Veredito de Jojo Rabbit

07/02/2020 - POSTADO POR and EM Filmes

Chegou aos cinemas brasileiros o “Jojo Rabbit” (2019), dirigido por Taika Waititi, responsável por “Thor: Ragnarok” (2017). O filme é uma comédia que desde o lançamento do trailer gerou muito burburinho e intrigou os espectadores, principalmente por tratar de um assunto tão pesado, como é o nazismo, na perspectiva de uma criança de dez anos.

Assistimos ao filme e vamos contar nossas impressões. 

Enredo

Johannes Betzler (Roman Griffin Davis) ou simplesmente “Jojo Rabbit” é um garoto que vive na Alemanha nazista durante os últimos anos da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Assim como todos os outros meninos de sua idade, Jojo está sendo educado segundo a propaganda do Governo e participa de todas as atividades destinadas à sua idade – uma delas é o acampamento para jovens alemães, onde deveria aprender e desenvolver técnicas de guerra.   

A forte propaganda anti-semita da época ensinou a Jojo uma visão errada sobre os judeus, tornando-o um fanático. Devido a isso, ele tinha um amigo imaginário no mínimo peculiar nos dias de hoje, mas não tão estranho para a época: Adolf Hitler. 

A vida do menino seguia a “normalidade” até o dia em que ele conhece uma garota judia escondida por sua mãe entre as paredes da casa. Jojo passa então a investigar quem são os judeus.

Várias chamadas

A primeira vista “Jojo Rabbit” parece um filme de comédia com um tom mais ácido, feito para criticar o nazismo, o que em si já o faz ganhar bastante crédito com os espectadores. Porém, ele vai além disso e toma um posicionamento político ao analisar e ponderar sobre o fanatismo quando se acredita em alguma ideia sem questioná-la. 

A personagem de Scarlett Johansson, a mãe de Jojo, Rosie, parece ser só alguém muito otimista que está criando o filho sozinha enquanto o marido luta na Guerra. Entretanto, ela é um dos elementos que mais se impõe contra o regime e também em certas cenas é o alívio cômico e “lição de moral”.

Ainda existem outros elementos que sutilmente fazem o espectador pensar sobre como funcionava e quais são os horrores da guerra. A propaganda funcionava como uma espécie de lavagem cerebral, podendo ser percebido em vários diálogos da “inspetora” Fraulein Rahm.   

A “limpeza” ariana nos é mostrada como algo absurdo principalmente quando, ao se machucar no acampamento, Jojo adquire cicatrizes e é rebaixado. Mas ele é apenas uma criança de 10 anos e, ainda assim, é tratado como um inútil. 

A Menina que Roubava Livros – Um Paralelo

Muitas histórias hoje nos contam, com detalhes, a vida de quem experienciou a segunda guerra. No entanto, é incrível ver, ou ler, como obras distintas podem representar tão bem a visão de crianças sobre o horror de uma guerra. 

Em A Menina que Roubava Livros, Liesel é criada por pais adotivos e sente na pele a privação da guerra. Quando tem a oportunidade de se alimentar um pouco melhor, ela vomita – seu estômago não está acostumado com muita comida. Em Jojo Rabbit, vemos que a pobreza da guerra também atinge quem é ariano, de classe média, e vive em uma casa “digna”. Rosie (Scarlett Johansson), deixa de jantar para conseguir levar alimento à judia escondida em sua casa. 

As duas histórias, por pertencerem à mesma linha temporal, conversam em muitos momentos. O que nós gostaríamos de ressaltar é a diferença (ou semelhança) da reação dos personagens no quesito “perda”. Como sabemos, Liesel perde quase todos que conhece em um bombardeio surpresa. Por sorte, Max sobrevive ao campo de concentração, e eles se reencontram e podem viver um futuro. 

Jojo perde a mãe, uma subversiva, e já não tinha o pai. O garoto consegue dar continuidade à sua vida, mesmo que de maneira pífia, com o pouco que lhe restou. No entanto, diferente de Liesel, tudo tem um ar de alegria e infantilidade. O cinema acaba nos mostrando como, mesmo inconscientemente, retratamos mulheres amadurecendo mais cedo. 

Esta análise não busca diminuir o poder de nenhuma das obras, mas, apenas, iniciar uma reflexão. Quem seria Jojo se fosse obrigado a amadurecer, como Liesel foi? 

Veredito

Um roteiro como o de “Jojo Rabbit” não é nem um pouco fácil de ser construído, principalmente porque ele satiriza um dos grandes vilões da história mundial, mostrando como a lavagem cerebral feita contra minorias é algo estúpido, sem cair em em uma lição de moral boba. 

Talvez um dos grandes feitos do filme são os aspectos técnicos esteja na direção de arte, fotografia e figurino, os quais estão praticamente perfeitos. A trilha sonora também não deixa nada a desejar, algumas músicas famosas, como “I wanna hold your hand’, em inglês foram traduzidas para o alemão e realmente parece até que foram composta no idioma. Sobre isso, pode-se até traçar um paralelo sobre a escolha da sucesso da banda britânica “The Beatles”, que nos anos 1960 foi literalmente idolatrada por uma legião de fãs e no longa, Jojo idolatra uma figura política.

Pontos Fortes

  • a parte mais genial do filme é Hitler imaginado por uma criança. Isso faz valer a pena a ida ao cinema. 
  • a atuação de Roman emociona em todos os minutos de filme 
  • figurino impecável
  • ótima direção artística

Pontos Fracos

  • sentimos falta de saber o que realmente o pai de Jojo fazia. 
  • ritmo lento em algumas cenas

Nota: 10,00