Veredito da 5ª temporada de Black Mirror

18/06/2019 - POSTADO POR EM Séries
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O quinto ano de “Black Mirror” chegou sem fazer barulho na plataforma da Netflix no início deste mês. A série que já foi febre por retratar de maneira melancólica as relações do ser humano com a tecnologia foi perdendo o fôlego ao longo das temporadas, sendo que essa última amargou três míseros episódios que não refletem o brilho dos primeiros anos. Confira nossa análise abaixo.

A mesma tela escura

O primeiro episódio é chamado “Striking Vipers” e mostra como dois amigos de faculdade, Danny (Anthony Mackie) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II), se afastaram ao longo do tempo, mas retomam o contato após utilizar uma tecnologia de realidade virtual para se inserir em seu antigo videogame favorito. A partir de então eles desenvolvem uma relação sexual dentro do jogo, algo que intriga e confunde a ambos.

Em sequência temos o “Smithereens”, que acompanha a história de Chris Gillhaney (Andrew Scott), um motorista de táxi por aplicativo que sofreu com uma grande perda e parece ter dificuldades em se recuperar. A fim de buscar culpados pela tragédia, ele sequestra um funcionário de uma grande empresa de redes sociais para que consiga contato com seu fundador.

Por fim, temos “Rachel, Jack and Ashley Too”, episódio estrelado por Miley Cyrus. A artista atua na pele da estrela pop Ashley O, que tem uma vida bem mais sofrida por trás dos palcos. Em oposição conhecemos Rachel (Angourie Rice), uma adolescente do subúrbio que é super fã da cantora vivida por Miley, chegando a ponto de comprar uma boneca robô que simula conversas e reações como se fosse a própria.

Foto: Divulgação

Ritmo desacelerado

Enquanto nas temporadas anteriores havia uma constante sensação de estranhamento e tensão ao acompanhar o desenrolar dos fatos, dessa vez é quase tedioso observar as atitudes dos personagens. A exceção é o episódio do sequestro, que conseguir criar o mínimo de angústia com o comportamento ansioso do protagonista e a linha desesperada que ele resolve seguir. Os outros não conseguem atingir um efeito semelhante.

As tramas no geral parecem desprovidas de sentimento, e os mais de 60 minutos de cada episódio não são suficientes para causar uma empatia real pelos personagens. As suas motivações podem ser claras, porém não há nenhum carisma no desenvolvimento.

Não é necessariamente culpa dos atores. Em geral eles estão muito bem em seus papéis. Miley está representando algo semelhante à sua carreira, então está suficientemente à vontade no papel. Andrew Scott passa um nível de sofrimento e desespero bastante críveis, e Anthony Mackie também encarna o sentimento de conflito interno necessário para seu protagonista. Mas apesar disso, a jornada deles não é interessante o bastante para prender o expectador.

Foto: Divulgação

Conflitos

Outra problemática é a previsibilidade dos roteiros. Apesar de algumas poucas surpresas que as narrativas guardam, no geral não há aquela sensação de assombro que era predominante em temporadas anteriores. O que os episódios aparentam é que a série já não tem mais com o que surpreender o público e por isso entrega tramas mornas com um apanhado das tecnologias já utilizadas anteriormente.

A direção é uma das partes que consegue ter êxito junto à boa performance dos atores. Toda a produção é visualmente de encher os olhos, com tomadas exuberantes pelos locais apresentados – detalhe para o primeiro episódio que teve cenas gravadas em São Paulo e tem uma boa ambientação cosmopolita. A série também consegue ter uma pegada intimista ao mostrar cenas menores com foco em diálogos relevantes para os enredos.

Foto: Divulgação

Veredito

Ao término dessa quinta temporada o que fica claro para o público é que “Black Mirror” perdeu o seu fôlego e provavelmente não terá mais aqueles episódios que deixavam todos com medo da tecnologia e do que o ser humano poderia fazer com ela. Dá pra entender que eles buscaram um aspecto muito mais pessoal do que tecnológico, porém a graça da produção estava justamente nessa mescla.

Apesar dos roteiros mais limitados, a direção segue competente e as atuações mantém um ritmo razoável para os episódios, porém a falta de carisma das tramas deixa a desejar para o espectador. Mesmo como antologia é inevitável a comparação com temporadas anteriores, que trouxeram o chocante “Hino Nacional” (sim, aquele do porco), o trágico “Urso Branco” (com a perseguição da mulher sem memória) e o mais que atual “Queda Livre” (aquele em que todos têm notas). Comparados a esses, a quinta temporada não obtém o êxito necessário.

“Black Mirror” foi uma série marcante em muitos aspectos e que consegue trazer excelentes e necessárias reflexões para a nossa sociedade e para nós como indivíduos. Porém uma hora a fonte seca e a produção pode encontrar o seu fim nesta última leva de episódios. Esperamos que a Netflix continue investindo nesse tipo de conteúdo extremamente intrigante, porém o seu público necessita de um novo formato.

Pontos positivos

  • Atuações sólidas e críveis
  • Direção bem trabalhada

 

Pontos negativos

  • Roteiro previsível, com poucas surpresas
  • Tramas pouco carismáticas

 

Nota: 6