Veredito da 2ª temporada de You

03/01/2020 - POSTADO POR EM Séries

“You” teve sua primeira temporada lançada na Netflix em 2018 e conquistou fãs que se interessam por histórias que envolvem um protagonista moralmente duvidoso. Com um gancho que prometia muito, o segundo ano da série chegou no final de dezembro para satisfazer a curiosidade dos espectadores sobre o destino de Joe (Penn Badgley). Confira agora a nossa opinião sobre a nova temporada.

Atenção! Esse texto contém spoilers da série.

Nova cidade, novas possibilidades

Logo no início da temporada acompanhamos Joe saindo de Nova York e se mudando para Los Angeles a fim de fugir do retorno ameaçador de Candace (Ambyr Childers), que prometeu expor sua personalidade assassina para o mundo. Chegando na cidade (que ele a princípio detesta, mas considera um mal necessário), ele já se depara com seu novo alvo: a jovem chef Love Quinn (Victoria Pedretti).

O novo ano da série se desenrola em torno de uma suposta tentativa de mudança de comportamento por parte de Joe, que busca uma redenção de seu comportamento criminoso para que possa ser o merecedor do amor de Love. Ele tenta conquistar a garota buscando esconder sua personalidade obsessiva e sendo uma boa pessoa para ela e para os outros personagens que constituem o seu novo núcleo nesses episódios.

Foto: Divulgação

Já vi essa história antes

A primeira coisa que pensamos ao ouvir as palavras de Joe ao observar Love: “Olá, você”, é “lá vamos nós de novo”. E sim, isso é algo que pode resumir bem a estrutura estabelecida para a temporada, que é de repetir de maneira pontual o que acompanhamos no ano anterior. Nós temos o protagonista perseguindo uma nova garota; se responsabilizando pelo bem estar de uma pessoa jovem, antes Paco e agora sua vizinha adolescente Ellie (Jenna Ortega); se envolvendo em um caso de violência contra mulheres; perseguindo pessoas que ele julga más e prendendo-as na jaula transparente.

Ao repetir tão abertamente a fórmula de sua temporada anterior, apesar da trama nova, o que nós temos é uma perda do frescor que os novos episódios deveriam trazer e a série cai na repetição. Felizmente o seu final busca fugir dessa estrutura e somos apresentados a algumas novidades, porém nem todas conseguem ser positivas.

Joe também está de volta com a mesma ambiguidade que pairou sobre ele antes: mesmo sendo uma pessoa ruim, há características nele que nos obrigam a ficar do seu lado diversas vezes. Porém, aqui o roteiro pesou a mão e quis deixar o lado da balança muito mais favorável do que contra ao nosso conhecido sociopata. O fato do protagonista estar buscando redenção é uma das artimanhas da trama para criar empatia, além das relações que estabelece com suas vizinhas e até com a pessoa que prende em cativeiro. De toda maneira, devemos entender que em nenhum momento ele está certo ou é menos culpado por suas mortes.

Foto: Divulgação

Para cada qual, o seu igual

Outro erro cometido pela temporada foi a quantidade de subtramas e personagens mal aproveitados. Começando por Candace, que merecia ser uma verdadeira ameaça para Joe, mas não parecia ter um plano concreto para realizar a sua derrubada e foi descartada de uma maneira extremamente banal. Forty (James Scully), o gêmeo de Love, desempenhou um bom papel até chegar a um final apressado, sendo insatisfatoriamente usado de bode expiatório.

Delilah (Carmela Zumbado) tinha conseguido um pouco mais de destaque. Além do perfil mais analítico e inteligente da personagem, ela tinha uma boa interação com sua irmã Ellie e Joe, porém o seu desenvolvimento chegou ao fim com uma morte trágica e pouco esperada.

O que nos leva à revelação apresentada nos dois últimos episódios da temporada: a de que Love é tão perturbada quanto Joe, ou pelo menos é isso o que eles querem fazer parecer. Já são colocadas três mortes em sua conta para tentar fazer ela se igualar ao namorado, porém a narrativa não faz esforço para dar pistas dessa personalidade deturpada, o que deixa o plot twist extremamente gratuito. A personagem tem uma fala que parece até ser uma justificativa para isso; ela diz que os sinais estavam lá o tempo todo, mas ninguém percebeu, o que está incorreto.

O certo seria para Joe se entregar por completo a ela e perceber que encontrou sua alma gêmea, porém ele a repele até a revelação de que havia uma criança sua crescendo no ventre de Love. É interessante notar como as verdades absolutas que o sociopata tenta incutir em si mesmo o afastam de uma pessoa que se prova como seu igual. Ele acredita que suas ações são para o bem e ele ainda é uma boa pessoa, ao contrário da namorada, que já abraçou o lado sombrio.

Foto: Divulgação

Veredito

“You” consegue se sair bem ao apresentar novos personagens interessantes, mas falha ao finalizar suas narrativas, muitas vezes desperdiçadas. Também tem êxito ao revelar mais do passado de Joe e assim estabelecer um conhecimento maior do público sobre as ações que o levaram a ser como é hoje. Acontece que apesar deste ser um excelente debate, o passado acaba se tornando mais uma das justificativas que a série busca colocar em excesso para o protagonista, colocando-o sobre uma óptica muito mais positiva, coisa que na temporada anterior pôde ficar mais ambígua.

De toda maneira os episódios finais parecem ser os que mais sofrem com a falta de uma narrativa bem construída para a série. Se no começo nós tivemos uma repetição da estrutura anterior, no final há uma necessidade muito grande de se chegar rápido até a conclusão e surpreender, o que nos leva a um desenvolvimento pobre, tanto da trama, quanto das motivações dos personagens.

O gancho do segundo ano indica que Joe já encontrou uma nova obsessão e não conseguirá ser feliz com Love. Todo o amor que ele havia expressado desapareceu no momento em que percebeu estar diante de uma igual. Joe parece ter uma necessidade predatória de achar alguém para proteger e controlar, e uma namorada com a mesma personalidade não irá servir para ele. Com uma terceira temporada já garantida, resta apenas esperar que os novos episódios não sejam mais uma vez um espelho de seus antecessores.

Pontos Negativos

  • Estrutura de narrativa repetitiva
  • Mal aproveitamento dos personagens
  • Resolução confusa e apressada

Pontos Positivos

  • Bons personagens secundários
  • Exploração do passado de Joe

Nota: 6,0