É possível separar a arte do artista no século XXI?

POSTED BY Andressa Camile 03/09/2026 in Conteúdo
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Nas últimas semanas, um assunto em alta na cultura nerd é a facilidade com que algumas pessoas parecem distanciar a arte do artista. Mas será possível fazer isso de forma ética no século XXI?

Desde os anos 70, com a chegada dos colecionáveis, os fãs fazem a renda dos artistas ultrapassar valores antes inimagináveis. O que antes era um hobby passou a ser um negócio. Músicos, atores, escritores, ilustradores e por aí vai conseguem fortunas que podem chegar a valores de mais de 450 milhões de reais e patrimônios com mais de 1 bilhão de dólares.

Isso tudo também chegou com informação e influência. No século XXI, com acesso a uma internet cada vez mais rápida e notícias quase instantâneas, é quase impossível esquecer ou fugir do tribunal virtual – principalmente quando esses artistas cometem crimes de ódio ou adotam condutas antiéticas.

Transfobia No Mundo Mágico

Vamos começar falando do caso mais emblemático: Joanna K. Rowling é uma escritora inglesa que passou por momentos difíceis na vida, com um ex-marido abusivo, pai de sua primeira filha. O que a fez capaz de sair desse relacionamento foram os resultados de sua saga literária Harry Potter.

O primeiro livro foi lançado em 1997 e, em 2001, ganhou sua primeira adaptação para o cinema. Mundialmente famoso, Harry Potter levou a escritora a um patamar diferente na escrita de fantasia, chegando a alcançar o mesmo nível de reconhecimento de outros autores britânicos, como J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia).

Imagem: Divulgação

Contudo, nada justifica a conduta ativa da autora no crime de transfobia. Ela acabou se tornando o rosto de uma ala do movimento feminista que exclui a presença de pessoas trans na comunidade, as chamadas TERF (Trans-Exclusionary Radical Feminist), ou Feminismo Crítico de Gênero.

Esse deserviço no movimento feminista começou na década de 70, mas ganhou sua sigla apenas em 2008, por uma jornalista australiana. Seu principal objetivo é excluir pessoas trans de espaços como banheiros e vestiários femininos, além de ignorar o reconhecimento da identidade de gênero.

Mas o que isso tem a ver com os fãs dos livros e dos demais produtos de Harry Potter? Pois bem: cada produto novo e oficial da saga que alguém compra acaba na fortuna que a escritora faz e que ela utiliza para patrocinar ações anti-trans, principalmente no Reino Unido.

Rowling possui um fundo legal para pagar advogados na defesa de transfóbicos, além de doar dinheiro a grupos específicos de TERFs e usar publicamente sua imagem para endossar ações e leis que dão força a esse tipo de movimento.

Menos Inteligência Humana E Mais Artificial

Outro ponto para que os fãs entendam melhor como seu dinheiro é direcionado é a utilização de Inteligência Artificial em artes como ilustrações, livros, músicas, filmes e vídeos.

O que antes era feito exclusivamente por humanos vem perdendo espaço para as IAs, que, em teoria, realizam o mesmo trabalho de forma mais barata… Mas que, de forma alguma, altera o valor final do produto para o cliente (fã). Ou seja, você está pagando o mesmo valor (ou até mais caro) para que apenas a empresa lucre, sem qualquer investimento humano.

Isso se torna um problema ético a partir do conhecimento de como as IAs são construídas e geram informações. É sempre bom lembrar que a Inteligência Artificial, por si só, não consegue criar nada. Ela apenas gera uma nova informação ou um novo produto que você solicitou… E como isso não é criação? Porque ela reúne toda a informação disponível nela (alimentada por um banco) para gerar o que lhe for solicitado.

Quando você pede para que o ChatGPT crie uma ilustração, na verdade, ele irá pegar ilustrações feitas por pessoas reais, que dedicaram seu tempo, conhecimento e recursos a elas, e irá gerar uma nova (ou realizar poucas alterações, dependendo do comando que você enviou), sem pagar qualquer valor aos autores originais.

Exemplos de como isso vem gerando uma dor de cabeça para artistas reais vão desde o uso da voz e imagem de atores e músicos até trechos de autores e ilustrações de artistas de baixo orçamento.

Imagem: Divulgação

O caso mais recente que gerou uma comoção entre os ilustradores brasileiros foi o da influenciadora Karen Bachini, youtuber conhecida, que possui sua própria linha de maquiagem, além de um estúdio de beleza, e iniciou um mailclub (clube de correspondência) com 200 vagas para seus fãs receberem artes feitas por ela, segundo a própria, por um valor base de R$ 150 por mês.

A prática já é feita por outros ilustradores brasileiros, mas o que chamou a atenção dos inscritos foi que, ao receberem a carta, perceberam que o material prometido, na verdade, era composto por ilustrações geradas por I.A.

Após negar a prática, a youtuber teve que vir a público para confirmar as alegações e se desculpar não apenas com os fãs, mas também com a comunidade de ilustradores, que se revoltou com a utilização da influência da comunicadora para engajar a partir da arte de terceiros, mesmo afirmando que estuda ilustrações há anos e segue vários artistas do meio.

O Ano Era 2009

Em 2009, a cantora Rihanna abriu uma ocorrência contra seu então namorado, o cantor Chris Brown, por violência doméstica. O caso repercutiu mundialmente e Brown recebeu uma pena de cinco anos após se declarar culpado.

Mas não foi apenas esse caso que fez Chris Brown se tornar uma figura de destaque na violência contra a mulher. Mesmo após cumprir a pena completa, o cantor foi liberado apenas em 2015 por violações ao regime condicional. Além disso, ele possui um número alarmante de denúncias de agressão contra mulheres em sua ficha.

Ex-namoradas o denunciaram e possuem ordens de restrição contra Chris Brown por violência, ameaça com arma de fogo, cárcere privado, estupro e tentativa de assassinato, tudo isso nos anos seguintes à sua saída da prisão.

Imagem: Divulgação

Mesmo com esse conhecimento público, o rapper foi indicado ao Grammy em 2025 e 2026, e está realizando uma turnê ao lado de outro cantor mundialmente conhecido, Usher. No último show, no entanto, um alerta foi criado entre os fãs de K-pop do grupo BTS, as Armys, quando alguns integrantes da banda, Namjoon (RM) e Hoseok (J-Hope), apareceram nas redes sociais ao lado dos cantores, publicando diversos vídeos e postagens em apoio a eles.

Até o presente momento, não houve nenhuma declaração dos cantores coreanos, ou de sua agência, sobre o ocorrido.

Arte X Artistas

Diante de todos os exemplos apontados e da influência que os artistas exercem, é impossível dissociar a arte dos artistas vivos. Não há como apoiar apenas a arte de alguém, uma vez que o dinheiro investido nessa arte pode financiar causas problemáticas ou antiéticas. Alegar não se importar para onde o dinheiro está indo (e para o que será utilizado) ou inocência e falta de conhecimento não é compatível com a sociedade interconectada em que vivemos, na qual o acesso à internet é cada vez mais fácil por meio de celulares e outros dispositivos.

Socialmente falando, é importante reconhecer e assumir a responsabilidade pela influência que a cultura pop e a cultura nerd exercem no mercado. A utilização da voz e de novas tecnologias precisa se unir cada vez mais à consciência das pessoas, para lembrar também que elas são capazes de fazer uma diferença tangível em movimentos sociais e em valores éticos.