Nasce Uma Estrela: Um Olhar Contemporâneo

05/02/2019 - POSTADO POR EM Filmes
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Se há um projeto clássico em Hollywood é o longa “Nasce uma Estrela”. Sua primeira versão data de mais de 80 anos atrás, em 1937, tendo sido premiada com o Oscar de Melhor Roteiro Original. Três refilmagens depois, Bradley Cooper finalmente conseguiu tirar do papel o projeto que quase chegou a ser feito com Beyoncé e Leonardo DiCaprio nos papéis principais. Encontrando sua estrela em Lady Gaga, o filme angariou 8 indicações ao Oscar de 2019 e mais uma vez emocionou o público mundial. De onde vem a força dessa história?

De volta às raízes

À essa altura, a trama é convencional: um artista masculino veterano conhece uma jovem sonhadora com potencial. Ele investe no talento dela à medida que se apaixonam, e enquanto a carreira de um deles ascende o outro entra em uma espiral de problemas. Os ramos de arte já variaram entre cinema, teatro, e aqui são mais uma vez focados na música, com Jack (Cooper) sendo um cantor de country/rock e Ally (Gaga) uma compositora promissora.

Aqui a música assume um tom mais roots, com guitarras e baterias bastante presentes. Há quem diga que esse seja um filme ideal na era Trump, em que um casal branco se apaixona viajando pelo interior dos Estados Unidos embalados pelas planícies e a música country. Esse é um fator que pode minar as chances do longa no Oscar, visto que talvez esse não seja o tipo de filme que a Academia queira reconhecer no momento.

As luzes do show

A execução do longa é acertada e constrói bons momentos. As melhores cenas envolvem música e as sequências dos shows são um sucesso. A abordagem de colocar os atores diante de um público real (algumas cenas foram gravadas no festival Coachella) e de fazer com que Bradley e Gaga cantassem ao vivo traz ótimos resultados – e contrasta com a produção mais “fabricada” de outro filme musicado do ano, “Bohemian Rhapsody”.

Um grande destaque da produção vai para o diretor de fotografia Matthew Libatique, que já havia sido indicado ao Oscar por “Cisne Negro” (2010). Aqui, a técnica empregada do uso das cores acrescenta um olhar bastante cinematográfico à película, com fortes tons avermelhados e esverdeados reluzindo no rosto dos personagens que se apaixonam sob a luz dos holofotes.

Harmonia

Por mais que as atuações sejam decentes à sua maneira, elas pecam no nível fundamental do filme: vender um romance verdadeiro entre os protagonistas. Gaga é uma excelente performer, o que faz com que ela brilhe nas cenas do palco, mas suas habilidades como atriz ainda tem um bom caminho a ser percorrido. Talvez por isso, inclusive, o filme entregue poucos diálogos expressivos para a artista.

Cooper, por sua vez, é um ator experiente e que mergulha na construção de Jack, trazendo um retrato autêntico de um alcoolista – além de ter aprendido a tocar e cantar para o filme. Mas ao construir a individualidade de seus personagens a paixão entre eles acaba em segundo plano, não possuindo todas as faíscas necessárias para um engajamento maior do público.

Veredito

Por trás de todas as luzes do showbusiness, “Nasce Uma Estrela” tem em seu núcleo uma história comprovadamente efetiva, tanto que é a quarta vez que ela é refeita. E ainda sim, seu poder não é diluído. É refrescante ver Gaga de cara limpa, sem a maquiagem e a produção a que estamos acostumados. O número final de Ally, reminiscente dos clássicos de Whitney Houston e Celine Dion, atesta que, de fato, uma estrela nasceu.

Como diretor estreante, Cooper faz um trabalho decente em um projeto grande como este. Seu filme angariou 8 indicações ao Oscar – ainda que não tenha sido lembrado na categoria de direção. Alguns contos são atemporais, e quando embalados por boa música e uma visão especial, são ainda melhores.