Michael Jackson: Precisamos falar sobre Deixando Neverland

01/04/2019 - POSTADO POR and EM Filmes E Séries
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Muitos boatos se escutaram nos anos 1990 sobre a vida de Michael Jackson. Neste ano completam-se 10 anos da morte do rei da música pop, além de ter sido lançado um documentário produzido e distribuído pela HBO contando os supostos abusos sofridos por duas vítimas, Wade Robson e James Safechuck. Assistimos “Deixando Neverland” (2019), e definitivamente precisamos falar sobre isso.

Sinopse

Wade e James eram garotos normais, crianças de famílias comuns, até que seus caminhos se cruzaram com o de Michael Jackson, possivelmente o maior artista do mundo na época. Sentindo-se extremamente afortunados por estarem em contato com uma pessoa tão famosa, seus pais e familiares não perceberam que a amizade entre os meninos e o rei do pop potencialmente ocultava um terrível segredo: o abuso sexual dos menores.

Hoje adultos, Wade e James relatam em detalhes os abusos que alegam ter sofrido durante a infância por Michael Jackson. Robson é um australiano que conheceu Michael durante uma turnê do astro no país. Por ser um grande fã e saber dançar muito bem suas músicas, o garoto chamou atenção da mídia e de Jackson no fim dos anos 1980. Ele eventualmente se tornou coreógrafo de nomes como Britney Spears e do grupo N’Sync. Safechuck é o menino que aparece surpreso ao conhecer o astro em um comercial de um famoso refrigerante em 1987.

Repercussão

O documentário foi lançado primeiro nos Estados Unidos, onde gerou uma grande discussão. Uns alegam ser inútil revirar o túmulo do popstar, já que Michael morreu em 2009 e não seria possível interrogá-lo. Outros admiram Wade e James por sua coragem, enquanto outros acusam-os de estarem apenas atrás de dinheiro. Algumas rádios desistiram de tocar músicas do astro, justamente pela polêmica, gerando um grande impasse: “seria possível dissociar o talento e a vida pessoal?”.

A família Jackson, como de costume, considera todo o caso como calúnia e difamação, e prometeu processar a HBO. Alguns amigos de Michael continuam negando veementemente terem sido abusados pelo astro, mesmo tendo sido citado pelos rapazes no documentário, como é o caso de Macaulay Culkin e Brett Barnes. Macaulay o defendeu no tribunal em 2005, onde os advogados de Michael admitiram que ele dormia na mesma cama que os meninos, mas que nunca houve nada sexual ali. Na época Wade também testemunhou a seu favor, mas hoje mudou seu posicionamento.

Foto: Divulgação

Outros Tempos

Na década de 1990, o impacto que a efervescente cultura pop causava sobre as pessoas era maciço. Num mundo ainda não tão consciente sobre suas celebridades, um nome como Michael Jackson possuía um status tão grande que era como se o homem fosse um deus, intocável por qualquer mal falatório. Ainda mais sendo alguém tão preocupado em ajudar crianças em situações de vulnerabilidade e com uma “alma infantil” a ponto de criar seu próprio parque de diversões em um rancho com a temática do Peter Pan.

Cortemos para 2019. É uma outra era na indústria do entretenimento e na forma que o público lida e enxerga os artistas. Movimentos como o #MeToo trouxeram atenção para os casos de assédio que acontecem no meio do entretenimento, e hoje uma piada infame pode causar a demissão de grandes nomes ligados a um projeto. Na atual conjuntura, ninguém está seguro e qualquer astro pode cair, o que pode ter proporcionado que um documentário como esse fosse lançado por uma importante rede de televisão.

Foto: Divulgação

Reflexões

Algo comum no meio da internet é “cancelar” determinado artista quando este é apontado como alguém de comportamento tóxico. Por mais que o conteúdo do documentário seja impactante, essa não parece ser sua proposta. Seria o mundo capaz de ao menos tentar “cancelar” Michael Jackson e seu legado? Provavelmente não. Apesar de cimentado como um ícone da cultura pop e o maior artista de sua geração, o seu lado humano nunca pareceu ser o mais são. Michael hoje é um epítome do paradoxo de dissociação do talento e da vida pessoal.

Será possível continuar ouvindo a música marcante do artista fechando os olhos para as vidas e famílias possivelmente arruinadas pelo homem? Para alguns sim. Para outros não. Seja como for, “Deixando Neverland” é uma produção extremamente importante ao apresentar um caso tão desafiador para que o espectador faça sua própria análise.

Foto: Divulgação

Veredito

Os relatos são feitos em primeira pessoa, com riqueza de detalhes, além de contar com a participação de familiares das supostas vítimas. O documentário está dividido em duas partes de duas horas de duração, contando com fotos, gravações, telegramas e cartas de Michael, que comprovam sua relação com aquelas famílias.

É impossível se sentir indiferente aos relatos. A atmosfera criada para que a história fosse contada permite que o espectador se sinta imerso e procure saber mais sobre. Em alguns momentos é impossível não se chocar, já que por mais que se tente não se colocar no lugar dos protagonistas em uma situação tão exposta, sempre somos induzidos a ter alguma opinião formada por se tratar de acontecimentos bizarros. (#Rebeca)

É difícil não acreditar nos relatos de Wade e James, e difícil não sentir o peso do contraste entre as imagens apresentadas de fãs que protestavam cega e fervorosamente nas ruas em defesa de seu amado artista, sem nunca o terem conhecido, enquanto meninos que estiveram à sós com o homem entre quatro paredes alegam coisas terríveis. Na “Terra do Nunca” a infância de algumas crianças pode ter sido roubada, deixando para trás feridas e dúvidas que talvez jamais desapareçam. (#Henrique)

Foto: Divulgação