Veredito de Chernobyl

05/06/2019 - POSTADO POR EM Séries
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Em maio deste ano, a HBO lançou uma minissérie que logo atingiu o topo da lista de melhores produções televisivas da história no IMDb. Com somente cinco episódios, o obra dirigida por Craig Mazin recebeu um firme 9.6 no ranking do site, e ultrapassou “Breaking Bad” e “Game of Thrones”. Mas será que “Chernobyl” vale tudo isso mesmo?

Crepúsculo radioativo

1:23:45. Essa foi a hora exata da explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986. Naquela noite, o amarelo tomou conta do céu, com as chamas do incêndio que se iniciou reagindo com o urânio exposto. Para alguns moradores locais, a visão era até bonita. Pena que, para muitos, foi a última beleza vista.

Por uma série de erros humanos em um teste com o reator número 4, o núcleo de urânio foi aos ares, espalhando níveis de radiação nunca antes medidos na história. Porém, de acordo com as autoridades locais, estava tudo sob controle. Os efeitos do desastre logo terminariam, e quem se expôs àquilo estaria firme e forte nos próximos meses. Para 31 pessoas próximas ao local do acidente, esse futuro não chegou. Em menos de três meses, todos haviam morrido. E outras centenas desenvolveram câncer por conta da radiação.

A realidade a curto prazo dos fatos depois do acidente é relatada pela minissérie de forma crua e sem tanto drama. Dentre tantos casos, aquele com mais foco durante os cinco episódios é do bombeiro de Chernobyl Vasily Ignatenko (Adam Nagaitis) e de sua esposa Lyudmilla (Jessie Buckley). Obrigado a trabalhar para conter o incêndio na noite da explosão, o jovem sofreu as piores consequências da radiação, e a série mostra isso sem pressa, deixando claro para sua companheira e para quem assiste de que o destino dele, assim como de vários outros, está definido.

Foto: Divulgação

Os efeitos da bomba

Além do drama pessoal, a produção explica as minúcias científicas do ocorrido de forma muito expositiva, porém necessária. Aliás, física nuclear não é tema fácil. Esses momentos são equilibrados de modo natural e até cômicos durante a narrativa, não parecendo forçar o espectador a engolir o que está sendo ensinado. Os trâmites políticos também são desenvolvidos bem, dosando as cenas de argumentação diplomática com a tensão de um ambiente emergencial onde muitos não compreendem a dimensão dos estragos causados.

Valery Legasov (Jared Harris) e Boris Shcherbina (Stellan Skargard) desempenham de maneira segura esses papéis de, respectivamente, o cientista e o político desesperados por encontrar soluções para um problema que, à primeira vista, não tinha esperanças. Os dois, ao lado de Ulana Khomuyk (Emily Watson), uma pesquisadora que não existiu na vida real, ao contrário dos personagens anteriores, possuem o lado mais racional da trama.

Vale tudo isso?

O ambiente fúnebre da paleta acinzentada aliado ao constante medo na expressão dos personagens constrói uma tensão que perpassa as mais de cinco horas da minissérie. Saber que a maior parte daquilo de fato aconteceu e imaginar o sofrimento daquele povo dá calafrios aos mais sensíveis. A produção usou livros como o da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, “As Vozes de Chernobyl”, para se basear ao longo da história, o que ratifica a qualidade da obra.

Apesar do incômodo sotaque britânico de muitos atores em um relato soviético, a minissérie não deixa o espectador confortável em nenhum momento, sempre mostrando os males que o desastre causou e todas as tentativas de mudar a mente daqueles que não acreditavam na ciência.

Embora o 9.6 do ranking do IMDb seja exagero, “Chernobyl” acerta ao não arriscar com grandes efeitos ou esticar tramas de modo desnecessário. Soube exatamente onde, quando e como começar e terminar seu enredo, entregando um relato metade histórico metade ficcional sólido e corajoso.

Pontos positivos:

  • Frieza e calma ao expor de maneira crua e realista os fatos
  • Atuações seguras e sensíveis

 

Pontos negativos:

  • Ritmo lento

 

Nota: 9