Veredito de Era Uma Vez em… Hollywood

22/08/2019 - POSTADO POR and EM Filmes

Quentin Tarantino construiu uma carreira invejável ao longo dos anos. Mesmo com poucos filmes em seu currículo, o diretor logo se consolidou como um dos maiores artistas de Hollywood. Após o western de suspense “Os Oito Odiados” (2015), o anúncio de que Tarantino iria abordar o caso trágico de Sharon Tate e os Manson deixou muita gente intrigada. Afinal o diretor e roteirista já tinha “reescrito a história” em “Bastardos Inglórios” (2009). Será que ele o faria novamente? Bem, nosso veredito você confere agora.

Conhecendo os Envolvidos

O filme nos apresenta Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator de televisão que sente estar em declínio, e Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê, motorista e amigo. Em meio a bebedeiras, trabalhos e contatos, a dupla de longa data luta para se manter relevante em uma Hollywood dos anos 1960, onde novas estrelas surgem a qualquer momento.

Cliff e Rick são fictícios, mas no longa eles interagem com personagens bem reais, como Sharon Tate (Margot Robbie), Roman Polanski (Rafal Zawierucha), Bruce Lee (Mike Moh) e Charles Manson (Damon Herriman). Na vida real, a atriz Sharon Tate, esposa de Polanski, foi brutalmente assassinada em 1969 pela seita de Charles Manson, que invadiu a casa da artista. O crime chocou a América especialmente pelo fato de que Sharon estava grávida de seis meses no momento da barbárie.

Foto: Divulgação

Por trás das luzes

O que vemos em “Era Uma Vez em… Hollywood” é quase como uma coleção de momentos na vida de nossos personagens. Não há o senso de uma grande história sendo contada, e sim que estamos acompanhando um retrato da Hollywood daquela época pelos olhos de pessoas da indústria.

O glamour imaginado é substituído pela tensão de Rick em se manter como referência no meio artístico, conhecido por um seriado de velho oeste onde interpreta o arquétipo do caubói herói. Ele vê sua posição ameaçada quando é questionado pelo produtor Marvin Schwarz (Al Pacino) sobre o desgaste de sua imagem à longo prazo. O papel de um vilão no cinema desafia a carreira de Rick, que tenta se encontrar em um personagem fora de sua zona de conforto.

Por outro lado, Cliff parece não ligar para seu futuro na indústria do cinema, levando uma vida de faz-tudo de Rick. O personagem não enfrenta um desafio pessoal como o amigo, tendo pouco desenvolvimento na trama, praticamente configurando Brad Pitt como um coadjuvante de luxo. Sharon Tate também possui pouco tempo de tela e, quando tem, não vemos sua relação com Polanski explorada e nem um drama íntimo trabalhado. A impressão é de outro personagem (e atriz) subutilizado no filme.

Foto: Divulgação

Fiel aos fatos?

Os filmes de Tarantino são conhecidos pela presença de um banho de sangue catártico em quase todas as suas produções, com uma violência gráfica e acentuada. O diretor sabe o que o público espera de seus filmes – e ele entrega. Ao longo de quase três horas uma tensão e antecipação são construídas de forma interessante, à medida que o caminho de nossos protagonistas se cruza com o de Manson e seus seguidores. 

Pra quem não conhece a história verdadeira, um pouco dessa construção pode passar despercebida. É delicado retratar um caso tão emblemático e pesado da história americana, por isso muitos estavam apreensivos sobre como diretor traria isso, se ele seria fiel aos acontecimentos ou não. Bem, não iremos revelar o que acontece no filme, mas a subversão realizada é sutil e até inofensiva, desarmando o espectador com sua singeleza final. 

Foto: Divulgação

Veredito

Tarantino brinca com a metalinguagem audiovisual e com a sua própria, referenciando suas obras com cenas onde o público atento ao seu trabalho deve captar os acenos. Mais uma vez, o diretor utiliza a música como instrumento de tensão do longa de maneira certeira, abusando de músicas da época e emendando uma trilha com a outra de forma eficiente.

O diretor também mostra o quanto entende das diferentes linguagens cinematográficas, transitando entre estilos de filmagem de spaghetti westerns italianos (uma de suas paixões) para a realidade do longa de modo natural. A obra demonstra uma homenagem ao gênero ao mesmo tempo que cria o próprio legado de Tarantino. 

DiCaprio carrega o filme com os problemas de um ator em seu processo criativo, entregando um Rick Dalton descontrolado e amedrontado pela indústria. Brad Pitt e Margot Robbie não deixam a desejar, mas o público merecia um desenvolvimento maior no roteiro para atores com tanto talento. O que também poderia ter um cuidado maior é a edição. Pelos trailers, percebe-se que algumas sequências ficaram de fora do corte final do filme, que foi editado numa corrida contra o tempo para estrear em Cannes. Talvez com mais calma, poderíamos ter visto um filme com cenas que conversassem melhor entre si e uma obra mais redonda.

“Era uma vez em… Hollywood” não traz um mar de sangue como nos acostumamos a esperar de Tarantino, mas continua com os diálogos trabalhados com excelência aliados a um roteiro paciente que liga as diversas deixas jogadas no decorrer da história em um ato final digno do repertório do cineasta.

Pontos fortes

  • Trilha sonora marcante da época
  • Criação da tensão para o ato final
  • Aparição de personagens conhecidos
  • Design de produção primoroso recria a Hollywood dos anos 1960

 

Pontos fracos

  • Narração sem uma razão justificada
  • Coadjuvantes pouco desenvolvidos
  • Duração muito longa, com uma edição que poderia ser mais limpa

 

Nota: 8