência. Afinal, vale tudo para salvar um lugar nos céus para uma alma “pecadora”?

Imagem de divulgação de O Milagre

Veredito

O ritmo crescente mirando a resolução do mistério tem seu pico no terço final, explicando sem detalhes – nesse caso, foi até melhor assim – os motivos para cada personagem apoiar ou não o jejum da criança.

O Milagre é muito direto em sua linha realista, focando sempre na lenta investigação da enfermeira ao invés de entender as crenças da família. Para mim, é o ideal pela proposta mais analítica do que religiosa.

O filme é adaptado de um livro de mesmo nome, escrito por Emma Donogue, baseado em uma história real. Segundo o diretor, a intenção foi realizar um paralelo entre as apelações divinas vs constatações científicas tão conflitantes nos discursos atuais.

“A dinâmica do poder pode ter acontecido na década de 1860, mas está em total ressonância com a que ainda está operando hoje. Então, de alguma forma, estamos presos no mesmo tipo de narrativa. A abertura e o final são uma forma de dizer: ‘É hoje. Isto é agora.’”, comentou Lélio em entrevista à revista Total Film.

Há quem apoie o investimento da Netflix nesta obra para a campanha do Oscar 2023, com destaque para Melhor Atriz para Florence Pugh. Cedo para afirmações, entretanto, é uma opção viável.

Pontos negativos:

  • Pouco avanço e muita repetição de discursos até a metade

Pontos positivos:

  • Conflito interno entre lado moral e profissional da protagonista
  • Escalada final do mistério

NOTA: 7,5/10