Veredito de Watchmen

22/12/2019 - POSTADO POR EM Séries

Uma década após a última adaptação de uma das mais importantes HQ’s da história, o universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons retorna às telas, dessa vez da televisão. Sob o gigante guarda-chuva da HBO, “Watchmen” chegou trazendo uma nova roupagem – e novas controvérsias  – ao gênero de super-heróis. Confira o que achamos da série!

O Novo Testamento

Na efervescência da Guerra Fria, em 1986, Alan Moore (autor de “V de Vingança” e “A Piada Mortal”), junto do ilustrador Dave Gibbons, cria um gibi de heróis mascarados inseridos no contexto da tensão política nos EUA. Lançado pela DC Comics, “Watchmen” revolucionou os quadrinhos e se tornou uma febre mundial. 

Em 2009, a adaptação do diretor Zack Snyder (“300”) para as telonas divide os fãs em um longa bastante fiel à fonte original, mas sem o toque realista e crítico que Damon Lindelof (“The Leftovers”) traria 10 anos depois para a TV. “Nós quisemos assegurar que o 1° episódio fosse o começo de uma nova história mais do que uma continuação de uma antiga”, falou Lindelof à revista Entertainment antes da estreia da série. 

De fato, o espectador que não leu ou não viu nenhuma produção acerca da obra original pode compreender o início da trama. Porém, conhecer a mitologia de Watchmen impulsiona a experiência ao longo dos 9 episódios, sendo fundamental para identificar as diversas referências à HQ. 

Foto: Divulgação

O legado dos vigilantes

Logo no episódio piloto somos apresentados aos EUA 34 anos depois de uma lula gigante matar milhões em Nova York, impedindo uma guerra nuclear entre americanos e soviéticos. O responsável pelo feito é o “vilão” Ozymandias, ou Adrian Veidt, como mostrado no fim da HQ. Em resumo sobre este período, Robert Redford – sim, o ator – assumiu a presidência do país e todos os policiais agora escondem seus rostos para evitar serem identificados por criminosos. Dentre eles, a 7ª Cavalaria, grupo de supremacistas brancos que usam a máscara do ex-herói Rorschach, são a ameaça principal da trama.

Angela Abar (Regina King) é o alicerce para que todos os arcos acabem convergindo. No meio de tantos novos personagens – e a volta de velhos conhecidos -, a “Sister Night” é uma líder dos vigilantes e detetive do Departamento de Polícia de Tulsa, Oklahoma. Junto do chefe de polícia Judd Crawford (Don Johnson) e do detetive Looking Glass (Tim Blake Nelson), Abar investiga as ações da 7ª Cavalaria enquanto busca o equilíbrio entre a sua identidade secreta e a relação com a família. 

Porém, o ponto de virada a partir da morte de um companheiro de trabalho leva a caminhos que vão além do grupo racista, ameaçando a vida dupla de Abar. A investigação do possível assassinato chama a atenção de Laurie Blake (Jean Smart), a Spectral, filha do Comediante, que passa a comandar as operações do caso.

Foto: Divulgação

Montando o tabuleiro

Apesar dos diversos rostos novos, a série não tem pressa de simplesmente jogar a motivação de cada personagem de uma vez. Cada um dos 9 episódios centra em um diferente, nos mostrando seu passado com detalhes. O destaque vai para o capítulo sobre Will Reeves, uma peça chave no enredo – cuja identidade não iremos revelar -, que, com um retorno à década de 1930, resulta em alguns dos melhores minutos de televisão do ano. 

Tão esperado e tão misterioso, Dr. Manhattan, o ser todo poderoso, só dá as caras no penúltimo episódio, outro digno de aplausos pelo modo como, aos poucos, encaixa o quebra-cabeça espalhado nos outros 7 capítulos. Infelizmente, contar mais sobre sua participação seriam spoilers.

O elenco foi escolhido à dedo e entrega atuações fenomenais. A vencedora do Oscar Regina King interpreta a protagonista com todo o significado envolvido e comanda as cenas em que está presente. Hong Chau, no papel da cientista megalomaníaca Lady Trieu também chama a atenção e nos deixa curiosos para o seu próximo passo. Composta por Trent Reznor e Atticus Ross, a trilha sonora mistura elementos eletrônicos com cordas e consegue agregar bastante à ambientação do seriado.

Foto: Divulgação

Veredito

“Watchmen” soube explorar o que a HQ tinha de melhor e expandir um potencial que o original deixou em aberto, fazendo jus, sempre, à qualidade da matéria-prima. Apesar da rotação na direção, o roteiro de Lindelof conecta as pontas soltas entre os episódios no derradeiro final, expondo o meticuloso trabalho de lançar peças até então frouxas que enfim se encaixam. 

A elaborada trama sustenta, muitas vezes de forma explícita, críticas ao racismo estrutural em camadas da sociedade americana, fazendo questão de subverter alguns padrões da obra original que podem desagradar os fãs mais chatos, mas que dão um peso à história importante no contexto atual da produção.

Pontos fortes

  • Bom uso do material fonte para criação de uma nova história
  • Desenvolvimento bem trabalhado de múltiplos personagens 
  • Narrativa paciente que resolve os mistérios com primor
  • Atuações que dão peso e valorizam o roteiro

Pontos fracos

Nota: 10