Oscar 2021: o risco mal calculado

27/04/2021 - POSTADO POR and EM Filmes E Oscar

Já era imaginado que o primeiro Oscar durante a pandemia mundial de Covid-19 seria diferente de todas as outras edições, mas ninguém esperava reviravoltas tão grandes – e desnecessárias – para a maior premiação do cinema. Confira nosso veredito sobre a cerimônia do Oscar 2021.

Imagens: Divulgação

Mudança de Ambiente

Com um novo time de produtores que incluem o cineasta Steven Soderbergh, diretor da trilogia Onze Homens e um Segredo, a cerimônia foi realocada pela primeira vez em vinte anos, trocando o tradicional Dolby Theatre pela Union Station, principal estação de trem de Los Angeles.

Em um auditório construído com mesas dispostas em uma estrutura verticalizada, a plateia estava mais intimista do que o normal, e o palco trocou o visual elaborado por um design minimalista com painéis (ou grandes TVs) nas laterais. 

Além da Califórnia, a transmissão tinha pontos ao vivo com indicados e apresentadores que participavam diretamente de cidades como Paris, Londres, Seoul e Sydney. Este foi o terceiro ano consecutivo sem um anfitrião fixo, formato que já vimos que funciona, mas que desta vez não favoreceu os trabalhos – uma figura condutora fez falta.

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Momentos sem brilho

Após um começo elegante, com uma vinheta de abertura clássica enquanto Regina King desfilava até chegar ao palco, a cerimônia se acomodou em um ritmo um tanto quanto monótono. 

Sem as apresentações dos indicados a Melhor Canção Original (que ocorreram durante o Tapete Vermelho), os apresentadores foram encarregados de falar sobre os concorrentes, sendo que em muitas das categorias não foram exibidos clipes dos indicados, o que teria ajudado a materializar os discursos.

A dancinha de Glenn Close depois do teste de Lil Rel Howery sobre canções que levaram um Oscar teria sido cômica se não fosse encenada. Segundo o Los Angeles Times, o momento estava no script, o que tira seu charme em grande parte.

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A passos muito curtos

A maior diversidade nas categorias de atuação indicam um aprendizado após as constantes manifestações, como a do “Oscars so White”. A vitória de Yuh-Jung Youn, primeira sul-coreana a levar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, é um ótimo indício dessa evolução.

Entretanto, a conquista do Curta-Metragem Two Distant Strangers, uma tortura racial transformada em estética preguiçosa com uma mensagem clara e mal executada, mostra que a Academia ainda tem muito o que aprender e cai em pegadinhas facilmente.

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Ousadia mal recebida

Com uma ordem de prêmios totalmente incomum – Melhor Direção foi entregue na primeira metade da cerimônia e as categorias de Melhor Atriz e Ator encerraram a noite sendo entregues depois de Melhor Filme, a audiência ficou um tanto perdida. A sensação é de que cortaram o bolo e o comeram antes de cantar os parabéns.

O final abrupto também foi motivo de estranheza. Muito se especula que o prêmio de Melhor Ator foi escalado como o último da cerimônia para homenagear Chadwick Boseman, favorito para levar a estatueta ainda que de forma póstuma. Porém, Anthony Hopkins foi anunciado como vencedor, e como eram 4h da manhã no País de Gales, onde o ator estava de férias (e não eram permitidas participações por videoconferência), o apresentador Joaquin Phoenix aceitou o prêmio por ele e a transmissão foi encerrada.

Ainda que a atuação de Hopkins tenha sido a maior entre os indicados e uma jóia na coroa do veterano, o visível erro organizacional dos produtores ao tentar prever o resultado da categoria e encerrar a noite em um momento emotivo, de celebração de um legado, acabou deixando um gosto amargo para a audiência. Um risco alto demais para o tamanho da cerimônia. 

Houvesse sido mantida a ordem tradicional de Melhor Filme por último, a vitória (merecida e esperada) de Nomadland teria concluído a cerimônia com uma nota muito mais palatável e bonita – com direito aos uivos de Frances McDormand.