Trama Fantasma: Elegância e opulência

21/02/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Daniel Day-Lewis. O único homem a vencer três vezes o prêmio de melhor ator do Oscar. Ele só precisou de cinco indicações para o feito e nos últimos dez anos esteve em apenas três filmes. Sendo um dos atores mais seletivos de Hollywood, é inevitável que todos os olhos se voltem para ele quando está em um novo filme. Dessa vez então, o motivo e o hype são ainda maiores: Day-Lewis afirmou que este é o seu último filme antes da aposentadoria. Reunido com o diretor Paul Thomas Anderson, cuja colaboração em “Sangue Negro” (2007) rendeu-lhe um Oscar, “Trama Fantasma” tem todos os elementos para ser um filme vitorioso. E é.

A Trama

Reynolds Woodcock (Day-Lewis) é um renomado estilista na Londres pós-guerra da década de 1950. Os vestidos da Casa Woodcock representam o melhor da alta-costura da época, sendo a roupa dos sonhos de muitas mulheres da sociedade retratada. As vestimentas são confeccionadas no próprio lar do artista, por várias funcionárias dedicadas, com a supervisão de sua irmã e auxiliar dos negócios, Cyril (Lesley Manville).

As coisas mudam quando o “solteirão” conhece Alma (Vicky Krieps), uma jovem garçonete que se torna sua musa e amante. A moça de ímpeto forte é acolhida pelo veterano e vira a vida dele de cabeça para baixo, alterando toda a meticulosa dinâmica do cotidiano de Reynolds. Diferente das mulheres anteriores, Alma conquista um apreço especial tanto do estilista quanto da irmã dele, e ela própria também se encontra naquele meio da moda refinada.

Foto: Divulgação

Os Fantasmas

A obra traz situações complexas e detalhes mórbidos, sem nunca perder a elegância. Como quase todos os filmes de Paul Thomas Anderson, esta é uma produção que busca analisar o homem em condições não exatamente fáceis ou felizes, causando um impacto sorrateiro no espectador, quase que desafiando-o a gostar do filme. Reynolds é um homem que tem toda sua vida organizada e ajustada dentro de uma única rotina que gira em torno do seu processo de criação. Mesmo sozinho, ele nunca está solitário.

A memória de sua mãe, que lhe ensinou a arte da costura, o persegue – em alguns momentos literalmente como um fantasma. Numa espécie de Complexo de Édipo intricado, ele sempre carrega uma foto dela consigo, ao mesmo tempo que teme ter sido amaldiçoado por sua progenitora. Day-Lewis está formidável no papel. É difícil pensar em alguém que faria melhor a combinação de autoridade, inquietação, sagacidade, charme e vulnerabilidade, e parecer alcançar isso sem muito esforço como ele consegue.

Foto: Divulgação

Friamente calculado

Tudo em “Trama Fantasma” é de uma precisão espetacular. Desde o figurino elegante sem ser exibicionista (um forte candidato a estatueta de Melhor Figurino no Oscar 2018) até o design de produção que recria perfeitamente a Londres dos anos 50 em pequenos ambientes. A trilha de Jonny Greenwood, colaborador de longa data do diretor, cresce nos momentos certos e confere ao longa uma atmosfera ainda mais excêntrica.

Os personagens então, são os mais calculistas possíveis. Parece que todos são jogadores em uma competição que até o próprio Reynolds finge (ou prefere) não enxergar quando se vê encurralado e questiona: “qual é a natureza do meu jogo?”. O filme subverte expectativas e confiantemente foge de dinâmicas superficiais, mostrando que ninguém em cena deve ser subestimado.É interessante notar como as refeições desempenham um papel central no longa, seja no café da manhã que define o humor de um dia inteiro ou de jantares (dois em particular) que são pontos de virada na trama.

Foto: Divulgação

Veredito

“Trama Fantasma” é um filme lento, que sabe calmamente aonde quer chegar, ainda que o caminho não esteja claro ao espectador. É uma obra intrigante sobre romance, controle, relacionamento e disputas de poder, situado em um plano de fundo elegantemente requintado.  Como afirma Reynolds em determinado momento de súbita consciência: “Há um ar de morte discreta nesta casa. E eu não gosto de como isso cheira”.

Progressivamente inusitada, a narrativa se nega a seguir um rumo comum e se torna deveras bizarra no fim da produção, momento mais precioso da obra. O oitavo filme de Paul Thomas Anderson é brilhantemente perverso, exibindo um diretor e um ator no total controle de seus ofícios. Se este for realmente o último trabalho de Day-Lewis, será formidável lembrar dele em um papel tão adequadamente seu.

Foto: Divulgação