A realidade fantástica de Haruki Murakami

23/09/2017 - POSTADO POR EM HQs/Livros
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De repente você se sente sozinho. Uma multidão passa por você, gatos ronronam, espichados a tomar sol, alguma moça de beleza mística encara o céu. E a rádio interrompe um jazz no meio da execução. O que se ouve agora é a versão de garagem de “Yesterday”, cantada por Paul McCartney. Ler Haruki Murakami é isso.

O autor japonês sabe descrever muito bem a sua época. Na verdade, parte do seu sucesso entre o público de jovens adultos se deve ao fato de que muitas de suas obras retratam gente jovem, confusa e depressiva (o que na verdade também diz muito sobre quem nós somos hoje). Abaixo, fiz um perfil modesto de Murakami com minhas impressões sobre três livros do autor. Ah, o texto contém algumas informações sobre as obras, mas nada que estrague sua leitura!

Murakami

Nascido no pós-guerra (12 de janeiro de 1949), fortemente influenciado pela literatura ocidental, Haruki Murakami permeia suas obras com ícones musicais e literários do lado de cá do mundo, tendo forte apreço pelo jazz e pela cultura beatnik. O autor chegou a ter um bar de jazz chamado Peter Cat antes de mudar-se do Japão (ele morou algum tempo na Europa, mas logo fixou-se nos EUA).

Em seus livros, os personagens sempre ouvem alguma coisa: todos os livros de Murakami são extremamente musicais e, se você não possui um repertório grande em jazz, logo, logo possuirá. O autor também adora praticar corridas, sendo maratonista. Podemos ver como ele possui apreço por atividades físicas de um modo geral, pois seus livros sempre mostram gente se exercitando. O livro “Do que eu falo quando falo de corrida” é uma boa porta de entrada para a literatura de Murakami, apesar de ser mais ensaístico e autobiográfico. A Alfaguara está prestes a lançar mais um livro deste tipo, o “Romancista como vocação”, que também nos coloca em contato com o autor.

Foto: Divulgação

Kafka à Beira-mar

Gatos falantes e assassinatos misteriosos, uma chuva de sardinhas e um menino-corvo são os detalhes menos pitorescos desse romance. A saga edipiana de Kafka Tamura entrelaça-se com a inocente e triste saga de Nakata, um velho homem que perdeu certas capacidades cognitivas ao sofrer um acidente enquanto caçava cogumelos quando criança. Kafka, um adolescente de 15 anos, está à procura da mãe e da irmã que sumiram quando ele tinha apenas quatro anos. Ele foge de casa para escapar da maldição edipiana de matar o próprio pai, e passa a buscar as familiares perdidas. Nakata, por possuir a habilidade de conversar com gatos, faz bicos de “caçador de gatos perdidos”. Ele os encontra e os devolve aos seus donos.

Um gatinho em particular acaba por colocá-lo no meio de uma trama bizarra onde um homem chamado Johnnie Walker (e que se veste como a logo do uísque homônimo) pretende fazer uma flauta com a alma de vários gatos. Este homem obriga Nakata a cometer um assassinato – e é aí que a história de Kafka e Nakata se cruzam: o homem morto é o pai de Kafka. É um livro bastante carregado de conceitos do xintoísmo, bem como da metafísica aristotélica. Com muitas perguntas e poucas respostas (como toda a obra de Murakami), esse livro é um dos mais complexos do autor, apesar de ser um dos mais divertidos. Existem algumas cenas de violência que podem causar certa náusea, principalmente se a pessoa gosta muito de gatos.

Foto: Divulgação

Sono

Pensei muito antes de incluir “Sono” neste texto. Na verdade, trata-se de um conto não muito extenso do autor e que foi publicado no Brasil pelo selo Alfaguara, da Objetiva, com ilustrações incríveis de Kat Menschik. A história fala sobre uma mulher que não consegue dormir. Sua vida parece boa, ela tem um bom marido e um filho. À tarde, ela nada para manter a boa forma. Dirige um Honda City usado que conseguiu comprar de uma amiga (por quase nada). Apesar de ser um carro muito rodado e que às vezes não funciona, ela gosta do veículo. O conto se inicia na décima sétima noite de vigília insone. Apesar disso, ela não sente cansaço, perda de apetite ou qualquer outro sintoma da privação do sono. Ela está mais desperta do que nunca. Sua vida, uma repetição sem fim, parece adequada ao mundo em que vivemos. Seu marido trabalha para manter financeiramente a casa, ela faz o trabalho doméstico para manter a aparência do lar, e é isso.

É o que chamamos de vida comum, o sonho americano (apesar de o conto se passar no Japão – e isso eu apenas posso supor pela cartografia da cidade que a personagem habita) da família feliz com dois carros na garagem e um bom lugar para morar. Acostumada com o papel de dona de casa, ela cuida do filho, faz compras e ocasionalmente faz sexo com seu marido. Mas, lúcida, sempre lúcida, o que ela realmente gosta de fazer é ler e nadar. Desde o início da insônia, a personagem lê “Anna Karenina”, de Tolstói (um romance longo – razão pela qual a personagem resolve lê-lo – e que dificilmente seria resumível em algumas linhas). Sua vida parece girar em torno dessa leitura e de seu crescente desinteresse pelo contato com as pessoas ao seu redor. Na verdade, o que a personagem busca é um tempo para exercer sua individualidade, ainda que deseje ardentemente ser outra pessoa. Ela lê o romance de Tolstói três vezes durante a primeira semana de insônia e vez ou outra passeia pelas ruas de madrugada. Sua vida comum, mediana, aos poucos vai sendo desmontada.

O dispositivo no qual ela sente-se enredada vai desagradando-a lentamente: ela descobre que seu filho é tão estranho quanto seu marido. Ambos desconhecem sua insônia, pouco sabem sobre as reais vontades da personagem; mais: ela não pode reclamar. Sua vida, tranquila, é a tragédia do comum. Sente que no futuro não poderá amar o filho, bem como não entende como agora pode amar o pai da criança. E envergonha-se por isso. Seu papel de mãe e esposa não deveriam dar espaço para esse tipo de pensamento. O final do conto é desconcertante, para não dizer frustrante. Sim, Murakami não nos entrega tudo. Ou melhor, nos entrega o que há para ser entregue. O eu-lírico feminino revela angústias que em nenhuma das outras obras de Murakami (majoritariamente masculino em seus trabalhos) pode ser encontrado. A leitura é rápida e as ilustrações são algo para se ver e rever. Tudo o que existe neste livro pode ser encontrado nas outras obras de Haruki Murakami e, eu garanto, você vai querer ler toda a bibliografia deste que é um dos mais influentes escritores contemporâneos.

Foto: Divulgação

Norwegian Wood

A canção “Norwegian Wood”, dos Beatles, começa assim: I once had a girl / or should I say, she once had me (Eu certa vez tive uma garota / ou melhor, ele teve a mim). O livro mais realístico de Murakami fala do amor de Toru Watanabe por duas mulheres, Naoko e Midori. Watanabe está confuso e sente-se cada vez mais sozinho. O mundo na década de 1960 está em euforia, e os movimentos estudantis ganham força. Watanabe reencontra Naoko, ex-namorada de seu melhor amigo, Kizuki, que cometeu suicídio aos 17 anos. Watanabe e Naoko passam bastante tempo juntos e ocasionalmente se aproximam. Naoko está preenchida por um sentimento de morte.

Desde que Kizuki morreu, é como se ela mesma estivesse morta em algum lugar distante. Watanabe apaixona-se por ela, mesmo sentindo que ela nunca o amaria de volta. Eles fazem sexo e ela resolve ir para um sanatório. É aí que entra Midori Kobayashi, uma moça extrovertida e criativa. Lentamente ela e Toru criam um afeto muito positivo. Todo o livro será pontuado por esses dois tipos de amor: um que está atrelado ao passado e outro que procura por um futuro. Toru Watanabe não é mais um adolescente, mas percebe-se sendo levado pelas situações, como uma criança é puxada pela mão por seus pais em uma multidão. O livro trata do amadurecimento de Toru, tanto existencial quanto emocionalmente. É muito triste e possui muitos suicídios, portanto, leia com cautela!

Foto: Divulgação