Veredito de Eu Sou Mais Eu

26/01/2019 - POSTADO POR EM Filmes
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O cinema nacional é uma espécie de anomalia que sabe ser muitas coisas diferentes, ainda que os holofotes acabem ficando com as comédias adultas estreladas por elencos globais. O nicho da comédia adolescente brasileira acabava ficando para escanteio, mas teve lançamentos proeminentes nos últimos anos como “Meus 15 anos” (2017), “Tudo por um Pop Star” (2018) e o início de 2019 agora nos traz “Eu Sou Mais Eu”.

Artistas como Larissa Manoela, Maisa e Kéfera são rostos conhecidos pelo público e tem se revezado em produções do tipo. Kéfera, como a mais experiente desses nomes, apresenta sua segunda incursão ao gênero como protagonista, depois de “É Fada” (2016). A atriz e youtuber esteve presente na pré-estreia do filme “Eu Sou Mais Eu”, em Fortaleza, acompanhada de João Cortês, seu parceiro de cena. Na ocasião, conversamos com os dois e assistimos ao longa. O veredito você confere aqui.

Uma Viagem Temporal

Na trama, Kéfera Buchmann é Camila Mendes, uma super estrela da música pop brasileira. Numa rápida introdução, vemos que a artista é uma pessoa rude e inescrupulosa, interessada apenas em se tornar mais e mais famosa. Quando uma fã obcecada com habilidades mágicas invade a casa da cantora, Camila misteriosamente acorda no lugar de sua eu mais jovem, no ano de 2004, e se vê forçada a viver novamente as dores do Ensino Médio, onde ela não era uma estrela.

Atormentada pelo grupo das patricinhas lideradas por Giovanna Lancellotti, a jovem Camila tem em Cabeça (João Cortês) seu único amigo. Juntos, os dois são vistos como os outcasts do colégio com suas roupas personalizadas e estranhas para o resto dos estudantes. O bullying sofrido pelos personagens ganha várias cenas que são capazes de incomodar o espectador.

Foto: Divulgação

Seja Você

O mote de viagem temporal misteriosa para o aprendizado de uma lição já foi incansavelmente explorado pelo cinema (de formas bem melhores, até). Os roteiristas L.G. Bayão e Angélica Lopes sabem disso e não tem medo de citar exemplos de outras produções no texto. Quando Cabeça menciona que Camila está numa espécie de “De Repente 30”, a metalinguagem contribui para a aceitação da proposta.

O que falha aqui é um senso real de aprendizado e merecimento. “Seja você” é a instrução dada pela fã mágica interpretada por Estrela Straus (que rouba a cena e também foi a preparadora do elenco). Acontece que é frustrante assistir Camila passar o longa inteiro acreditando que precisa ser atraente e popular para voltar ao presente em que ela é essas coisas. A edição de certos momentos parece incentivar o público a aplaudir a transformação para se encaixar nos padrões – o que, teoricamente, é missão do filme desencorajar.

Mesmo no passado, a protagonista continua sendo uma pessoa superficial, interessada primariamente na fama, ao invés de tentar fazer as coisas do jeito certo. Quando isso finalmente acontece, é meio que tarde para a trama, e o “clique” simplesmente está lá sem um desenvolvimento que o sustente de forma legítima.

Foto: Divulgação

Veredito

Por todos os seus defeitos, “Eu Sou Mais Eu” acerta no aspecto da nostalgia. A viagem para 15 anos atrás leva a audiência para um tempo não tão longe, mas distante, onde existiam as locadoras e os celulares Nokia com o jogo da cobrinha, itens que propiciam um leque de piadas que funcionam bem. Com exceção de uma festa do “playboy” da escola em que a pista de dança veio direto dos anos 1980, a reconstrução da época é eficiente.

As mensagens de aceitação, autoestima, e bullying são sempre importantes de serem passadas. Porém, curiosamente (ou não), Kéfera parece estar mais em seu elemento na pele da Camila adulta arrogante do que da jovem vítima. Quando eventualmente a protagonista retorna ao presente, parece que tudo conspirou para que ela re-conquistasse pessoas que não estavam mais em sua vida sem uma cena de reconciliação – o que poderia ter sido mais impactante.

Fica o desejo de que a produção mostrasse mais do núcleo familiar da personagem, que se destaca em comparação ao núcleo da escola. No fim, apesar de sua mensagem atravessada, o público é capaz de entender as intenções de “Eu Sou Mais Eu”, que diverte com seu humor e momentos de excentricidade. Afinal um filme cujo clímax acontece ao som de uma versão apocalíptica de Ragatanga à lá Vangelis merece alguma atenção.

Foto: Divulgação