O Poço: violência e terror social

28/03/2020 - POSTADO POR EM Filmes

Um dos filmes mais metafóricos e deterministas dos últimos tempos, “O Poço” é um longa espanhol dirigido por Galger Gaztleu Urrutia e está no Top 10 da Netflix de produções mais assistidas desde que chegou à plataforma. Seguindo uma linha que lembra um pouco “Parasita” (2019) e “Expresso do Amanhã” (2013), ambos de Bong Joon Ho, ele discute os problemas sociais de uma forma mais filosófica. 

Assistimos a produção de terror e vamos contar nesse texto o que achamos dela. Mas fica o aviso: na seção “Metáfora” serão abordadas algumas interpretações sobre a história do filme e o seu final, caso você não queira spoilers sugerimos que pule essa parte.

Enclausuramento

Goreng (Iván Massagué) é um homem aparentemente comum, que decide passar alguns meses dentro de uma espécie de prisão vertical, chamada por seu encarcerados de poço, para se livrar do vício em cigarro. Neste local as pessoas são alimentadas uma vez por dia por uma mesa que passa por todos os níveis (que são mais de 200), em um mecanismo que lembra um elevador.

A cada andar do poço existe uma dupla de pessoas que são obrigadas a conviver por um mês. Após esse tempo, elas são dopadas através de um gás e trocadas de andar, pulando de nível aleatoriamente. Quando mais baixo, menos comida há. Todos parecem adaptados a esse esquema e Goreng tem uma escolha: viver como os demais, ou tentar achar uma forma mais justa de sobrevivência.

Foto: Divulgação

Níveis

A trama de “O Poço” faz inúmeras referências à divisão em classes sociais que vivemos e como isso afeta as pessoas que vivem em diferentes níveis dela. O protagonista é altamente questionado por si mesmo e pelos outros se aquela é uma maneira justa de se viver. A narrativa consegue conduzir esses questionamentos muito bem, o que faz o espectador se envolver cada vez mais com a história e perceber que aquele não é um simples filme de terror.

A condução visual do longa também é excelente, com cenários limitados, isso nos impõe uma sensação de opressão e claustrofobia. Em um local como aquele parece que a coisa que mais se tem é tempo para refletir, porém isso parece demorar a acontecer com o protagonista, vemos várias tomadas mostrando repetidamente a rotina de Goreng, antes de ele ser confrontado mais diretamente sobre sua situação. 

Mesmo com todos os questionamentos, o filme também sabe conduzir bem a sua parte de suspense, primeiro deixando o protagonista no escuro, sem entender muito bem o lugar em que ele está. Outro ponto que causa estranhamento são as interações com os demais encarcerados, que sempre dá a entender que nunca sabemos o que esperar dessas pessoas. E a violência que ocorre em cena é feita para passar sensações como terror, nojo e desespero, porém sem apelar para algo muito gráfico.

Foto: Divulgação

Metáfora

Não é de hoje que o ser humano busca entender todo o mecanismo em que estamos inseridos. A literatura já faz isso desde os primórdios, mas quando filmes abordam esse assunto costumam fazer bastante sucesso, principalmente nos tempos atuais.

A sociedade está dividida em classes desde a sua formulação e antigamente acreditava-se que quem tinha mais riquezas não precisava trabalhar e deveria ser sustentado pelos miseráveis por determinação divina. Ou seja, os nobres tinham acesso à comida de forma abundante e qualidade de vida por estar no topo, portanto mais próximos aos deuses, sendo os mais abençoados. Enquanto isso os pobres eram castigados, estavam longe de qualquer divindade e deveriam trabalhar para sustentar aqueles mais abastados, para assim atingir a “salvação da alma”.

Em “O Poço” existe uma clara discussão sobre classes sociais, justiça e igualdade, como “o porquê de a comida ir diminuindo tanto a cada nível a ponto de não chegar no fundo” ou “é necessário dividir os recursos mais igualitariamente”. Umas das mensagens claras é a ganância presente no sistema em que vivemos. Outra maneira de ver o poço é com uma metáfora para o cristianismo, mostrando o topo como o céu, um lugar que todos querem alcançar, e o fundo como o inferno e um lugar cheio de pecados. Essa faz mais sentido ao se pensar que chegaram a trataram o protagonista com uma espécie de Messias.

Já sobre o final, essa é a parte que tem deixado os espectadores mais confusos, ele é aberto e deixa espaço para muitas interpretações. Uma delas é que na verdade nunca ouve uma menina, Goreng e seu companheiro morreram, a panna cotta voltou para o nível zero, mas as pessoas de cima acharam que ela não foi comida por causa do cabelo e não houve mensagem real no final. Outra pode ser que a pessoa só desenvolverá compaixão se passar por todos os níveis (sociais), assim a menina mostra que ao se salvar uma vida humana você traz a esperança de uma sociedade mais consciente e empática.

Foto: Divulgação

Veredito

“O Poço” não é um filme difícil de ser entendido. Tem uma mensagem bem clara, porém é inegável que ele tem várias camadas, trocadilhos a parte. É muito pessoal a forma de interpretação da trama, mas é inevitável refletir sobre.

As cenas são fortes, claustrofóbicas e violentas, não é uma produção fácil de ser assistida e espectadores com estômago devem consumir com moderação, fica aqui o aviso.  A paleta de cor suja é completamente coerente, além do vermelho, bastante usado, ser um bom complemento para a violência que permeia a história. O roteiro deixa um pouco a desejar, existem diálogos às vezes muito expositivos, além de pequenos furos, sem falar do final, que sendo muito aberto pode frustrar os espectadores.

Pontos positivos 

  • Metáforas bem feitas
  • Boa direção
  • Efeitos sonoros coerentes
  • Ótimas atuações

Pontos negativos

  • O terceiro ato fica um pouco solto, chegando a ser confuso
  • Alguns diálogos são expositivos demais

NOTA: 7,5