Nós: O terror refletido no próprio eu

21/03/2019 - POSTADO POR EM Filmes
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Depois do sucesso de “Corra!” (2017) ter garantido a Jordan Peele o Oscar de Melhor Roteiro Original de 2018, o diretor entrou imediatamente no radar dos críticos ao redor mundo e é claro que a sua próxima produção iria gerar altas expectativas. “Nós”, seu novo filme, estreou com a ambição de mostrar que Peele tem potencial para figurar entre os maiores nomes do cinema, junto de Spielberg, Tarantino e outros. Te contamos nessa resenha se ele conseguiu.

Reflexo conturbado

A trama de “Nós” é centrada em uma típica família americana saindo de férias para sua casa de veraneio, na praia. A mãe, Adelaide (Lupita Nyong’o), está receosa em ficar no local devido a alguns traumas de seu passado, mas é convencida pela clara animação do marido Gabe (Winston Duke) e para não cortar o entretenimento dos filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).

Tudo ia relativamente bem, eles encontraram com um casal de amigos e suas filhas na praia e depois voltaram para casa. Naquela noite as coisas começam a se complicar, repentinamente surge uma misteriosa família, que ronda a propriedade e passa a ameaçá-los. Mas a maior surpresa acontece quando a residência é invadida: Adelaide e os outros se dão conta de que os estranhos são exatamente iguais a eles.

Foto: Divulgação

Como sobreviver a si mesmo

“Nós” assim como “Corra!” consegue criar um ambiente de tensão e insegurança antes mesmo de mostrar o real perigo, principalmente pela personalidade levemente paranoica de Adelaide. Ela segue um tanto aérea no início e se prende a pequenos detalhes que parecem irrelevantes, mas que a deixam cada vez mais nervosa.

Apesar de o longa ser sobre a família, a personagem de Lupita claramente é um destaque. Sua atuação beira a loucura por diversas vezes e as nuances que a atriz consegue trazer tanto para a protagonista como para sua metade refletida são dignas de aplauso. Quanto ao pai, ele é responsável por grande parte dos alívios cômicos do longa, que usa o humor de maneira muito acertada, quebrando a tensão, sem te desconectar da história.

As crianças também têm sua devida importância no andamento da trama, sendo o principal impulsionador para as atitudes protetoras da mãe ao mesmo tempo que sabem se colocar em posição de combate quando é necessário. A outra família que aparece no longa desempenha um papel menor, com uma boa cena envolvendo música e violência, seguindo com as pitadas cômicas durante momentos mais pesados.

Foto: Divulgação

Perseguição e loucura

Toda a construção narrativa do filme baseia-se na tensão e no constante sentimento de insegurança. A partir do momento que aqueles estranhos, que mais se parecem com reflexos distorcidos em um espelho, invadem a casa, a família não terá mais paz. A vida dos quatro torna-se uma caçada, e se os seus perseguidores se parecem com você e sabem como age, será que pode existir escapatória? O longa foca em passar a mensagem que nós somos o nosso próprio inimigo, o que só exacerba a sensação de claustrofobia.

Outro aspecto explorado é a mente humana e seus limites. A já comentada paranoia de Adelaide é um dos pilares de sua personalidade e ela rapidamente torna-se a mais afetada pela presença das cópias. Ao longo da narrativa a mãe vai crescendo o seu instinto de sobrevivência, ao mesmo tempo que parece ceder um pouco à loucura.

Essa trama tem relação com o final do filme e a jornada que foi planejada para a personagem – o que não vou comentar aqui por motivos de spoilers. A reviravolta que acontece de maneira muito tímida nos últimos minutos da produção te faz revisitar tudo o que você assistiu até agora com outros olhos. Uma excelente maneira de encerrar o longa e deixar a história na sua cabeça por muito tempo depois de ter saído da sala de cinema.

Foto: Divulgação

Veredito

Jordan Peele acertou mais uma vez, o diretor conseguiu entregar uma produção intrigante, com personagens repletos de nuances e uma trama bem amarrada. A comédia conseguiu ser inserida de maneira natural durante as cenas, sem causar a sensação de que não se encaixa no momento. Os alívios cômicos combinam com a história contada e dão ainda mais peso para as cenas de horror.

O desempenho dos atores foi essencial para deixar o filme marcante, com o destaque maior para a perturbada Adelaide de Lupita. Porém os outros protagonistas também trazem um peso às suas atuações, o que só é reforçado pelo trabalho macabro de construir suas versões duplicadas e completamente divergentes. A trilha instrumental apresentada no trailer está de volta no filme e serve para dar um toque ainda mais angustiante às cenas de suspense. No geral, “Nós” é mais um excelente trabalho desse diretor que está a caminho de abrir as portas para um novo tipo de terror conquistar o grande público.

Foto: Divulgação