As Viúvas: dimensões do mundo do crime

29/11/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Já se passaram cinco anos desde que Steve McQueen se tornou o primeiro diretor negro a emplacar o prêmio de Melhor Filme no Oscar. Desde então, mesmo em meio a controvérsias de #OscarsSoWhite, a diversidade e a representatividade tem chegado com mais força na Academia, e de certa forma, “12 Anos de Escravidão” (2013) foi um marco ao abrir portas para vitórias como a de “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (2016), que repetem o feito. McQueen agora retorna com um thriller de ação contemporâneo, carregado de um pulsante comentário social. Nós já assistimos e agora você confere o veredito.

Tramas

“As Viúvas” acompanha um grupo de mulheres que se vê por conta própria quando seus maridos criminosos morrem em um assalto que deu errado. A apresentação inicial dos personagens se dá de maneira muito bem construída, intercalando cenas do cotidiano dos casais com a do fatídico crime.

Veronica (Viola Davis) é a viúva de Harry (Liam Neeson), o líder da gangue, e por isso acaba sendo responsabilizada por uma dívida que o marido deixou para trás. Ela decide contatar as outras viúvas e prosseguir com o último plano de assalto para realizar o pagamento da dívida criminal, além de obter dinheiro suficiente para que cada uma possa seguir em frente por conta própria.

Foto: Divulgação

Envolvidos

“Oito Mulheres e Um Segredo” (2018) ganhou um concorrente pesado para o título de heist movie (ou filme de assalto) com mais estrelas do ano. De certa forma, “As Viúvas” lembra o primeiro, substituindo a comédia e o glamour pelo drama e o ângulo social. O pôster do filme, que conta com 11 nomes, já é uma indicação do elenco de peso alistado para a produção. Completando o time feminino ao lado de Davis, estão Michelle Rodriguez, Cynthia Erivo, Carrie Coon e Elizabeth Debicki, que possui um dos melhores arcos do filme.

Apesar dos diversos personagens serem bem construídos, a abundância deles causa a impressão de que o longa fica carregado demais para acomodar todo o elenco. O roteiro foi escrito pelo diretor e por Gillian Flynn, autora e roteirista das adaptações de “Garota Exemplar” (2014) e “Objetos Cortantes” (2018). A premissa não é original, mas sim baseada em uma mini-série britânica de 4 episódios, de 1983. No fim, talvez o formato seriado fosse mais propício para contar a história em todo o seu escopo e dar mais espaço para os personagens.

Foto: Divulgação

Ritmo

O longa definitivamente toma seu tempo em dizer o que tem a dizer. Em 2h09m de filme, vários subplots são apresentados e alguns não acumulam em muito. O núcleo político de Jack e Tom Mulligan (Colin Farrell e Robert Duvall, respectivamente) é um ponto focal no início e, apesar de trazer algumas reflexões, acaba sendo meio que esquecido no último ato e deixa ponta soltas, sem cumprir um real propósito na trama.

“As Viúvas” é um filme que demora a mostrar as (ótimas) cartas, e é somente quando as mulheres se reúnem para colocar o plano em ação que as coisas realmente engajam o público. A trilha do talentosíssimo Hans Zimmer poderia ter entrado em cena antes do meio do filme e seria mais efetiva se usada desde o início para construir o suspense.

Foto: Divulgação

Veredito

São muitos os temas tangenciados pela produção. Desde a discriminação racial à criminalidade, da violência policial ao sexismo, todos estão presentes sem serem alarmantes ou oportunistas, mas sim de uma forma que retrata uma realidade obscura dos percalços da corrupção humana.

Por ser um filme de um gênero muito específico, é possível que ele não chegue com tanta força nas premiações. De qualquer forma, as atuações são dignas de reconhecimento, especialmente as do casal central de Viola Davis e Liam Neeson, bem como Daniel Kaluuya e Elizabeth Debicki. Menções são possíveis ainda nas categorias de edição e roteiro adaptado.

Steve McQueen provavelmente já nos entregou sua obra prima em “12 Anos de Escravidão”, um marco cinematográfico muito maior do que “As Viúvas”. Seja como for, o diretor e o time reunido por ele são competentes demais para falhar, e sua obra continua sendo de qualidade. Em meados de 2015, McQueen disse que adoraria dirigir um musical, algo que ele voltou a falar recentemente. Por favor, que isso aconteça. Estamos atentos aos próximos passos do diretor.

Foto: Divulgação