Primeiras impressões de Lovecraft Country

18/08/2020 - POSTADO POR EM Séries

Não é de hoje que os suspenses com temáticas sociais, como Corra! (2015) e Homem Invisível (2020), vêm sendo sucessos de público e crítica. Com esse mesmo tema, a HBO acaba de lançar a série Lovecraft Country, adaptação do livro Território Lovecraft (2020) escrito por Matt Ruff. Tendo como produtores executivos Jordan Peele e J.J. Abrams.

O primeiro episódio foi lançado no último domingo, 16 de agosto, e os outros nove sairão semanalmente no canal. Nós assistimos a estreia e vamos contar nossas impressões.

Roadtrip perigosa

Ao deixar o serviço militar, o jovem Atticus (Jonathan Major) recebe a notícia de que seu pai desapareceu misteriosamente. Para achá-lo, ele se une ao tio, George (Courtney B. Vance), que viaja pelo país para escrever o “Guia de Viagem do Negro Precavido”, um folheto que reúne os lugares que são seguros para os negros nos anos 1950. Além deles, Letitia (Jurnee Smollett), uma vizinha, decide acompanhá-los durante o trajeto.

A viagem de tranquila não tem nada. Os Estados Unidos de 1954 não era exatamente receptivo com pessoas negras, elas costumavam ser hostilizadas em locais públicos e recebia olhares até de pavor de pessoas brancas. Isso é mostrado logo no primeiro episódio, quando em uma das paradas, o grupo é tratado com antipatia no restaurante onde param e logo depois são perseguidos com violência pela polícia.

Imagem: Divulgação

As referências do primeiro episódio

Logo nos primeiros minutos do piloto, temos uma cena cheia de simbolismos. Vemos Atticus no meio de um pesadelo sendo atacado por um monstro que vindo das obras do pai do horror cósmico H.P. Lovecraft, Cthulhu, até ser salvo pelo jogador de beisebol Jackie Robinson, primeiro jogador negro a quebrar as barreiras do esporte, se tornando um ícone nos anos 50.

Atticus passou alguns anos no exército, lutando na Guerra da Coréia (1950 – 1953). O conflito do pesadelo parece ser um trauma do acontecimento, que, pelo visto, o levou a ter marcas psicológicas graves. Lembrando que durante muitos anos, se alistar e servir como militar representou uma alternativa para os negros de crescimento e melhores condições de vida.

Ainda no começo do piloto, vemos claramente no ônibus que existe uma separação entre as pessoas brancas e negras, além de perceber que alguns lugares dos Estados Unidos eram mais racistas que outros. Podemos ver que quando Atticus cruza a fronteira do Kentucky, ele demonstra sua raiva mostrando o dedo do meio para uma placa de “bem-vindo” ao estado.

Já nos diálogos entre Letitia e a sua irmã, podemos perceber que existiam empregos “adequados” para as mulheres brancas e as negras e que essa linha não deveria ser cruzada. Apesar de que em alguns lugares algo parecia estar mudando.

O discurso do romancista James Baldwin, que é ouvido durante a viagem, foi gravado durante um debate com um autor conservador em 1965 e mostra como os negros foram explorados para que o sonho americano fosse possível. Aparentemente, somente nós, os espectadores, podemos escutá-lo. Enquanto isso, os protagonistas escutam músicas no rádio, mas não é qualquer uma, é uma canção do astro do blues B. B. King.

Além disso, as placas da estrada ajudam a indicar ambientes hostis com os não-caucasianos. Elas falavam abertamente que negros não eram bem-vindos e existia um toque de recolher no fim da tarde para que eles deixassem as tais cidades onde o racismo era mais aberto.

Imagem: Divulgação

Impressão final

A obra que deu origem à Lovecraft Country é bastante surpreendente. O livro pode passar a ideia de que, em algum momento, poderia se perder em clichês, mas isso não acontece e a curiosidade é grande para descobrir todos os fatos da narrativa.

O primeiro episódio tem cerca de 1h08min de duração, porém você não sente o tempo passar. A construção do clímax é perfeita. É como se os dominós fossem empilhados da forma certa e quando o finalmente o conflito final chega, estamos prontos e são todos derrubados de maneira satisfatória. 

Tudo é feito de forma para que o espectador crie vínculos com os protagonistas e por isso queremos ver os acontecimentos, sendo impossível ficar indiferente a eles. Todos os atores principais se entregaram aos papéis de forma competente, construindo seus personagens  com muita maestria.

Os diálogos são muito interessantes, trazem informações necessárias e não são expositivos ao extremo. Já a direção, usa closes em objetos ou nos personagens que ajudam na narrativa, que possui também um ótimo roteiro. Em resumo, tudo está muito amarrado, é um verdadeiro deleite aos olhos.

Imagem: Divulgação