Veredito de Caminhos da Memória

19/08/2021 - POSTADO POR EM Filmes

Existe vida após o Wolverine, e Hugh Jackman está aí para provar. Chega aos cinemas o filme Caminhos da Memória, produção que mistura ficção científica com film noir. Junto com o ator, completam o elenco Rebecca Ferguson (da franquia “Missão: Impossível”) e Thandiwe Newton (Westworld).

O longa marca a estreia de Lisa Joy, co-criadora e produtora executiva da série Westworld (2016- ), na direção, roteiro e produção para o cinema. Mas o resultado final é algo memorável ou esquecível? Confira a seguir.

“Você vai embarcar em uma jornada…”

Num futuro não tão distante Miami está parcialmente submersa, com água do mar invadindo as ruas, classes sociais estratificadas no espaço urbano e cidadãos de hábitos notívagos.

É nesse território decadente e desiludido que o veterano de guerra Nick Bannister (Hugh Jackman) toca seu negócio como investigador de memórias, em parceria com sua amiga Watts (Thandiwe Newton).

Nick faz com que seus clientes relembrem memórias felizes, esquecendo assim o presente e o futuro. Uma dessas clientes é Mae (Rebecca Ferguson), uma cantora de bar que rapidamente apaixona-se por Nick. Após seu sumiço repentino, o investigador vai a fundo nas próprias lembranças e descobre fatos e conspirações que podem colocar sua vida em risco.

Imagem: Divulgação

Tecnologia e declínio

A identidade de Caminhos da Memória está na junção de dois estilos que já se cruzaram em determinados momentos no cinema: a ficção científica e o film noir. Enquanto o primeiro é mundialmente conhecido pela introdução das inovações científicas dentro de histórias fantásticas, o segundo é uma exaltação estética dos romances policiais pós-Grande Depressão, no qual há detetives cínicos, mulheres fatais de moralidade ambígua e fotografia preto e branco em alto contraste (daí o nome, “filme preto”, em francês).

Esses elementos primários, mesmo que dosados, estão presentes no filme. Nick é o clássico personagem que vive em apatia e amargura. Ele age única e exclusivamente na busca de sua motivação pessoal, sem grandes atitudes altruístas. Mae, sua femme fatale, demostra uma personalidade dúbia que nos confunde sobre seu carater e reais intenções. Watts é a única orientação para que Nick não se desvie a ponto de se perder num passado viciante.

Entre eles, uma cidade não só alagada pelo mar, mas também pela corrupção, desilusão e conflitos sociais. Em seu passado, uma guerra pouco explicada, mesmo estando presente nas lembranças de outros personagens. A origem desses fatos é deixada para o entendimento do espectador, sugerindo uma relação com as mudanças climáticas do aquecimento global.

Sobre a tecnologia, é apenas no “tanque”, aparelho usado para a investigação da memória, onde a especulação científica acontece. Fora isso, prevalece distopia urbana. Letreiros de boates em neon, céu nublado, ventiladores de teto, venezianas entreabertas e boas doses de álcool na mão dos personagens. Tudo bem realista, com pequenas doses vintage e longe de soar como Blade Runner (1982), pioneiro na junção do sci fi com o noir.

Imagem: Divulgação

Jornada feita na memória

Ainda falando sobre influências do film noir, a diretora Lisa Joy utiliza no roteiro duas características conhecidas: narração do protagonista e flashbacks, técnicas vistas em produções clássicas como Fuga ao Passado (1947), Crepúsculo dos Deuses (1950) e A Dama de Xangai (1947).

A voz modorrenta de Nick conduz a trama, esclarecendo questões pessoais e as problemáticas de onde vive. Diferente de um relatório ou diário, na narração de Caminhos da Memória são usadas sentenças que tentam imprimir uma verve poética e filosófica (e não só na voz do narrador). O que consegue em poucos momentos, já que na grande maioria das vezes essas reflexões não impressionam, mostrando-se enjoativas, rebuscadas e expositivas em momentos desnecessários

Em termos de flashback, temos o maior trunfo do filme. Aproveitando da tecnologia do tanque, vemos boas transições de cena entre a memória e a realidade, feitas com o propósito de confundir. A fotografia não apela muito para o sombrio, com bom aproveitamento em ambientes mais iluminados. Entretanto, em certos momentos de romance a aparência de comercial de perfume vem à mente graças a trilha sonora pouco inspirada.

Mesmo com terreno fértil para discussões mais profundas, o filme não se desenvolve para tanto. Se não fosse pela (provável?) alegoria sobre “afundar nos fracassos, no passado e no amor”, o alagamento em Miami poderia passar despercebido como elemento narrativo. Vemos também que os temas de impunidade e conflitos de classe tem importância mais ao final da trama, sem desenvolvimento crescente e de forma repentina. 

E o romance? Rápido demais para ser desenvolvido, mal temos tempo para avaliar se a motivação do protagonista condiz com todas as atitudes que ele toma em nome da amada fatal. Não fosse a habilidade do roteiro em criar mudanças significativas na trajetória da personagem Mae, poderíamos dizer que não valeria a pena.

Imagem: Divulgação

Veredito

É de se destacar em Caminhos da Memória uma originalidade em sua temática central, ao oferecer uma abordagem sci fi e distópica mais próxima da realidade. Tem uma ação que, mesmo concentrada em poucos momentos, possui impacto. A atuação de Thandiwe Newton é extremamente convincente e com um ótimo drama, sendo a voz da razão no filme.

Com mais temáticas que pode suportar, é perceptível que Lisa Joy, no roteiro e na direção, tenha optado por apoiar-se nos clichês do noir em detrimento de maior acabamento na trama, personagens e contextos aleatórios. Tanto no drama como na ação, ficção científica ou film noir, o resultado final é insuficiente

Num futuro próximo, quando as problemáticas socioambientais anunciadas no filme se tornarem reais (tal como aconteceu em Waterworld – O Segredo das Águas), nós talvez tenhamos uma lembrança mais favorável de Caminhos da Memória.

Pontos positivos

  • Abordagem mais realista dentro da ficção científica
  • Modernização de alguns clichês do film noir
  • Atuação competente de Thandiwe Newton como coadjuvante
  • Ótimas transições entre flashback e momento presente

Pontos negativos

  • Trama e subtramas com parco desenvolvimento
  • Pouco convencimento no relacionamento amoroso do protagonista
  • Trilha sonora sem relação com o filme
  • Diálogos pedantes 
  • Pouco aproveitamento de cenas de ação

NOTA: 5