Veredito: Os arquivos x estão fechados para sempre?

23/03/2018 - POSTADO POR EM Séries
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Todo fã que se preze do fantástico gênero da ficção científica já teve ou ainda está na sua fase “Arquivo X”. A série, que reuniu uma legião de seguidores desde a década de 1990, teve nove temporadas originalmente, um filme no meio deste trajeto, outro longa em 2008 e, dezesseis anos após seu cancelamento, mais duas temporadas extras, tudo sob a tutela de Chris Carter, quem primeiro teve a ideia exordial e eventualmente produz, escreve e dirige alguns episódios.

Na última quarta-feira (21/3), o derradeiro capítulo da décima primeira temporada foi ao ar. Talvez esta tenha sido a última vez que vimos David Duchovny e Gillian Anderson em seus distintivos de Mulder e Scully do FBI. O canal FOX do Brasil exibiu o comovente desfecho em simultâneo com os Estados Unidos, e viemos de muito longe até aqui para contar o que achamos desta longa jornada rumo ao desconhecido.

ALERTA DE SPOILER

Se você ainda não conferiu a temporada 11, é melhor parar por aqui e voltar depois, pois o texto a seguir contém intensas revelações sobre o desfecho de “Arquivo X”.

Agentes do caos

No décimo episódio desta temporada, que provavelmente é a última da série, 42 minutos de duração pareceram subtraídos do espaço de uma hora da programação na TV, e condensados em 15 ou 20 minutos de ação na tela. Isso porque ainda havia tanta coisa para se desenrolar, que simplesmente tudo acontece como num turbilhão de adrenalina e fortes emoções.

O tempo, de acordo com o agente federal Fox Mulder, é descontado quando uma pessoa é abduzida por extraterrestres. Foi assim que eu (#Gabriel) me senti ao assistir ao fechamento do enredo, tal como, lá nos idos de 1993, quando o seriado conquistou seu primeiro episódio transmitido, e a dupla de investigadores teve dois minutos “roubados” de seus relógios, quando veem um clarão na estrada chuvosa, a caminho para seu primeira ocorrência.

A agente Dana Scully, que fora contratada na época justamente para desmascarar os tais Arquivos X, demorou para se render aos vislumbres do sobrenatural que cada caso exibia. No entanto, é gritante a diferença de seu comportamento se compararmos sua primeira e última aparições. E o mesmo acontece com Fox, o que demonstra grande riqueza de desenvolvimento dos personagens. No episódio final, pudemos acompanhar o entrecho de William (Miles Robbins), o filho alienígena de Scully.

Quem não se lembra do primeiro episódio da série já deve começar a maratonar a partir de agora. Foto: Divulgação

Advogados do diabo

A luta pela própria sobrevivência e sua busca incansável por parte de Fox e Dana começam com uma pista da agente Monica Reyes (Annabeth Gish), que agora está trabalhando para o vilão da história, o Canceroso (William B. Davis). Daí, a dupla de agentes especiais parte em busca do menino, mas Dana garante que alguma coisa está errada. E, como toda mãe, ela estava certa. [A critério de contextualização, vale lembrar que publicamos uma análise sobre o primeiro episódio da temporada.]

Como de costume, a cronologia da trama principal foi entregue apenas nos episódios 1, 5 e 10 deste ano. Naquele do meio, ficamos sabendo que o filho de Scully é capaz de manipular a mente das pessoas para criar imagens e sensações a seu bel prazer. O garoto não só é poderoso, mas extremamente perigoso. Ameaçado pelos conspiradores em virtude de sua habilidade, o jovem tenta despistar seus passos, mas Fox eventualmente o encontra. O homem que acredita ser pai de William está mais determinado do que nunca e não hesita em eliminar todos aqueles que se transpuseram em seu roteiro.

Logo atrás, vem o Homem Fumante e sua comparsa. Já Dana continua em contato com Mulder apenas por telefone, e o diretor de operações, Walter Skinner (Mitch Pileggi), tenta a sorte ao atrasar o plano maléfico do homem que se diz o verdadeiro genitor de William. A coisa parece não sair muito bem para Reyes nem Skinner. Se eles sobreviveram, quiçá jamais saberemos. O que importa é que o Canceroso consegue sair ileso e acaba pondo-se diante de Mulder, seu próprio filho. Ele então demonstra a impiedade máxima ao puxar o gatilho, mas não sabia que na verdade estava disparando contra William, seu filho mais novo, de quem mais precisava para garantir a continuidade do plano apocalíptico.

A única coisa que incomoda nesse episódio é que há pouco tempo em tela de Fox e Dana juntos. Foto: Divulgação

Salvador do mundo

Depois de muita correria, especialmente por parte de Mulder e Scully, descobrimos que o super-humano William escolhe se sacrificar, assumindo na mente do Canceroso a forma e identidade do próprio Fox. Depois de levar um tiro e ser atirado ao mar, o Mulder real aparece logo atrás do Homem Fumante, e mais uma vez não tremula em dar fim ao seu maior inimigo.

Talvez um dos grandes méritos desse episódio final foi a maneira como os problemas foram resolvidos com prontidão. Era bastante recorrente na série como um todo aquela velha e às vezes cafona fórmula de que todos os vilões tinham que incitar muito com provocações os mocinhos, enquanto os bons pareciam sempre indignados e cheios de grandes ideologias. Não se sabe se pelo fato da atriz Gillian Anderson ter anunciado, logo após a produção desta temporada, que não reprisaria o papel de Dana Scully, ou se pelo planejamento original do criador, mas claramente há um tom de resolução neste episódio como em nenhum outro. É como se dissessem: “Chega de enrolação. Vamos embrulhar esse negócio de uma vez.”

Quanto ao “experimento” gerado pela mulher, Carter ainda fez questão de mostrá-lo emergindo do mar com a marca de bala na testa. Se o rapaz foi apto a enganar seu assassino e aos telespectadores, ou se é tão fora do comum assim a ponto de ser imortal, essa é outra questão à qual possivelmente não teremos resposta, mas já não é mais importante. Pois a maior surpresa, no entanto, ficou reservada para o último minuto do episódio, quando Scully revela a Mulder que está grávida, e agora é pra valer. Já não restam dúvidas sobre quem será o pai, e esperamos que venha uma criança o mais perto do normal possível, no sentido de ser humano.

Na vida real, o mancebo que interpreta o filho de Scully tem outra famosa ruiva como mãe: a atriz Susan Sarandon. Foto: Divulgação

Esse é o fim

Agora que seus maiores anseios foram abrandecidos, Fox e Dana poderão finalmente entregar suas credenciais e se aposentar… Ou não. É que, afinal, o casal terá um filho para sustentar, então quem sabe seja melhor manter um emprego no que eles sabem fazer de melhor? A propósito, vale apontar que mesmo depois de tanto tempo afastados do ofício, tanto atores quanto personagens nunca estiveram tão bem juntos. Mulder e Scully continuam afiados, correndo, atirando e vasculhando nos cantos mais improváveis do inusitado. Embora não tenha sido o melhor ou mais impressionante episódio de toda a saga, este foi particularmente satisfatório para muitos que torciam por uma conclusão da mitologia principal, bem como do destino dos dois personagens mais importantes.

Nestas duas últimas “temporadas especiais”, tivemos perseguições a tiro em cemitérios durante a noite, assim como embriaguez também entre lápides ao longo do dia; houve conversas reveladoras em quartos vizinhos de hotel; pudemos rever velhos amigos (cadê o novo spin-off de “Pistoleiros Solitários”?) e conhecer um improvável novo agente que nos levou a rememorar os momentos mais emblemáticos da série; teve crítica severa ao governo Trump e às novas tecnologias (muito Black Mirror™); e assim como assistimos a um Mulder ficando velho e precisando usar óculos para enxergar melhor, também observamos também Scully escolher um corte de cabelo na segunda metade da temporada para homenagear seu clássico estilo dos anos 1990. E não pensem que eu (#Gabriel) não reparei no figurino designado para o casal neste episódio final. Clássicos Fox e Dana!

Além dos livros, a expansão da história é garantida no recente jogo mobile, chamado X-Files: Deep State, disponível em http://xfilesgame.com. Foto: Gabriel Macedo

Mas e agora? Se você ainda não está satisfeito e precisa de mais desses dois, fica aqui uma sugestão. Três, na verdade, ilustradas na foto acima: lançado entre a décima e esta última temporada, o livro “Arquivo X: A verdade está lá fora” (Ornitorrinco) reúne ao todo 15 contos baseados nos personagens principais. Novos autores e antigos parceiros da equipe de roteiristas da produção contam casos inéditos, todos datados dentro da linha do tempo oficial da narrativa. É como mergulharmos no universo de Chris Carter sob a égide da literatura: há relatos misteriosos, engraçados, assustadores e românticos até.

Já os livros “Agente do Caos”, de Kami Garcia (autora da série “Beautiful Criatures”) e “Advogado do Diabo”, de Jonathan Maberry — também publicados em 2017, mas pela Harper Collins —, contam respectivamente as profundas histórias de origem dos personagens, ainda na fase da adolescência: como Fox Mulder começou a acreditar? Como Dana Scully se tornou cética? São as perguntas que estas obras sensíveis e de leitura altamente prazerosa vão responder.

E a tal da verdade? Bem, aconselho vigilância constante: ela continua lá fora.

VGhlIHRydXRoIGlzIG91dCB0aGVyZQ== Foto: Gabriel Macedo