Veredito da série Hollywood

03/05/2020 - POSTADO POR EM Séries

O sonho de vários jovens artistas, diretores e roteiristas é, um dia, chegar ao considerado ápice da carreira: participar de uma produção de Hollywood, lar das maiores estrelas do cinema mundial.

Mas o que é preciso para alcançar a glória nessa indústria? Talento e disposição, às vezes, não são o suficiente para conseguir aquela chance, o ponto de virada na trajetória.

É o que o produtor Ryan Murphy, de “Glee” e “American Horror Story”, tenta trazer à TV na nova série da Netflix, “Hollywood”, ficção ambientada na cidade dos sonhos durante a década de 1940. Será que para o estrelato há sempre uma estrada de tijolos amarelos? Vamos descobrir.

O conto de fadas

“Hollywoodland”, década de 1940, pós-Segunda Guerra Mundial. O objetivo final de quase todos os atores no início de suas carreiras. Na série do produtor Ryan Murphy, o conto de fadas não é tão fácil de ser alcançado no principal palco do cinema mundial. 

Jack Castello (David Corenswet) lutou na Guerra, casou e se mudou para Hollywood com um distante sonho de virar astro das telonas. À procura, antes de tudo, por dinheiro, conhece Ernie (Dylan McDermott), dono de um “posto de gasolina” com um sedutor trabalho que rende boas quantias. O ofício? Ir para a cama com os clientes.

O ritmo apressado desde o começo marca uma ansiedade para que o protagonista logo conquiste sua meta. A ajuda vem de uma influente cliente: Avis Amberg (Patti LuPone), esposa de Ace Amberg, dono da Ace Studios, estúdio de renome na indústria norte-americana.

Rapidamente, Jack consegue espaço em um filme pequeno através de outra funcionária do estúdio responsável pelo casting – e que também dormiu com ele. Tudo muito simples, visto que o perfil de jovem galã americano se encaixava no padrão de qualquer filme da época.

A caminhada, porém, não seria fácil para seu amigo de trabalho no “posto”, Archie Coleman (Jeremy Pope), roteirista em busca de espaço numa indústria que, até hoje, limita a atuação de profissionais negros e homossexuais. 

Junto de Camille Washington (Laura Harrier), jovem e talentosa atriz negra, os dois se tornam o foco da metade final da série durante a produção de “Meg”, filme escrito por Archie e dirigido por Raymond Ainsley (Darren Criss), namorado de Camille.

Foto: Divulgação

Contra tudo e contra todos

Ao longo dos sete episódios, vemos um design de produção atento aos detalhes das grandes produções de Hollywood, com um ar vintage e de dinamismo frequente. 

No meio do mar de talentos das cidades, falta espaço para egos inflados dos poderosos da indústria. Dentre eles, o de Henry Wilson (Jim Parsons) rouba toda cena. O agente de diversos artistas é a personificação do corrupto, ignorante e abusador daquele ambiente. 

Sem assumir sua orientação sexual, Henry exige de seus atores “favores” antes de qualquer chance em filmes. Caso neguem, ameaça pôr fim às suas carreiras que ainda nem começaram. A figura mais repugnante da série e que escolhe Roy Fitzgerald (Jake Picking) como favorito. 

Após alterar o nome do ator para Rock Hudson, Henry faz dele seu projeto pessoal e tenta de todas as formas encaixa-lo em “Meg”, que entrou em produção e reúne todos os personagens numa escalada para um surpreendente sucesso ou um inevitável fracasso. 

Foto: Divulgação

O trabalho dos “white saviors”

“Meg” foi o maior desafio e o maior objetivo da trama de “Hollywood”. Porém, sua realização não foi aceita pelos méritos de Archie no roteiro ou pelo trabalho de Camille como protagonista. O filme ganhou visibilidade pela absurda insistência de outros personagens, como o do produtor Dick Samuels (Joe Mantello), de que o longa seria símbolo de mudança e de resistência para o estúdio. 

Os esforços para convencer Avis, crente no conservadorismo das produções, mostram uma ideia não de representatividade no cinema, mas de migalhas em forma de aposta num longa que tinha uma boa história, porém com um forte lobby contra sua distribuição pelos EUA.

As figuras que representam o movimento negro na série se calam e esperam pelas ações de seus amigos, os “salvadores brancos”, única esperança para ajudá-los a ganhar o mínimo de reconhecimento.

Foto: Divulgação

Conclusão precipitada

Na reta final – principalmente no último episódio – há uma pressa para nos mostrar tudo o que foi conquistado com um repentino sucesso do filme.

Parte que seria essencial, a recepção do público ao longa não foi abordada na série, deixando uma grande lacuna entre o fim das gravações e a temporada de premiações.  

O foco maior na conclusão foi dado à festa do Oscar, onde “Meg” saiu vitorioso apesar de cortes incompreensíveis da série durante a entrega dos prêmios ao grupo.

O ritmo já demasiado agitado acelerou ainda mais aqui, pulando de um casamento pouco crível de uma relação sem desenvolvimento para o velório de um personagem. Saltos que parecem jogados na história de forma desleixada.

Foto: Divulgação

Veredito

Esses problemas de ritmo poderiam ser resolvidos com um capítulo a mais antes da conclusão, dando o tempo necessário para acompanharmos e nos conectarmos a certos momentos. 

Caso essa possibilidade não pudesse ser realizada por limites da produção, há no começo da série alguns minutos que podem ser retirados sem prejuízo – trama do posto de gasolina – para compensar de uma melhor maneira no fim.

O exagero na quantidade de personagens atrapalha os fechamentos dos arcos de cada um, deixando um final inchado. O grande número, porém, traz um ponto positivo para boas atuações, como a de Dylan McDermott, Jeremy Pope e Laura Harrier. 

O destaque negativo aqui fica para Jake Picking. A dúvida que pairou foi se o ator entrou tão bem no personagem ao ponto de entregar uma performance sem sal e confusa, tal qual Rock. 

A impressão de mensagem que fica é a de que você não precisa ter talento ou galgar seus caminhos com calma, começando por baixo, para chegar ao estrelato. Basta disposição para vender seu corpo e ir contra seus ideais para ganhar ajuda dos mais poderosos. Uma objetificação arriscada e, de certa forma, “glamourizada” na série. E se você não for branco ou hétero, só vai garantir isso com um empurrão de alguém com mais privilégios na pirâmide abusiva de “Hollywood”. 

Pontos fortes

  • Design de produção de época bem trabalhado
  • Trabalho de adaptação de histórias reais daquela Hollywood

Pontos fracos

  • Correria durante os momentos que mais precisam de calma para desenvolvimento
  • Objetificação em prol do sucesso

NOTA: 6