Quatro livros de ficção para entender 2017

07/09/2017 - POSTADO POR EM HQs/Livros
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O cenário é o seguinte: as pessoas estão totalmente controladas, não se pode confiar no Estado nem nas figuras de poder. Para piorar, você acha que há algo de errado, mas ninguém dá a mínima. Poderia ser o Brasil durante o ano de 2017, mas é apenas um livro de ficção (#George). Aldous Huxley, Ray Bradbury, Isaac Asimov e Phillip K. Dick, mestres do que se convencionou chamar “literatura de ficção científica”, escreveram sobre mundos extraordinários onde o indivíduo perde-se em meio ao coletivo e as forças da política e história nos levam a absurdos golpes de estado, passando por manipulações das massas e realidades virtuais.

O Roteiro Nerd selecionou 1 livro de cada autor. Por isso, forme um grupo sólido, leia-os em segredo (cuidado com o smartphone, ele pode estar te espionando) e tente não cair nas armadilhas que prepararam para você. Não confie em ninguém, mas confie em alguém. Você está entrando em um admirável mundo, tão antigo quanto a humanidade.

Admirável Mundo Novo

A catuaba é barata, você encontra em qualquer lugar. Com a Netflix você pode viver outras vidas e pode sentir que ela te ama. Ela responde seus comentários no Facebook, ela te curte. E, é claro, quando você passeia pela cidade, pode optar por comprar uma bike fixa e também os equipamentos, uma squeeze com o desenho do Sherlock, talvez um capacete. O que importa é que você tem que se equipar! Em “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley, somos apresentados a um mundo assim, onde temos um Cinema Sensorial no qual podemos sentir o que vemos e temos a Soma, droga que nos alivia do peso do mundo real.

Na obra, Huxley nos mostra uma sociedade controlada pelo hedonismo, pelo senso de coletividade cego (que não nos iguala), pela alienação total do sujeito. Os sujeitos na obra estão tão imersos em distrações que não percebem as amarras do sistema. Em realidade, o sistema não é cruel, mas é bom demais (#George). A ordem é mantida desde o nascimento do indivíduo até o momento de sua morte. O título parece ter sido escrito para o futuro (dizem ser a contraparte de “1984”, de George Orwell, que mostra um mundo dominado pelo ódio): ninguém aguenta esperar por respostas, vive-se de modo instantâneo. Exatamente como hoje.

Foto: Divulgação

Fahrenheit 451

“Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, conta a história de Guy Montag, bombeiro em um mundo onde os “soldados do fogo” queimam livros – numa atitude completamente oposta à de salvar vidas e apagar incêndios. Os livros, na obra, são a fonte de conhecimento perigoso. O governo afirma que a leitura de romances seja subversiva, pois pode desencadear ideias de revolução no povo. Cabe aos bombeiros destruir qualquer obra literária que lhes cair à vista. As casas são à prova de fogo, as televisões são onipresentes (e falsamente interativas) e existem técnicos que limpam o corpo de pessoas deprimidas das substâncias que ingerem para morrer.

A leitura é puramente técnica, lê-se bulas de remédios, receitas de tortas. A sociedade vive em um espetáculo. “Fahrenheit 451” aponta para o perigo do senso comum, onde, segundo o governo, a censura parte principalmente das minorias “os negros não gostam de ‘Little Black Sambo’… os brancos não se sentem bem em relação à ‘Cabana do Pai Tomás’. Queime-os”, aponta para o mundo através das telas – onde tudo é espetáculo, até mesmo uma simples perseguição policial pode se tornar um programa imperdível. Ler a obra de Bradbury é perceber o que ameaça o presente: as possibilidades negativas da imagem técnica, a crise em nossos sistemas de comunicação e o afastamento da humanidade em relação ao outro (#George).

Foto: Divulgação

Realidades Adaptadas

Você não sente a sensação de estar sendo observado? O Estado quer se livrar de você, ou melhor, talvez você nem seja quem pensa que é. Você gosta mesmo dessa blusa que usa, ou alguém te disse para gostar? Phillip K. Dick é o REI da paranoia. No livro “Realidades Adaptadas” (2012), editado pela Aleph, temos contos que inspiraram diversos filmes. “O Relatório minoritário” é um deles.

Seguimos a história do comissário de polícia John Anderton, que comanda a base de operações Pré-Crime, totalmente orientada para deter ocorrências criminais ANTES que elas ocorram – punindo assassinos em potencial. A vida de Anderton está boa, até o momento em que suas unidades preveem que ele irá cometer um assassinato. Intrigas com o exército, situações absurdas e muita ação (não à toa esse conto deu origem ao “Minority Report”, com o Tom Cruise) levam a história até um final surpreendente. Em época de “Mr. Robot” e “Black Mirror”, é sempre bom lembrar que o mundo da ficção há muito tempo nos faz desconfiar da realidade, não só em uma esfera metafísica, mas política (#George).

Foto: Divulgação

Fundação

Isaac Asimov escreveu sobre a relação Homem-Máquina de maneira tão apaixonada que é quase impossível separá-lo de seus robôs em “Eu, Robô” e outras obras. Mas foi com a trilogia da “Fundação” (1942-1993) que o escritor apontou para o nosso problema. Homem versus tecnologia. Após a queda de um imenso Império Galáctico prevista por Hari Seldon, ilustre psico-historiador (uma mistura de cientista político, sociólogo, matemático e psicólogo), cabe à Fundação garantir que a galáxia não caia em total barbárie.

De vila científica, a Fundação torna-se Estado. A partir de suas tecnologias atômicas, cria uma nova religião pela galáxia, a religião da ciência. Golpes de Estado são dados para “assegurar o progresso”, relações mercantis são estabelecidas com o intuito garantir a soberania da sociedade científica sobre o mundo bárbaro, a maré do poder vai e vem, mostrando como as massas podem reagir diante da História (ou ainda, como elas não reagem).  Asimov aponta os vícios do poder, a idolatria patética de nossas máquinas, o modo como a realidade é rizomática e cartesiana ao mesmo tempo. Apesar de complexo, certamente uma leitura que nos ajudará a decodificar o ano de 2017.

Foto: Divulgação