Parasita: o trampolim de classes

22/11/2019 - POSTADO POR EM Filmes

Berço de cada vez mais produções de qualidade, a Coreia do Sul cresce no patamar do cinema mundial. Com o diretor Park Chan-wook (“Oldboy” e “A Criada”) como grande referência atual, outro cineasta se estabelece como uma das maiores revelações da década na 7° arte oriental. 

Em “Parasita”, Bong Joon-ho (“O Expresso do Amanhã”, “Okja”) entrega seu melhor trabalho, unindo comédia e suspense em uma histeria que pegou o público de surpresa. Confira o que achamos do longa.

A saída do buraco

Em uma Coreia do Sul onde o desemprego vem caindo e a disputa por uma posição no mercado de trabalho só aumenta, não sobram muitas opções de ocupação para grande parte do povo. “Parasita”, desde o começo, reflete a imagem de um país desenvolvido, mas com problemas sociais latentes em uma economia que exige profissionais cada vez mais qualificados.

Dentre os que arranjam bicos para se manterem, a família de Kim Ki-taek (Song Kang-ho) busca qualquer opção para conseguir um dinheiro a mais. Vivendo na periferia em uma casinha abaixo do nível do solo, os protagonistas tentam garantir um mínimo de conforto na menor brecha que encontrarem. 

Porém, sua realidade muda quando o filho Ki-woo (Choi Woo-shik) recebe uma sugestão de trabalho de um amigo como professor de inglês para uma jovem de uma família rica da cidade. O ponto de virada para os Ki-taek.

Foto: Divulgação

Ascensão gradual

Aos poucos, Ki-woo ganha a confiança de Choi Yeon-gyo, mãe de Da-song e de Da-hye, que se afeiçoa a seu novo tutor. O rapaz enxerga na ingenuidade da família Dong-ik, que procura alguém para explorar a “genialidade” ainda não explorada do filho mais novo, a chance de trazer Park So-dam, sua irmã, para aproveitar a boa vontade – e o dinheiro – da matriarca.

Logo, é questão de tempo para todos os 4 Ki-woo encontrarem uma função no casarão dos Dong-ik. Um espaço amplo, iluminado, como um paraíso que eles nunca experimentaram antes. Mas, para chegar às suas posições, precisam passar por cima dos antigos funcionários do lar, entre eles alguns que passam por necessidades parecidas com as deles e que não estão dispostos a perder seu emprego.

Enquanto tentam se adaptar e pertencer à sua nova realidade, aquela na qual eles “se encaixam”, como alegado por Kim Ki-taek, não podemos deixar de questionar em que arquétipo narrativo as duas famílias estão.

Seriam os Dong-ik as vítimas dos Ki-taek, embora demonstrem um nojo velado pelos mais pobres, os que “cheiram a metrô”, os que podem trazer doenças ao seu lar? Ou os Ki-taek são, na verdade, os heróis por tentarem sair da periferia e usarem suas habilidades teatrais para mudar de vida, mesmo continuando morando em seu pequeno cômodo na parte mais baixa da cidade?

Foto: Divulgação

“Isso é tão metafórico!”

Em entrevista à revista americana GQ, Bong Joon-ho explicou a barreira implícita entre os dois espectros sociais, e como a “alta sociedade” trabalha para manter essa distância entre realidades que não sejam semelhantes às dela. 

“O que eles realmente querem, e é algo que Mr. Park diz no longa, é desenhar uma linha sobre o mundo sofisticado deles e não deixar ninguém ultrapassá-la. Eles não se interessam pelo mundo de fora. Querem empurrar todos para fora da linha e continuar salvos atrás dela”, disse o diretor.

A tentativa do Ki-taek de pular de patamar e invadir o terreno mais abastado dá uma certa sensação de satisfação ao público, admirado pela capacidade de manipulação da família em uma sequência de reviravoltas ministradas por Joon-ho, que nunca deixa o tom tenso e hilário ao mesmo tempo em sua direção.

Foto: Divulgação

Veredito

A luta de classes já foi abordada pelo cineasta em “O Expresso do Amanhã”, mas, como ele mesmo comentou, “Parasita” trabalha em um microcosmo coreano, de pessoas que ele encontra diariamente, onde foi possível explorar todo o potencial de seus atores, que passam, na medida certa, a ingenuidade, a ousadia e o medo que seus personagens demandam.

“Parasita” transita em vários gêneros narrativos, com uma ambientação limitada praticamente entre as duas casas da família – inclusive construídas para o filme. No seu momento de maior expansão de cenário, em uma das melhores cenas de 2019, os Ki-taek descem por escadarias durante uma torrente que os empurra de volta para seu lar original. 

Do céu ao inferno, onde não encontram fogo, mas um oceano do qual tentaram fugir ao pular do trampolim para o paraíso, tão próximo e ao mesmo tempo tão longe. O trampolim quebrou, os miseráveis se afogam, e a burguesia não os enxerga – nem o quer -, confortável em seu Éden.

Pontos positivos

  • Roteiro bem construído
  • Atuações excelentes, sem exceções
  • Direção paciente, sabendo ser dinâmica quando necessário

Pontos negativos

  • Nenhum

NOTA: 10