Veredito do livro Território Lovecraft

21/04/2020 - POSTADO POR EM HQs/Livros

Atenção amantes do terror psicológico, a editora Intrínseca acaba de publicar o livro “Território Lovecraft” (2020), de Matt Ruff, no Brasil. Considerado um expoente do gênero, o terror fantástico típico de H. P. Lovecraft mistura temas como a segregação racial vivida nos Estados Unidos da década de 1950 em oito contos conectados.

Deixamos o medo de lado, embarcamos nessa jornada arrepiante, conferimos tudo e vamos contar nossas impressões.

Enredo

No primeiro conto, somos apresentados a Atticus Turner, um jovem negro de 22 anos que vive nos Estados Unidos de 1954 marcado pelo racismo. Turner está indo de volta para sua cidade natal, Chicago, após receber a carta de seu pai que falava da necessidade de seu retorno.

A viagem é feita de carro e na bagagem ele carrega um guia que auxilia negros viajantes durante o tempo na estrada e suas possíveis necessidades, “O Guia de Viagem do Negro Precavido”. A partir daí, somos apresentados aos parentes de Atticus e cada um dos contos seguintes estão diretamente ligados aos parentes do jovem. 

Sendo explorado seitas racistas, mágicas ou outras crenças, por exemplo, que dão um ar de suspense a todo momento. A cada virada de página ou fim de conto, temos uma revelação extremamente necessária para a compreensão da obra e construção do imaginário.

Temos bons personagens?

A construção dos personagens é feita de maneira muito psicológica, principalmente no caso de Atticus do primeiro conto. A cada situação imposta, como por exemplo o pneu furado ainda no texto de abertura, mostra como cada reação ou conflito é de extrema importância para entender melhor a personalidade e comportamento de cada um personagem.

Ainda falando sobre o Atticus, quando ele é apresentado não é informado como é a relação dele com a família, mas sim sugerido que ele se relaciona de forma amigável com ela, já que ele leva um presente para tio.

Outro personagem, que apesar de sua curta participação é bem relevante, é o mecânico Earl. Nele vemos que a existia (e ainda existe) uma espécie de rede de proteção aos seus semelhantes. Mas isso não é algo que fica explícito em um parágrafo ou capítulo para explicar somente como ele é, mas vemos em suas atitudes. 

Essa é uma das formas mais clássicas de se construir personagens no gênero pulp, nada é entregue de bandeja, cabe ao leitor fazer seu juízo de valor sobre os personagens e suas personalidades. 

Sobre ambientação da história

Apesar da abolição ter acontecido em 1863 por Abraham Lincoln, quase 100 anos depois ainda era visível a segregação dos negros americanos, em especial nos Estados do Sul, como Kentucky. Já mais pro Norte do país, as condições eram mais favoráveis, como em Chicago, onde a família do jovem morava e era ponto final de sua viagem.

Da década de 1950, existiam lugares que diferenciavam as pessoas pela cor da pele, como por exemplo, os banheiros. Sim, existiam toaletes femininos/masculino para negros e para brancos, como é mostrado no livro. Porém, a segregação não se restringia apenas a esse tipo de serviço. Ônibus tinham lugares reservados e as crianças e adolescentes negros não podiam frequentar as mesmas escolas que os brancos. 

Todos esses acontecimentos geraram revolta e no meio da década, em 1955, no estado do Alabama, Rosa Parks deu a força que ao movimento que lutava por direitos iguais, se recusou a dar seu assento para brancos, já que ela estava cansada. No episódio, Parks, que apesar de estar em um lugar para negro, foi “convidada” a levantar já que o veículo estava lotado e quatro brancos estavam em pé.

A simples recusa de Rosa a levou a prisão por infringir o código civil da cidade, causando o episódio que se chamou “Boicote às Empresas de Ônibus de Montgomery”, obtendo bastante sucesso. Daí pra frente, vários nomes passaram a surgir e se tornar cada vez mais conhecido, como Martin Luther King Jr., porém só em 1964 houve a aprovação da lei dos Direitos Civis,e em 1967, a lei do Direito ao voto, pondo um fim na segregação institucionalizada.

Apesar da segregação ter acabado, os Estados Unidos segue entre os países mais racistas do mundo. Ainda existem disparidades enorme entre negros e brancos em vários estados, em especial nos do sul. Por isso que, apesar de fazer parte de um gênero que em teoria não tem nada a ver com as discussões sociais, são tão importantes.  

Ganharemos uma série do livro!

E para quem gosta de adaptação da literatura para a televisão, fica esperto que a HBO ainda este ano deve lançar a série inspirada no livro. A adaptação, “Lovecraft Country”, terá em seu elenco nomes como Jonathan Majors (“A Rebelião”), Abbey Lee (“Mad Max: Estrada da Fúria”), Jurnee Smollett-Bell (“Aves de Rapina”), Courtney B. Vance (“12 Homens e Uma Sentença”) e Aujanue Ellis (“Olhos Que Condenam”). 

Veredito

Nos últimos tempos fomos presenteados com filmes incríveis sobre metáforas sociais, como “Corra!” (2017), “Nós (2019) e, mais recentemente, “O Homem Invisível” (2020). Na literatura, isso não é algo tão novo, porém Matt Ruff soube como conduzir com maestria esse tema, esse não é um assunto tão novo para o escritor norte-americano que costuma ter como tema central de sua obra os gêneros a ficção científica e o thriller.   

Matt demonstra um conhecimento fantástico sobre o assunto ao referenciar autores como Ray Bradbury, conhecido por suas obras distópicas, que ainda hoje são tão atuais por criticar o mundo tanto persegue a cultura e cultua o emburrecimento coletivo. Além disso, Ruff, trata do racismo, que ainda é atual e ainda deve ser tema de inúmeras críticas a sociedade, de uma forma que é praticamente impossível não se mostrar interessado, fazendo ponderações extremamente relevantes.

Outro ponto que deve ser ressaltado no livro é como o leitor é colocado de forma a sentir pelo menos um milésimo do medo, agonia ou revolta que é sentida pelos personagens. Não é apenas empatia, o que se sente, mas somos convidados, ou até mesmo obrigados, a sentir todo o terror que das situações impostas.

A narrativa é bem fluída, não apresenta um vocabulário difícil ou qualquer outro empecilho. É claro que em determinadas situações o leitor se verá na obrigação de pausar a leitura pela revolta, mas logo sentirá vontade de terminá-la. É um livro que deixa você cada vez mais apreensivo e curioso. Sem dúvidas, esse é um livro incrível e que merece ser lido com todo carinho.

Pontos positivos

  • Leitura rápida e direta;
  • Temática pertinente;
  • Roteiro Fluido.

Pontos negativos

  • O título pode gerar uma pequena confusão ao levar o possível leitor acreditar que é um livro de fantasia ou terror cósmico;
  • Apesar dos contos estarem conectados e serem de vital importância para a obra, existe um que não está à altura dos demais.

NOTA: 9