O adeus de Mr. Robot

28/12/2019 - POSTADO POR EM Séries

“Mr Robot” chega ao fim após 4 temporadas de muitas dúvidas, teorias e apreensões entre o público. Muitas perguntas foram respondidas e outras ficaram em aberto, mas a série fechou a trajetória de Elliot (Rami Malek) como uma das melhores produções da televisão dos últimos anos. Confira nosso veredito sobre a temporada final!

Robin Hood moderno

Derrubar um sistema em que prevalecem grandes corporações comerciais sempre foi o mote de “Mr Robot”. Tentar equilibrar uma estrutura social desigual através de ciberataques era o papel da “Fsociety”, grupo hacker criado por Elliot e Darlene (Carly Chaikin) anos antes, mas desmembrado ao longo das temporadas.

Nesta reta final, tudo culmina na ofensiva contra o “Deus Group” que, como o nome já diz, controla as principais ações no mercado e influencia diretamente decisões políticas das maiores nações, ditando o rumo do mundo. Comandado por Whiterose (BD Wong), o grupo é o alvo de Darlene e Elliot para o seu “grande hack” sobre o 1% do 1% das pessoas mais poderosas do mundo. 

Para quebrar a pirâmide de privilégios, os irmãos tem poucos dias para parar a máquina de Whiterose, alter ego do ministro de segurança da China, Zhi Zhang. Em um território antes desconhecido pelo “povo comum”, a busca para achar uma brecha no “Deus Group” se desenrola – até de modo confuso – no entremeio da temporada.

Foto: Divulgação

Terra de ninguém

Um prazo de 48 horas até o ataque hacker ser realizado foi estabelecido no episódios iniciais, alavancando a emergência de Elliot e de Darlene em seu mirabolante projeto. O principal “problema” da temporada foi a falta de senso temporal sobre esse período, encaixando sub-tramas que dão a impressão de tomarem muito mais que 48h. Porém, esses episódios que intercalam o ato final são de extrema importância para entender e concluir arcos de alguns personagens posteriormente.

Alguns episódios têm abordagens diferentes quanto ao estilo de direção, transitando entre suspense, drama, romance, roubo, terror e até mesmo em uma vibe natalina, tudo sem perder a essência da trama. Isso mostra o controle que Sam Esmail tem de sua história, sendo capaz de variar os gêneros cinematográficos mantendo a qualidade da produção. 

Porém, o intervalo entre certos ganchos narrativos lançados no começo da temporada, que seriam fundamentais em sua reta final, foi muito grande, gerando esquecimento entre os próximos passos dos personagens, ocupados com enredos alternativos. Embora esse espaço interno seja preenchido com tramas interessantes e executadas com excelência em seu foco próprio, o objetivo inicial de Elliot e de Darlene para a conclusão do hack pode ser perdido nesse trâmite. 

Foto: Divulgação

O equilíbrio de Elliot

“A palavra-chave para esta temporada é integração. Elliot começa a perceber que há muito do que ele é no Mr. Robot e vice-versa. Os dois então começam a trabalhar juntos. Nós temos uma psicóloga como consultora na sala de roteiro e seguimos o modelo de como pessoas com transtorno dissociativo são tratadas”, revelou o criador Sam Esmail à revista Vulture antes do lançamento da temporada final.

Rami Malek, mais uma vez indicado do Globo de Ouro pelo papel, transparece o conflito interno de Elliot contra seus próprios ideais com maestria, dando a impressão que o personagem está prestes a ter uma crise de ansiedade e entrar em colapso a qualquer momento. No 7º episódio, os motivos do transtorno de personalidade de Elliot são finalmente explicados. Ambientado em um único espaço, Sam Esmail eleva o patamar da série pelo modo como desenvolve, em 5 atos, o epicentro da narrativa, que poderia ser um filme sensacional.

Darlene tem um papel fundamental no processo de autodescobrimento de seu irmão, demandando uma carga dramática que Carly Chaikin sustenta muito bem, principalmente quando contracena com Dominique (Grace Gummer, filha de Meryl Streep), uma agente do FBI refém do “Dark Army”, braço do “Deus Group”.

Foto: Divulgação

Veredito

“Como tirar uma máscara quando ela deixa de ser uma máscara?”. A frase dita pelo protagonista pode muito bem resumir toda a série, mas nessa temporada entendemos a profundidade de seu contexto. O senso de justiça em meio ao caos interno sempre prevaleceu em Elliot, impulsionado pela raiva contida ao longo dos anos, tanto por problemas pessoais quanto por desigualdades sociais. Desta vez, ele consegue balancear a persona de Mr. Robot para usá-la não como uma bengala, como no passado, mas como um braço a mais para ajudá-lo em sua luta.

Na base de dados audiovisuais do IMDb, somente 3 episódios de séries atingiram a nota máxima (10) pelos usuários. Um deles é da última temporada de “Mr Robot”: o nº 7 (Proxy Authentication Required). Os outros capítulos condecorados são “Hero” de “Attack on Titan” e “Ozymandias” de “Breaking Bad”.

“Mr. Robot” alcançou seu pico na última temporada após uma 3ª já de alto nível, concluindo o arco de Elliot de maneira perfeita. As críticas à um sistema socioeconômico injusto se mantêm pelos 4 anos, aliadas a um ritmo dinâmico da história, sempre aproximando o espectador de uma realidade tão próxima. O público da série pode até ficar triste pelo seu final, mas não insatisfeito pelo modo como ela terminou. 2019 chega ao seu fim e com ele a década de 2010, na qual séries históricas também terminaram. Agora, “Mr. Robot” está entre elas.

Pontos fortes:

  • Desenvolvimento de expectativa ao longo da temporada
  • Variação de ritmo/estilo de direção ao longo dos episódios, aumentando a dinâmica sem perder qualidade
  • Fechamento do arco de Elliot muito satisfatório

Pontos fracos:

  • Confusão entre o foco da trama no entremeio da temporada
  • Conclusão incerta de alguns personagens

Nota: 9,5