O Farol: um salto para a loucura

15/01/2020 - POSTADO POR EM Filmes

Quatro anos após o aclamado “A Bruxa”, o diretor Robert Eggers nos oferece um novo longa de terror, dessa vez se utilizando de conceitos ainda mais abstratos e de uma estética típica dos primórdios do cinema. Nós conferimos o filme e dizemos aqui se vale a pena conferir esse novo horror psicológico.

Isolamento

Logo nos primeiros minutos de “O Farol”, você irá perceber que esse é um filme incômodo. A começar pelo fato de ser todo em preto e branco, ele ainda conta com uma proporção de tela de 1:19:1 (o que significa que possui um formato quadrado, diferente do mais panorâmico a que estamos acostumados) e se passa inteiramente em um único local, com apenas dois personagens.

Acompanhamos um par de faroleiros do início do século XX: Thomas Wake (Willem Dafoe) e Ephraim Winslow (Robert Pattinson). Ambos se veem isolados em uma ilha rochosa, a cabo de cuidar do farol local. Com o passar do tempo descobrimos um pouco mais sobre as personalidades dos protagonistas, seus motivos, medos e devaneios.

Foto: Divulgação

Venha para a luz

O longa foi concebido de maneira a incutir no espectador o mesmo sentimento de claustrofobia e isolamento que pairam sobre Thomas e Ephraim. Ambos são muito calados a princípio, demorando um tempo para que a relação entre eles possa se desenvolver. Acompanhamos mais de perto o personagem de Pattinson, que parece pouco se incomodar com essa espécie de exílio, mas que, devagar, vai mostrando sinais de que está sendo afetado. Uma dúvida que persiste é a de que não sabemos se o protagonista já tinha a mente instável antes ou se foi uma consequência da situação em que ele se encontra.

Thomas também tem suas esquisitices. Ele mostra um estranho apego à luz do farol e se recusa a deixar seu jovem companheiro ajudar a cuidar dela. Isso cria uma aura misteriosa em torno do fato, que é explorada posteriormente pela narrativa – porém sem chegar a conclusões claras. Apesar disso, a questão em torno da misteriosa luminescência e outros elementos sobrenaturais fazem a trama flertar com o terror cósmico, tendo claras inspirações nas obras de H. P. Lovecraft.

Porém, o que se entende do longa é que, mais do que explorar terrores sobrenaturais, ele se apega a uma condição humana que vaga em um ponto muito próximo da loucura. O isolamento, a falta de recursos e a bebida vão aos poucos consumindo o que há de são nos personagens, ao ponto do destino final que se encontra diante deles parecer o mais correto. 

Foto: Divulgação

Veredito

“O Farol” transita entre momentos de histeria e tensão, com outros de sonolenta monotonia. Bem produzido, ele consegue transpassar as sensações corretas de isolamento e sufocamento que atinge os personagens, ambos ricamente interpretados tanto por Pattinson como por Dafoe (que já possui uma natural expressão amedrontadora). A decisão do diretor de colocar o filme em preto e branco e com uma proporção diferente nos oferece uma experiência diferente ao qual estamos acostumados, então esse é um dos momentos para dizer que é algo melhor aproveitado se você for conferir no cinema.

Apesar desses méritos, Eggers entrega uma história mais lenta e que possui abstrações o suficiente para não agradar o espectador comum. A falta de clareza não chega a ser um problema, porém causa uma expectativa quanto a uma abordagem mais sobrenatural, que nunca chega. No lugar dela, porém,  nos deparamos com um horror psicológico sobre a loucura humana colocada em condições extremas.

Pontos Negativos

  • Narrativa lenta
  • Elementos demasiadamente abstratos

Pontos Positivos

  • Boas atuações
  • Aspecto técnico diferenciado e marcante
  • Retrato bem construído sobre a loucura

Nota: 8