Veredito de Green Book: O Guia

17/02/2019 - POSTADO POR EM Filmes E Oscar
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Quando o diretor de “Débi e Lóide” (1994) começou a ganhar prêmios no ano passado em festivais de cinema sérios, como o de Toronto, todos ficaram curiosos para conferir o motivo de tamanho reconhecimento. Alguns meses depois, “Green Book: O Guia” já acumula diversas vitórias em premiações, tendo levado o Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e estando indicado a 5 categorias do Oscar. Apesar da aclamação, a produção também vem acompanhada de controvérsias.

Vamos aos Fatos

A trama acompanha a história real de Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), pai de família nova-iorquino que, à procura de um emprego, aceita ser o motorista do pianista de jazz clássico Don Shirley (Mahershala Ali) durante uma turnê no sul dos EUA. Tony é de família italiana, Shirley de descendência africana.

Em um clássico buddy road movie, os personagens não se dão muito bem inicialmente, sendo diametralmente opostos em alguns quesitos. Mas ao longo da viagem, eles acabam se conhecendo melhor, aprendem um como outro e desenvolvem uma amizade legítima. Acontece que um grupo de vozes tem dito que as coisas não foram tão positivas assim.

Foto: Divulgação

Polêmicas

Além do histórico de “piadas” inapropriadas do diretor Peter Farrelly ter voltado à tona recentemente (o que pode ter custado a indicação na categoria de direção), o filme em si foi repreendido pela família de Shirley. Segundo eles, a relação familiar dele foi mal representada e ele nunca considerou Tony como um amigo. O roteiro foi escrito pelo próprio filho de Tony, que alega ter tido a benção do músico em retratar a história da forma que o fez.

Para além disso, muito se tem dito que a produção seja mais um exemplo de white-saviour, onde um personagem branco entra em contato com outra realidade e resgata pessoas de cor de sua situação difícil. Aqui, a acusação tem cabimento. Shirley tem uma espécie de crise de identidade e Tony parece tentar “ensinar” a ele o que é ser negro, comendo frango frito e ouvindo Aretha Franklin. Em um momento, ele até chega se declarar como “mais negro” do que o músico.

Foto: Divulgação

Dualidade de impressões

O filme sem dúvida é elevado pelas atuações. Viggo engordou cerca de 20 kg para o papel e incorporou o italiano canastrão (mas de bom coração) que o longa pede. Mahershala é fenomenal e tem abocanhado diversos prêmios de melhor ator coadjuvante pelo seu desempenho. Sua vitória, entretanto, talvez tenha um gosto agridoce, visto que após o filme ele entrou em contato com a família de Shirley e se desculpou por não ter feito uma pesquisa maior antes do papel.

Por mais que a ideia seja que ambos contribuam um com o outro e se “humilhem” para se tornarem pessoas melhores, a humilhação passada por Shirley é muito maior. Não só pelos personagens do longa, mas pelo próprio filme, que o retrata como alguém que deve descer do seu mundo endinheirado e requintado para vivenciar a realidade sofrida do seu povo. As humilhações de Tony, por sua vez, são vistas sempre como a de um guerreiro, que precisa defender seu amigo na frente de autoridades e parentes.

Foto: Divulgação

Veredito

No geral, como um filme de camaradagem, “Green Book: O Guia” faz tudo certo. A fórmula é testada e aplicada com sucesso, mesmo que a história siga caminhos que podem ser previstos há quilômetros de distância. Porém, ao retratar uma condição social histórica, o filme peca na falta de tato e impede que o produto seja proveitoso em todo seu potencial. Com diversas questões mencionadas e não aprofundadas pela produção, esta é uma obra que poderia ter sido feita há décadas atrás e seria lembrada como um clássico.

Acontece que estamos em 2019, onde filmes da temporada como “Roma” e “Pantera Negra” trazem pontos de vista refrescantes para o cinema. Fossem produzidas há alguns anos, essas histórias girariam em torno de personagens como a mãe de família da classe média e o agente da CIA levado à Wakanda, respectivamente. Mas de forma inteligente, esses dois exemplos viraram a mesa e nos presentearam com novas visões de personagens outrora invisíveis. Ao focar a narrativa a partir da perspectiva de Tony, “Green Book: O Guia” deixa passar a oportunidade de se diferenciar e entrar para esse grupo, resultando em um filme competente, mas que não contribui para o movimento e permanece no passado.

Foto: Divulgação