La Casa de Papel – Parte 4: A farofa queimou?

14/04/2020 - POSTADO POR EM Séries

De fracasso na TV espanhola à sensação da Netflix a partir de 2018, “La Casa de Papel” virou símbolo de resistência e de força em manifestações políticas, músicas e até em torcidas de futebol ao redor do mundo. A aguardada 4ª parte da série chegou ao streaming na última semana e, com ela, a excitação pela maratona em tempos de isolamento social.

Será que a produção manteve a qualidade e a capacidade de nos manter pregados na tela? Confira nosso veredito abaixo!

ATENÇÃO, ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS DA SÉRIE “LA CASA DE PAPEL”.

Quebra de expectativas

A estrutura básica de “La Casa de Papel” se sustenta sempre em uma coisa: a reviravolta. Ao fim da 3ª parte, foram duas praticamente ao mesmo tempo. Nairóbi (Alba Flores) baleada e Lisboa (Itziar Ituño) capturada. Um Professor (Álvaro Morte) abalado como nunca o vimos e o grupo no Banco da Espanha desesperado por uma possível baixa. 

Pois bem, a 4ª parte – pelo menos no começo – deixa um pouco do twist atrás do twist de lado para focar na resolução de problemas pessoais de cada um dos envolvidos no assalto e do grupo em geral, para assim voltar ao plano inicial. Um intervalo longo – cerca de 3 episódios – e que, aliado a cada vez mais flashbacks de Berlim (Pedro Alonso), enrola demais a trama e perde totalmente o ritmo com o qual estamos acostumados na série. 

Foto: Divulgação

O Coringa

Com o crescimento da tensão dentro da Casa da Moeda, a liderança imposta à Palermo (Martín Berrote) é desafiada e logo substituída pela sempre impulsiva Tóquio (Úrsula Corberó). A mudança no comando levou ao ponto de virada mais sem fundamento da série até o momento: Palermo preso junto aos reféns por medo de “atrapalhar” o andamento do assalto após ser desligado de sua posição. 

Uma quebra no plano que renderia à esta temporada mais 3 episódios de fôlego através de um personagem coringa. Gandia (José Manuel Poga), chefe de segurança do Banco, é a peça escolhida para Palermo movimentar e causar, livre e conhecendo o local como ninguém, caos aos seus colegas. Uma ideia no mínimo extremamente arriscada vinda de alguém tão apaixonado pelo plano inicial. Difícil de acreditar. 

Gandia, enfim, interrompe atritos amorosos desnecessários entre Denver (Jaime Lorente) e Rio (Miguel Herrán) e o começo de algo entre a já recuperada Nairóbi e Bogotá (Hovik Keuchkerian). Ao melhor estilo “Duro de Matar”, o segurança brinca de gato e rato com os assaltantes durante 3 episódios, que servem para mudarmos o foco dessa vez para o desafio do Professor do lado de fora. 

Foto: Divulgação

O Plano Paris

A melhor adição da série na Parte 3 continua roubando a cena aqui. Alicia Sierra (Najwa Nimri) se tornou a rival intelectual do Professor e, agora com sua companheira como refém, está na dianteira. Sem receio das consequências de suas ações contra os criminosos, a inspetora é o embate perfeito para Lisboa, que antes estava na mesma posição da grávida, agora durante as negociações da Casa da Moeda. 

Enquanto tenta administrar a crise interna de seus pupilos, o Professor trabalha para garantir a liberdade de Lisboa ao mesmo tempo que aposta em expor à imprensa os métodos de tortura em Rio na temporada passada, feitos pelos investigadores. Além disso, dá partida no desconhecido Plano Paris como cartada final. 

São tantos elementos em consonância durante um período de tempo tão curto que fica difícil crer que algum dos mirabolantes movimentos do Professor vai funcionar em um cenário de tanta pressão. Mas, claro, ele dá um jeito de cumprir todos os seus objetivos traçados em algumas horas. 

Foto: Divulgação

O melhor mártir possível

Sem dúvida, o momento mais marcante (e polêmico) desta temporada foi ao fim do 6° capítulo: o assassinato de Nairóbi, recuperada depois de tanto esforço conjunto.  Já Gandia foi de personagem terciário a símbolo de ranço, tanto para seus oponentes quanto para os espectadores da série. Alguns, inclusive, afirmaram que a série perdeu o rumo a partir desse ponto (alô, Anitta!). 

A morte de Nairóbi, que ganhou ares de protagonista durante todos esses anos como símbolo de força e de liderança, virou combustível para seus companheiros e para os roteiristas. A vingança pelo seu cruel assassinato será impulso para o plano seguir firme até o fim, como maneira de honrá-la.

Porém, enquanto no Banco comemoram a sucedida inclusão de mais uma integrante ao grupo com a chegada de Lisboa através do ousado Plano Paris, o Professor precisa enfrentar cara a cara sua pior inimiga: uma inspetora Sierra raivosa por sua imagem publicamente manchada. 

Foto: Divulgação

Veredito

“La Casa de Papel” manteve o nível técnico atingido na última parte com o incremento do investimento da Netflix. Para quem quiser entender melhor todo o processo de produção – tão desafiador quanto os próprios planos da série -, vale conferir o documentário “La Casa de Papel: o Fenômeno”, também na plataforma de streaming. 

Nele, descobrimos que o roteiro da série é feito ao longo das gravações, um método ousado mas que explica o ritmo frenético da história, sempre com o tom de emergência em ascensão. 

Os dois últimos episódios desta parte mostraram o cerne do fenômeno que os atracadores viraram. Sem enrolação, direto à ação. Muito diferentes dos decepcionantes primeiros capítulos da 4ª parte. Aqui, a impressão é de que apenas Estocolmo (Mónica Gaztambide) e Palermo ganham mais desenvolvimento, sendo este último por meio de flashbacks com Berlim. 

A 5ª temporada promete o tão esperado fim do assalto após o ano mais fraco da série em questão de história. As dúvidas que ficam são: como o Professor vai escapar de Sierra e como o grupo será atingido por isso dentro do Banco da Espanha? Por mais novelesco que tenha se tornado, “La Casa de Papel” assumiu o posto que possui hoje justamente por isso: pelos twists mais impossíveis que se possa imaginar. É o que torna essa farofa tão boa. 

Pontos positivos:

  • Nível técnico aumentou

Pontos negativos:

  • Novos romances desnecessários
  • Ritmo fraco durante ⅔ da temporada
  • Pouco desenvolvimento de personagens

NOTA: 6,5