O Irlandês: uma grande biografia do mundo do crime

25/11/2019 - POSTADO POR EM Filmes

Que Martin Scorsese é um veterano responsável por uma série de marcos do cinema não é novidade. Entretanto, no lançamento de seu mais novo filme, “O Irlandês”, não foi o fato de o diretor acumular 12 indicações ao Oscar ao longo dos anos que chamou a atenção, e sim seus comentários polêmicos sobre o Universo Cinematográfico da Marvel que estamparam as manchetes. Se os filmes de super-heróis não são cinema, Scorsese parece indicar que sua nova produção, sim, se configura no alto padrão da arte cinematográfica. Será?

Conexões Poderosas

“Ouvi dizer que você pinta casas” é a frase que aparece no início do filme. Quem não conhece os bastidores da história pode achar que este seria o primeiro capítulo da trama, mas na realidade se trata do título do livro que deu origem ao longa. Robert De Niro, protagonista da produção, insistiu que a frase estivesse nas telas e assim foi. Na trama, ele interpreta Frank Sheeran, que, em um asilo, reconta sua trajetória de vida com a máfia.

Após voltar da Segunda Guerra Mundial, o jovem Frank entrega carnes em um frigorífico quando começa a desviar o produto para um chefe do crime. Logo ele conhece Russell Bufalino (Joe Pesci), líder da família de mafiosos da Pensilvânia e começa a realizar pequenas demandas sob seu comando. Assim, Frank vai ganhando espaço e se torna um nome cada vez maior na máfia, colocando a si e as pessoas a seu redor em risco.

Foto: Divulgação

Batalha de egos

Estar em um filme de Scorsese provavelmente é uma honra para qualquer ator. Tanto é que Anna Paquin disse exatamente isso quando questionada sobre ser a maior personagem feminina do filme e pronunciar apenas 7 palavras. Seja como for, a história contada tem como personagens centrais três homens, interpretados por DeNiro, Al Pacino, e Pesci – que notoriamente voltou atrás em sua aposentadoria somente para este papel.

Os três gigantes da atuação entregam trabalhos bastante competentes, sem exageros ou maneirismos forçados. Pacino interpreta Jimmy Hoffa, um poderoso sindicalista que financia várias ações da máfia. Com o tempo, as tensões entre os homens começam a se intensificar, ocasionando um conflito de interesses. Como a história atravessa décadas, a produção se utiliza de efeitos especiais para rejuvenescer ou envelhecer os personagens – e alcança bons resultados.

Foto: Divulgação

Criação de época

É bem claro que a Netflix não economizou dinheiro para o longa. É de conhecimento geral que a produção do filme ficou parada por alguns anos antes que algum estúdio aceitasse arcar com todas as despesas de um drama histórico multigeracional como este. É um filme longo, caro, e que não tem ação intergalática ou justiceiros em roupas de super-heróis. Mesmo com os nomes envolvidos, era um alto risco financeiro. 

Felizmente os moldes do streaming permitem que projetos como esse vejam a luz do dia, e “O Irlandês” esbanja uma recriação de época primorosa, sendo visível na tela que o largo orçamento foi bem utilizado. As inserções sonoras compostas de músicas da década de 60 se mostram eficientes em estabelecer o clima junto à uma edição que não cansa ao longo de 3 horas e meia.

Foto: Divulgação

Veredito

Em um artigo de opinião para o New York Times, Scorsese defendeu seu argumento de que os filmes da Marvel não são cinema, pois não oferecem risco ou reais surpresas narrativas e técnicas. Tudo acontece dentro de um universo controlado cuidadosamente fabricado para atingir as expectativas do público, alcançando e divertindo ao máximo possível de pessoas.

Entretanto ao assistir “O Irlandês”, um ponto a ser observado é de que os filmes do diretor também operam dentro de um mesmo universo de expectativas. É claro que Scorsese já se mostrou versátil o suficiente para fazer o que quiser a essa altura da carreira. Mas ao começarem os primeiros minutos de seu novo filme de gangsters, seu público fiel já sabe exatamente o que esperar – e é exatamente isso que ele entrega. Nem mais nem menos. Sem grandes surpresas, sem grandes riscos. Assim como a Marvel.

“O Irlandês” conta uma história real, sóbria, dirigida sem exibicionismo e com um primor de um cineasta experiente. O novo lançamento de Scorsese certamente não entra no panteão de suas melhores e mais profundas obras, mas, considerando o cinema como uma arte plural, é um grande exemplo da qualidade que esta vertente cinematográfica pode alcançar.

Pontos Positivos:

  • Direção controlada e eficiente
  • Atuações estudadas
  • Boa recriação de época
  • Efeitos visuais decentes reposicionam o mesmo elenco através das décadas

Pontos Negativos:

  • Roteiro não se apropria de todo o potencial da história

Nota: 9