The Handmaid’s Tale: a decadência de uma espécie

19/05/2017 - POSTADO POR EM Séries
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Em um futuro não muito distante, um regime totalitário baseado nos preceitos cristãos desnuda as mulheres de seus direitos e força aquelas que são férteis a se tornarem “Aias”, carregando em seu útero a promessa de prosperidade a homens abastados e suas esposas estéreis. Esse é o ponto de partida do romance da canadense Margaret Atwood, que deu origem à nova série do serviço sob demanda Hulu: “The Handmaid’s Tale”.

Criado por Bruce Miller e escrito em parceria com a autora do livro (intitulado “O Conto da Aia” no Brasil), o seriado teve os três primeiros episódios lançados na semana passada (26/4),  com a primeira temporada garantida em dez partes, de aproximadamente uma hora cada.

Este texto pode revelar spoilers sobre o enredo, personagens e desenvolvimento da história da série.

Caos organizado

A distopia revela que a poluição da atmosfera, as pílulas anticoncepcionais, orgias e os relacionamentos irresponsáveis foram fatores que resultaram na crise de fertilidade ao extremo necessário de intervenção de “outro tipo de exército”. As fronteiras do que antes eram os Estados Unidos foram cerradas, e aqueles que sobreviveram à resistência são obrigados a servir às famílias dos Comandantes.

No novo país, agora chamado Gilead, as Tias são mulheres mais velhas, espécies de doutrinadoras da ordem vigente; as Marthas perderam a capacidade de engravidar e assim tornaram-se empregadas que cuidam dos afazeres da casa; os Olhos são agentes do governo responsáveis pela disciplina e obediência; e finalmente, as Aias ficam a cuidado das Esposas para periodicamente se deitarem com seus maridos na tentativa constante de gerar filhos saudáveis que serão doados.

Ao tentar fugir do país com seu marido e filha de oito anos, June (Elizabeth Moss) é capturada, separada da família e levada ao Centro Vermelho, onde as demais jovens reprodutoras estão sendo educadas no ofício da procriação. Lá, ela é designada a viver com seu Comandante (Joseph Fiennes) e a Esposa (Yvonne Strahovski). Como todas as Aias, ela basicamente vive em uma prisão, mas deve ser tratada como um presente de Deus que vai garantir a herança da classe superior. A trama é narrada pela própria June, e como ela mesma diz, o medo dos que a colocaram naquela posição não é de que ela fuja, mas sim “daquelas outras fugas, aquelas que você pode abrir em si mesma, se tiver um instrumento cortante ou um lençol torcido e um candelabro”.

Foto: Divulgação

Parte(s) da história

Num tempo em que os computadores pessoais ainda nem existiam, meados da década de 1980, Atwood se propôs a um desafio ao escrever o livro que mistura drama e ficção científica: com uma máquina de escrever, ela colocaria apenas elementos que já aconteceram na história universal.

Quando a produção do Hulu começara, muitos estudiosos acreditavam que Hillary Clinton seria eleita presidente dos Estados Unidos. Meses depois do início das filmagens, porém, Donald Trump venceu a disputa, levando milhares de protestantes às ruas no que ficou conhecida como a Marcha das Mulheres de Washington. Algumas delas carregavam cartazes com os dizeres: “Make Margaret Atwood fiction again”, uma resposta clara ao slogan da campanha de Trump (“Make America great again”). Era um clamor para que, ao invés de “fazermos a América grande outra vez”, pudéssemos trazer de novo à tona a ficção de Atwood e ao mesmo tempo deixar o futuro caótico previsto pela autora apenas na fantasia.

Outras levantavam a expressão em latim, tirada do livro: “Nolite te bastardes carborundorum”, que significa “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas” e se tornou um lema humanitário para os leitores. Daí vem a urgência de uma série a refletir essa conjectura que parece pouco provável, mas só parece. O livro de mais de 30 anos de publicação está de volta às listas de mais vendidos mundo afora.

Foto: Divulgação

Contexto atualizado

Para a adaptação ao formato audiovisual, algumas mudanças cruciais foram executadas com o aval da escritora do livro de 1984. Afinal de contas, muitas coisas mudaram desde então, tanto tecnologicamente quanto socialmente. E as diferenças vão muito além do fato de que as personagens usavam smartphones antes da tomada da “nova lei” ou da simples menção a aplicativos como Tinder e Uber.

No livro de Atwood, as Aias são rebatizadas de acordo com seus Comandantes, com uma preposição no radical do nome que indica posse: Offred, por exemplo, é a Aia de um homem chamado Fred, assim como Ofwarren é aquela do Comandante Warren, e assim por diante. Na obra literária, a personagem principal nunca revela seu verdadeiro nome, ao passo que uma das primeiras coisas que faz na narração em primeira pessoa da série é se apresentar como June.

Como o seriado promete uma extensão do livro em termos narrativos, incluindo vários novos flashbacks da “vida de antes” da protagonista, em termos práticos seria mais adequado chamá-la pelo nome. Esse ato desafiador de afirmação da personagem parece ter refletido na própria atitude da personagem, que tem comportamento mais obstinado. Essa postura é apresentada com violência em uma das cenas mais fortes do piloto, em que as Aias são livres para literalmente massacrar um acusado de estupro sob a autorização das Tias.

Outra mudança significativa diz respeito à presença de diferentes raças na história. Do mesmo modo como fizeram os nazistas, os líderes de Gilead “separam” as pessoas pela cor no livro. Já na série, muitos personagens próximos da principal são negros: seu marido, Luke (O-T Fagbnle), a filha, Hannah, (Jordana Blake) e melhor amiga, Moira (Samira Wiley). O criador sentiu que o ajuste seria necessário ao levantar a questão: “Qual é a diferença entre fazer um programa de TV sobre racistas e fazer um programa de TV racista onde não se contrata atores de cor?”

A personagem de Moira é assumida como homossexual tanto no livro quanto na série. Além dela, exclusivamente nas telas também é o caso de Ofglen (Alexis Bledel), cujo destino é revelado no terceiro episódio, diferente do livro e desviando um pouco o foco da personagem principal. “Nós queríamos que a série fosse bastante identificável”, relata a atriz Elisabeth Moss (Peggy Olson, de “Mad Men”), que é também produtora do projeto. “Queríamos que as pessoas se vissem nela. Se for fazer isso, você tem que mostrar todos os tipos de pessoas. Tem que retratar a sociedade atual”, completa.

A sensação que fica ao ler o livro é de estranheza acompanhada por um distanciamento, mas a ambientação aterrorizante da série, com seus quartos escuros em contraste com as ruas ensolaradas, deixa-nos um sentimento diferente. Essa representatividade que luta contra a opressão e nos leva a diferentes cenários abre os olhos e as portas, sobretudo para a esperança de que em uma sociedade cruel é possível resistir.

Foto: Divulgação