Entrevista: Kleber Mendonça Filho reflete sobre cinemas de rua em Retratos Fantasmas e revela novo projeto

22/08/2023 - POSTADO POR https://roteironerd.com/cassinos-com-bonus-de-cadastro-sem-deposito EM Conteúdo E Filmes

Retratos Fantasmas, novo longa de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, Bacurau), será lançado no circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira (24). A produção abriu o Festival de Gramado no dia 12 de agosto e teve pré-estreia ontem, dia 21 de agosto, no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza. 

O documentário/ficção, dividido em três partes, explora o crescimento da carreira do diretor a partir do apartamento de sua família, em Recife; a dinâmica volátil dos cinemas de rua da capital pernambucana, além de discutir as mudanças nas vivências artísticas na cidade entre o século passado e os dias de hoje.

O Roteiro Nerd conversou com o autor acerca da construção do filme, dos objetos discutidos entre as partes, e do próximo projeto em formato documental de Kleber

O diretor revelou que planeja montar um longa sobre o movimento manguebeat, importante expressão artística que efervesceu o campo musical recifense na década de 1990, época em que ele próprio iniciou sua carreira cinematográfica.

Confira a entrevista completa abaixo.

Roteiro Nerd: Você tinha twittado na última semana sobre seu curta A Copa do Mundo no Recife, de 2014, e que ele seria um irmão mais velho do Retratos Fantasmas. Vi ali semelhanças entre os dois, como na cena do taxista que também está no trailer do filme. Fiquei me perguntando quanto a isso, caso queira elaborar…

Kleber Mendonça Filho: Você é a 1ª pessoa a falar isso, não tinha nem pensado sobre. Foi a 1ª vez que eu coloquei a minha voz, né? Coisa que eu não achava que faria lá atrás. Mas aí você vai se refastelando nos seus filmes e vai se sentindo mais à vontade. Muito tempo depois, trabalhando no Retratos Fantasmas, nem pensei duas vezes, achei que seria natural narrar eu mesmo.

RN: E o que é que você diria que mudou do Kleber cineasta naquela época para hoje? Pegando a última obra “documental”, como é que a sua visão artística mudou entre 2014 e hoje nesse aspecto estilístico?

KMF: Acho que o Copa do Mundo já é bem desencanado com certas preocupações. Acho que o próprio material do crítico era um pouco austero, né, porque na verdade são pessoas que têm uma relação muito forte com o cinema e eu filmei da maneira que eu pude durante muitos anos que trabalhei como crítico.

Então, eu tirava a câmera da bolsa, colocava aqui e tinha muito plano que você vê mais a papada da pessoa. Não são assim muito bem filmados, mas são registros. E aí o crítico é um pouco cru… Eu gosto do crítico, mas é como se fosse outro momento. No Copa do Mundo, já tô muito desencanado. Eu quero fazer um filme com uma montagem rápida, que mostre uma série de observações que eu tô fazendo.

O Retratos é um pouco isso, mas acho que ele é mais trabalhado porque é um filme sobre cinema. A quantidade de trabalho foi muito grande no som, na construção de uma certa atmosfera. Queria que ele soasse inicialmente como um documentário. Inclusive, durante os 25 minutos do começo, ele é mono, é só central, atrás da tela. Quando começa a segunda parte, ele vira um monstro, né? Vira um filmão, e aí sim deixa de ser essa ideia de documentário e começa a ser uma outra coisa, e o som acompanha isso.  

É um outro degrau, sem nunca desmerecer o Copa do Mundo, que acho ótimo, mas é só porque o filme pediu. Não é que eu melhorei, é que o filme pediu esse tratamento, entendeu? O Copa do Mundo foi feito para o SporTV, para a TV. Já vinha embutido nele uma certa simplicidade.

RN: Falando sobre cinema de rua, um personagem importante no Retratos. Cinemas de rua, como esse em que estamos, são personagens importantes no Retratos, e minoria no Brasil e no mundo, infelizmente. Nos cinemas comerciais, principalmente em shoppings, quando a gente sai da sala, somos convidados a entrar numa loja ou na praça de alimentação. O cinema de rua é diferente: o convite é para explorar a cidade. Como Retratos Fantasmas reflete sobre esse tipo de vivência e outras que estão se perdendo?

KMF: Ele reflete sobre isso tudo, mas espero que ele não tenha um tom de “era tudo tão melhor antigamente“. Acho que ele faz observações que você pode talvez achar isso. Mas, ao mesmo tempo, o filme é muito sobre a mudança do mundo através do tempo.  

Eu tenho sido um observador do cinema sério, quase profissional, há quase 30 anos. Então, eu tenho uma clareza dessas alterações que as cidades, o mercado e o cinema passaram nesses 30 anos. O filme é muito sobre como o tempo altera os lugares e comportamentos.

Muito disso vem do mercado, que manipula para as coisas mudarem, né? Não tem nada de errado com você ter uma experiência no Cine São Luiz. Na verdade, é uma experiência especial muito incrível. E aí você sai para rua. Mas o sistema que predomina no mundo hoje é você sair para um corredor branco de shopping e dele para a praça de alimentação, para o estacionamento… É tudo muito estéril.

Ao mesmo tempo, acho engraçado que tem um shopping no Recife que imita a cidade. Ele tem nome de rua e a praça de alimentação tem um nome de uma praça real que existe como se fosse um estúdio da cidade, uma projeção fictícia dela. O que eu acho irônico porque o shopping, e todo o poder em torno da ideia do shopping, vendeu muito: falta de segurança, sujeira, drogados, cocô, todas essas coisas que a classe média e a burguesia começaram a adotar para falar mal do centro da cidade.

Na minha cabeça, as coisas poderiam viver juntas. Eu poderia ter um centro forte e interessante para compras e um Shopping Center forte também presente, mas no capitalismo, sempre para introduzir um novo produto tem que acabar com o produto anterior.

RN: Eles não podem coexistir, né… Sem espaços como esse e com a evolução do streaming, que vimos muito com a pandemia também, obras como a sua, sobre memórias espaciais, sobre experiências sociais, como a de vir em um cinema de rua, tendem a diminuir. O filme hoje é cada vez mais um produto, uma mercadoria na prateleira que você pega, assiste e pronto, do que uma experiência artística. Você acha que tem alguma forma para impedir esse avanço ou até mesmo reverter essa tendência? Ou a partir daqui é só adaptação e pronto?

KMF: Mais uma vez, não quero cair nessa coisa do saudosismo, porque é complexo. Por exemplo, a Netflix pagou por um filme que tava enganchado há quase 50 anos, o filme do Orson Welles, O Outro Lado do Vento, que ele tentou fazer no início dos anos 70 e ficou inacabado até uns anos atrás. Eu vi na minha casa, em 4K, um filme do Welles, feito em 16 mm e 35mm, preto e branco e colorido por causa do streaming. Eles compraram um dos últimos cinemas de rua de Nova York, que vai reabrir agora, super bem equipado, em setembro.

Então, o poder é usado também para trazer o cinema ao mesmo tempo em que eles trouxeram uma ideia de que a sala de cinema, dentro do sistema deles, não é mais importante. É muito complexa a coisa. De toda forma, tivemos agora o fenômeno Barbenheimer, que resquentou a ida ao cinema. Nos Estados Unidos, saiu uma matéria importante dizendo que uma em cada quatro pessoas finalmente voltaram ao cinema depois da pandemia por causa de Barbie.

O Retratos está tendo esse período de pré-lançamento com salas lotadas, uma atenção grande. Obviamente, quero que o ato de ir ao cinema permaneça forte. Ao mesmo tempo tem momentos que eu vou ficar em casa para ver um filme no meu sistema de projeção, que me dá um prazer grande também.

Acho que tudo deveria existir junto. Talvez eu faça um filme um dia para o streaming, mas é muito importante que eu saiba que aquele filme é para essa plataforma. Eu não quero fazer um filme para o cinema e depois descobrir que, na verdade, vai para o streaming. Eu ficaria muito mal com isso. O Copa do Mundo no Recife eu fiz para o SporTV e tudo certo. Ele até teve uma uma carreira em alguns festivais internacionais. Mas ele foi feito pelo Sportv e não tenho problema com isso.

Mas eu fiz o Retratos Fantasmas para ser exibido, em primeiro lugar, na sala de cinema, como eu fiz o Bacurau, Som ao Redor e Aquarius. A sessão de Bacurau aqui no Cine São Luiz foi incrível. Quando eu e Juliano (Dornelles) fizemos aquele filme, a gente sonhou dele ter aquele tipo de sessão. Ele teve muita sorte por ter muitas sessões daquela, na França, Nova York, Recife, Rio, São Paulo, etc. Aquele tipo de sessão constrói a personalidade e o caráter de um filme.

Então, acho que tudo por viver junto. Não lançar esse filme no streaming e na sala de cinema, não. Primeiro, na sala de cinema. Daqui a alguns meses, no streaming, depois no Torrent e tá tudo certo. O que eu não gosto é essa coisa do capitalismo de porque tem algo novo tem que destruir o que tinha antes.

RN: No seu próximo projeto, vai manter esse estilo mais documental ou vai voltar para a parte mais ficcional?

KMF: Tenho um roteiro pronto que eu quero fazer com Wagner Moura no ano que vem, se chama O Agente Secreto, que se passa em 1977. É um projeto grande de filme de ficção, mas esse sabor muito bom do projeto Retratos Fantasmas já me leva para um próximo filme documental sobre o Recife nos anos 90, quando aconteceu toda aquela coisa da música com Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. 

Um filme inteiramente feito em cima de imagem de arquivo. Porque muita coisa que eu estava procurando para esse, eu achei para o outro, entendeu? Então já tá tudo anotado.