Me Chame Pelo Seu Nome e saiba quem você é

22/02/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Praticamente todo jovem que se descobre gay passa por uma experiência de revelação marcante. Seja no primeiro contato com um objeto de desejo ou na solidão de seu quarto pelo imaginário da atração, nenhuma história é igual ou pode se comparar à outra. Em “Me Chame Pelo Seu Nome”, conhecemos Elio e Oliver, que juntos reconhecem sob o olhar do outro suas próprias fantasias antes ocultas, as expectativas naturais que vêm do amor e até suas maiores fraquezas.

Transcrevendo músicas alheias

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Elio (Timothée Chalamet) é um jovem de 17 anos que passa o verão em sua casa, localizada em algum lugar do norte da Itália, esperando chegar o inverno. Ele vive com os pais e os empregados do campo copiando partituras de mestres da música clássica, ouvindo outras com fones de ouvido, tomando banho no rio a uma curta viagem de bicicleta dali e eventualmente saindo a festas com os amigos. Seu pai, o sr. Perlman, é um professor especialista em cultura greco-romana que recebe com certa frequência estudantes acadêmicos de outros países para passarem uma temporada hospedados na casa, auxiliando-o em suas pesquisas.

Chega o usurpador

Foto: Sony Pictures/Divulgação

É nesse contexto que entra em cena o atraente Oliver (Armie Hammer), um jovem americano na faixa dos seus vinte e poucos anos que vem tirar não só o quarto de Elio, mas também sua paz de espírito. Embora não conhecemos os outros hóspedes a quem a família de Elio abriu as portas anteriormente, tomamos conhecimento de que Oliver é diferente de todos: a começar pela curiosidade e facilidade em conhecer os locais da pequena cidade do interior. Ele também foi o primeiro a querer abrir uma conta no banco local, e justamente por isso começa uma relação ambígua entre Oliver e Elio.

O garoto, muito educado e solícito, oferece companhia para mostrar a cidade em um passeio de bicicleta. Oliver não fica para trás: é atlético, veste-se à vontade de acordo com a estação e não hesita em corrigir o próprio professor na frente do filho e da esposa quando discutem sobre a origem das palavras latinas. A boa hospitalidade e a disposição que Elio se vê obrigado a demonstrar só contribuem para que o americano se sinta mais à vontade ainda a cada dia que passa.

Atração disfarçada de agressividade

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Pelo próprio comportamento de Oliver, e diante da estima que os pais reservam ao estrangeiro, Elio se vê revoltado pela simples presença do outro, e acaba deixando falar mais alto a voz aborrecente que esconde, na realidade, uma atração sexual pelo homem.

“Me Chame Pelo Seu Nome”, porém, é um longa de descobertas, mas não fica concentrado na construção do relacionamento entre os protagonistas. Claramente voltado para o crescimento de Elio, é com ele que o espectador fica até o fim. A câmera o persegue a cada movimento, até mesmo na intimidade de seu quarto emprestado, quando o jovem entra para fuçar nas roupas de Oliver, às escondidas. Ao mesmo tempo, quando se vê frustrado pelo aparente desprezo do convidado especial, Elio vai em busca da sua própria identidade, quando investe as primeiras experiências sexuais em uma amiga que o visita ocasionalmente.

Respostas não imediatas

Foto: Sony Pictures/Divulgação

O filme inteiro constrói uma ambientação extremamente favorável ao interesse dos dois personagens entre si. O clima quente da fotografia e a própria rotina sem muito compromisso tanto de Elio, que está de férias, quanto de Oliver, que aproveita ao máximo o trabalho motivado pelas buscas arqueológicas, parecem conduzir a uma faísca inevitável de desejo. Talvez a maior falha da produção esteja no ritmo em que o diretor Luca Guadagnino conduz essa aproximação. O script não demora a começar, já que a primeira cena mostra justamente a chegada de Oliver na casa, mas 2 horas e 12 minutos de película tornam-se excessivos para mostrar o que deve.

E o enredo acaba não mostrando tanto assim. Afinal de contas, a trama se passa nos anos 1980, e até quando Elio e Oliver estão a sós, seja na cidade ou escondidos no rio, as manifestações de carinho entre um casal homossexual naquela época eram veladas pelo próprio receio das duas partes. A maior exposição fica guardada no comportamento sugestivo, mais do que no explícito.

A natureza de cada um

Foto: Sony Pictures/Divulgação

Da segunda metade ao final, a narrativa assume um tom mais sério, e nos prova que nem toda história romântica precisa acabar com um final feliz, desde que aquele estágio traga um aprendizado. Para alguma parte da audiência, as apostas geradas pela emoção podem não ser cumpridas, mas o maior tesouro desse longa-metragem está especialmente na maneira como os pais de Elio lidam com o florescimento do filho.

As duas sequências mais bonitas de “Me Chame Pelo Seu Nome”, surpreendentemente, não são protagonizadas pelo casal principal, mas sim pelo silêncio da mãe do garoto, quando vai buscá-lo no carro depois de um passeio mal sucedido, e pela lição de moral do pai quando revela a maior prova de amor possível. Além de contar sobretudo a trajetória de dois personagens que já viviam em épocas diferentes da vida — pois também não deixa de lado a perspectiva de Oliver —, o filme transmite uma importante mensagem sobre amadurecimento, autoconhecimento e aceitação.