O acordo subentendido das pequenas grandes mentiras

19/03/2017 - POSTADO POR EM Séries
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Uma freada brusca para evitar uma batida pois a jovem motorista do carro da frente dirigia e mandava mensagem no celular ao mesmo tempo; um tornozelo torcido ao tropeçar no próprio salto-agulha; um episódio de bullying entre duas crianças no primeiro dia de aula mal administrado pela professora. Isso tudo pode acontecer com qualquer um. Na minissérie recém finalizada pela HBO, porém, esses pequenos eventos do dia a dia parecem desencadear em uma trágica cena de violência e assassinato. É assim que começa a história dividida em sete episódios de “Big Little Lies”, inspirada no livro de mesmo nome (e traduzido pela editora Intrínseca como “Pequenas Grandes Mentiras”) da australiana Liane Moriarty.

Este texto pode revelar coisas sobre o enredo, personagens e desenvolvimento da história. Se você não aceita spoilers, deixe para ler a matéria depois que assistir a série.

Quem é quem

Madeline Martha Mackenzie (Reese Witherspoon) está no seu segundo casamento e se divide entre cuidar das filhas e da casa, um trabalho de meio período e saber tudo sobre todos da comunidade de Monterey, na Califórnia. Ela mantém um relacionamento quase forçado com Bonnie Carlson (Zoë Kravitz), a nova esposa do seu ex-marido que está mais preocupada com meditação, bem estar e uma mente sã.

Celeste Wright (Nicole Kidman) é a melhor amiga de Madeline e vive para sustentar a aparência da família perfeita com Perry (Alexander Skarsgård) e seus filhos gêmeos. Renata Klein (Laura Dern) é uma poderosa e influente executiva que coleciona horas de trabalho para mostrar o quanto é capaz. E Jane Chapman (Shailene Woodley) é a novata na cidade que quase não pode acreditar na sorte que teve ao fazer amizade com Madeline e Celeste.

Foto: Divulgação

Escolha seu time

O que essas cinco mulheres têm em comum são os filhos de 5 a 6 anos de idade, todos matriculados no primeiro ano da mesma escola pública (mas com qualidade de uma particular, por favor!). Ao final do dia da orientação – um grande evento na cidade quase paradisíaca –, a filha de Renata aparece com marcas no pescoço, apontando como culpado da obra ninguém menos do que o colega novo, Ziggy, filho de Jane.

Ao negar a responsabilidade pelo ato de agressão, o menino causa o maior desconforto entre todos os pais e filhos, e daí já se pode perceber que nesse grupo de mães já havia conflitos e picuinhas. Renata, por sua vez, vai fazer de tudo para proteger sua filha inocente. A essa altura, Madeline já tinha adotado Jane como sua protegida porque esta fora gentil o suficiente para ajudá-la quando, no caminho para a escola, “Maddie” leva uma queda na rua. Enquanto esperam a aula acabar, Madeline e Celeste conhecem um pouco melhor a “caloura” deslocada nesse universo competitivo e sutilmente hostil.

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Envelope confidencial

Antes de tudo isso, na cena de abertura da minissérie, presenciamos sob o ponto de vista de uma das personagens um fim de festa caótico que deveria arrecadar fundos para a escola, mas onde uma pessoa fora vítima de homicídio. Não sabemos quem morreu nem o autor do crime. E daí a história regressa algum tempo para aquele primeiro dia na escola, que apenas nos introduz à superfície dessas personalidades.

Mais do que uma novela sobre famílias extremamente privilegiadas e poderosas contra outras não muito abastadas e fora do padrão, o enredo nos desafia a questionar nossos instintos sobre o comportamento e a psique feminina na televisão e (por que não?) na vida real. Afinal, todos os conflitos retratados ali são bem mais habituais do que gostaríamos de assumir.

E essa afirmação é tão verdadeira, que em dado momento o mistério principal da narrativa quase perde sua relevância. Enquanto assiste àquelas mulheres repetirem a rotina diária, transitando entre um destino e outro em seus carros confortáveis, ou simplesmente relaxando em casa após um dia intenso de afazeres, o espectador acaba ficando mais interessado no próximo passo, movimento ou reação diante dos acontecimentos seguintes do que na resolução do crime em si.

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Palco para atuação

Provavelmente o ponto mais forte de “Big Little Lies” está no trabalho do elenco. Com a direção impactante de Jean Marc-Vallée (“Livre” e “Clube de Compras Dallas”), assistir a essas cinco grandes atrizes é praticamente um evento único, pois onde mais se poderia reunir nomes tão fortes em uma só produção? A propósito, as atrizes Witherspoon e Kidman fazem parte da execução do projeto. Verdadeiras amigas fora da tela, foram elas que convidaram Dern, Woodley e Kravitz para compor o grupo.

Embora algumas possam ter descrições físicas diferentes das contidas no livro de Moriarty, é preciso reconhecer que cada atriz entrega cenas extremamente poderosas, como quando Madeline confessa um segredo à sua filha adolescente no penúltimo episódio; Celeste visita uma terapeuta de casal sozinha; Jane escuta a opinião de uma psicóloga infantil sobre Ziggy; Renata confronta seu marido por causa do comportamento da filha; e até Bonnie, que tem a menor participação no todo, surpreende com seu silêncio em um dos pontos mais cruciais da trama.

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Diferenças e adaptações

Para a televisão, algumas modificações fundamentais foram feitas do livro de Liane Moriarty, e apesar de algumas serem de grande importância, podemos considerar que foram aprovadas pela própria autora, já que ela também foi produtora executiva da minissérie. Duas das diferenças que se destacam dizem respeito ao arco da personagem de Witherspoon e à troca do gênero do detetive que investiga o caso, que na série é uma mulher.

Na sua mais profunda camada, “Big Little Lies” nos faz refletir sobre como a ameaça representada pelos homens transforma as relações entre as mulheres, mostrando o irrefreável potencial da amizade e da compaixão. Agradando ou não aos fãs do livro, essas escolhas certamente não são arbitrárias: tudo foi pensado com o cuidado de conferir maior profundidade às estórias e a preocupação com o que se queria contar: que, muitas vezes, mais perigosas do que as mentiras que dizemos uns aos outros são aquelas que contamos a nós mesmos.

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