Entrevista: Sandra Kogut, diretora de “Três Verões”, e a crise do cinema brasileiro

15/09/2020 - POSTADO POR EM Conteúdo

O cenário político do Brasil é retratado de forma discreta nos filmes nacionais recentes. Muitas vezes, o contexto fica implícito para os espectadores entenderem as referências.  Porém, Três Verões, ficção da diretora Sandra Kogut , escancara as consequências políticas na vida de Madá (Regina Casé) e de seus funcionários quando seus patrões são presos durante a Operação Lava-Jato.

O dramédia fez parte da seleção oficial do Festival de Toronto de 2019 e chegou aos cinemas brasileiros no começo de 2020. O longa estreia no catálogo do Telecine Play nesta quarta-feira (16) e a diretora Sandra Kogut participou de coletiva online promovida pelo canal para conversar sobre a produção.

Inspiração para a história

A mansão de Edgar (Otávio Müller) e Marta (Gisele Fróes) “desaba” com suas prisões em 2016, durante investigações de escândalos políticos. A caseira e protagonista, Madalena, interpretada por Regina Casé, tem o desafio de administrar a crise no local, onde outros vários funcionários eram empregados.

Para Kogut, os impactos da corrupção nas classes menos privilegiadas deveriam ser uma abordagem mais explorada no cinema nacional e uma tentativa que ela abraçou.  

“Tenho uma tendência natural a prestar atenção nessas pessoas no fundo, no canto. Elas tem um olhar mais agudo, mais interessante. Me deu muita vontade de falar sobre esse momento no Brasil. E me perguntei ‘cadê essas pessoas?’. Poxa, nunca vemos as pessoas que estão em volta. Nessa história, elas eram figurantes. Quis tratar o eco disso nessas pessoas. Penso quantas Madás não existem no Brasil. Muitas. São os personagens que mais me emocionam, guerreiros, que nasceram num endereço que não tem acesso a nada. Me deu vontade de olhar para o Brasil no olhar dessas pessoas, que não estão no centro da tela, mas deveriam estar”, contou Sandra durante a coletiva.

Regina Casé e Sandra Kogut.

O brilho de Regina Casé

A figura de Madá é o ponto alto do longa, que se passa entre 2015 e 2017, no Rio de Janeiro. A cineasta destacou o papel narrativo e simbólico da personagem, que retrata uma realidade tão próxima de nós.

“Sempre achei importante que a Madá estivesse em dois mundos. Ela é empregada e patroa ao mesmo tempo. Queria muito falar sobre esse Brasil neoliberal, onde é cada um por si, tem que se virar, e que ‘o legal é ser patrão’. Foi um projeto muito vendido e deu no que deu, né. Todo mundo no filme fala de dinheiro o tempo todo. A questão material está em 1º lugar. E a Madá vai muito além disso. Ela é agregadora, com ela se forma um coletivo. Ela representa esses valores humanos que tão fazendo falta nesse mundo que retratamos. Esses personagens não são tipos, são humanos. Você assiste e diz ‘conheço gente desse jeito’. E a Regina faz lindamente a Madá“, ressaltou a diretora.

Sandra e Regina são amigas de longa data e já trabalharam juntas no curta Lá e Cá (1995). A boa relação das duas se refletiu na dinâmica de filmagem, com sets de gravações, segundo a diretora, muito enriquecedores pelo modo como o longa foi construído, embora de forma rápida.

“Esse é o meu 3º filme de ficção. Tínhamos pouco tempo. Trabalhei muito com não-atores. Fiz coisas que nunca fiz, como ler as cenas com eles. Não gosto que decorem o texto. Eles têm que sentir a vontade de falar aquilo, de um jeito não decorado. É uma mistura grande do que é real e do que é ficção e fica maior que a gente. Para chegar nessas emoções, tem mil maneiras. Cada cena pede uma coisa. Mas precisa ter confiança, entrega, segurança de que aquilo vai ser conduzido com todo cuidado pela equipe. E tivemos tudo isso. A gente riu e chorou junto. Foi um set muito feliz“, afirmou Kogut.

Crise no cinema brasileiro?

O impacto da pandemia da Covid-19 nas produções e lançamentos audiovisuais foi forte em todo o mundo. No Brasil, o cinema já vem levando cortes em seu orçamento público nos últimos anos e sofre mais ainda durante o isolamento social.

Sandra acredita que o contexto de superação de Três Verões se reflete na forma como a população se adapta às dificuldades trazidas pela pandemia e que o cinema brasileiro deve se manter firme, apesar dos pesares.

“Esse Governo tá desmontando muitas coisas construídas em vários setores. O cinema levou isso em cheio. Com a pandemia, foi a tempestade perfeita. Tudo ficou pior, de uma certa maneira. Se já tava difícil fazer cinema no Brasil, ficou pior. O que isso vai mudar na nossa maneira de fazer filmes? Ninguém sabe. É um momento de mudança para todos. Existe uma guerra contra a cultura no Brasil no governo atual. O filme acaba e tá chegando 2018. Você sabe o que vem, mas os personagens não. Isso torna ainda mais forte o momento de antes. Quando a casa cai, como você inventa maneiras de contornar os problemas? Isso é assunto no filme. A gente passou a pandemia fazendo isso. Tá acontecendo tudo isso e estamos lançando filme. Não vai ser fácil parar o cinema brasileiro“, pontuou a cineasta.

Elenco de Três Verões