Veredito de A Bruxa

17/07/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Recém disponibilizado na Netflix, “A Bruxa” (2015) foi um dos filmes de terror que mais dividiu opiniões nos últimos anos. Ao contrário do que o grande público esperava, neste filme não há o tal do jump scare, aqueles sustos, como vistos em “Atividade Paranormal” (2007). O longa, dirigido por Robert Eggers, tenta representar toda a tensão que a população do século XVII sentia durante a era da “caça às bruxas”.

Após terem sidos expulsos da plantação onde viviam depois de um julgamento, os puritanos William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) se estabelecem em uma clareira, ao lado de uma imensa floresta, levando seus filhos e poucos pertences. Porém, não demora a se manifestarem sinais de que há uma força sombria trabalhando no local.

A caça às bruxas

O longa se passa em Nova Inglaterra, por volta de 1630. O diretor e roteirista estreante Robert Eggers buscou a autenticidade a ponto de estudar documentos de época antes de produzir. Seus personagens utilizam diálogos em inglês arcaico, e o cenário, mobília e vestes foram reconstruídos da mesma forma que os documentos os descreviam.

Eggers faz um ótimo trabalho em respeitar as histórias de feiticeiras do passado e representar a era das caças às bruxas, mantendo-se no meio termo entre uma representação histórica e um filme sobrenatural. O diretor brinca com a simples ideia que todos os problemas que a família passa podem ser apenas o exagero da fé na casa. Se alguma coisa ruim acontece com elas ou sua fazenda, acreditam que estão sendo punidos por algum pecado cometido.

Apesar de ter como nome “A Bruxa”, não temos aqui uma antagonista fixa durante o filme. Os conflitos neste filme ocorrem devido à fome, ao isolamento e a própria religiosidade dos personagens. A crença, apesar de ser uma tentativa de refúgio, acaba como o principal gatilho para os problemas que pelos quais os personagens atravessam.

Atmosfera perturbadora

O diretor cria todo o ambiente de medo e tensão que os protagonistas apresentam durante o longa. A casa onde a família mora é retratada de forma quase claustrofóbica, usando apenas velas como fontes de iluminação. As áreas externas, por meio de uma fotografia escura e dessaturada, ajudam na criação da sensação de solidão, o que lembra bastante a estética dos quadros renascentistas. Eggers brinca com a saturação das cenas para mostrar a falta de esperança que os personagens têm no novo lar. A floresta sempre é mostrada de forma grandiosa, por outro lado asfixiante, ao utilizar de longas exposições, dando impressão de que a qualquer momento algo vai sair de lá.

Toda essa atmosfera é ainda aperfeiçoada com a trilha sonora de Mark Korven. O uso das vozes humanas de forma similar a instrumentos soa macabro, o que é ainda mais marcante pela polifonia dissonante. Não há sons eletrônicos, e todos os ruídos são trabalhados de forma tradicional com diversos instrumentos exóticos. A trilha deste filme acaba sendo o elemento mais assustador do longa. Tente ouvir apenas a música de noite e sozinho no quarto. É uma experiência aterrorizante.

Foto: Divulgação

Veredito

A produção foge dos clichês atuais do gênero, realizando uma obra madura, que investe especialmente no simbolismo. Esta é uma obra sensorial, que cria um clima pela fotografia e trilha sonora capaz de deixar o espectador com verdadeiro mal estar.

Para o espectador acostumados com os jump scares e pelas construções óbvias, esta será uma obra chata e entediante. É fácil achar comentários como “Eu não tomei um susto”. Porém, o que o filme busca é causar ao público a mesma inquietação que essas famílias da era pós medieval sentiam. Explora muito bem as lendas sobre bruxaria, utilizando de documentos históricos para manter a autenticidade.

E para reforçar essa verossimilhança empregada ao longa, temos a excelente performance dos atores que podemos chamar de protagonistas: Anya Taylor-Joy, que interpreta o papel de Thomasin, e Harvey Scrimshaw, atuando como o pequeno irmão da garota. Enquanto Anya traz profundidade num desempenho primoroso da menina que está prestes a virar mulher, Scrimshaw entrega uma das sequências mais intensas de uma hora e meia de tela. Acredite: você vai ficar sabendo de qual cena estamos falando.

“A Bruxa” é mais um bom exemplo de como o cinema de horror deveria ser, um filme que trabalha muito bem com a criação de uma redoma amedrontadora, sem cair nos mesmos clichês. Então corre para a Netflix para assistir!

Foto: Divulgação