Infiltrado na Klan: Representatividade Importa

23/02/2019 - POSTADO POR EM Filmes
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Não é de hoje que o Oscar tem dado maior visibilidade para filmes com a temática da luta negra como foco. Seja da maneira mais sutil ou poética, como em “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (2016), vencedor do prêmio máximo em 2017, seja da forma mais assustadoramente sinistra possível, como no caso de “Corra!” (2017), que levou a estatueta de Melhor Roteiro Original em 2018. As acusações de #OscarsSoWhite parecem estar surtindo efeito.

Neste ano, mais do que nunca, destacam-se longas como “Pantera Negra”, primeiro filme de super herói a concorrer à categoria principal e “Green Book: O Guia”, que retrata o separatismo norte-americano dos anos 1960 sob a ótica de dois amigos de origens e etnias diferentes. Estamos aqui, no entanto, para falar um pouco de “Infiltrado na Klan”, filme que parece mais leve ou engraçado no seu desenvolvimento, mas que veicula uma história tão massacrante quanto as experiências dos negros.

De amor e fúria

Em pleno fervor do final da década de 1970, um jovem recém admitido na divisão de inteligência da Polícia de Colorado, nos Estados Unidos, faz uma ligação em seu escritório. Com o fim de se infiltrar no movimento que defendia correntes extremistas como a supremacia branca, o nacionalismo, nordicismo e antissemitismo, ele conseguiu contato com a Klu Klux Klan. Mas um detalhe: o policial é negro.

Baseado na história real do policial Ron Stallworth (John David Washington), vemos o oficial criar um estratagema para colocar outro colega (um homem branco) em seu lugar e interpreta r o “personagem” assumido por ele no telefonema. Quem vai de fato se apresentar aos outros membros da organização é Flip Zimmerman (Adam Driver), a princípio a contragosto, mas dedicado à causa.

Nesse meio tempo, Stallworth conhece Patrice (Laura Harrier), uma bela e super inteligente ativista do movimento negro que promove, em posição de liderança, eventos e discussões sobre a revolução que se aproxima. Assim, o protagonista se vê numa encruzilhada cada vez mais perigosa na medida em que seu lugar no trabalho, no âmbito social e até diante de si mesmo é colocado em cheque com seu envolvimento indireto na Klu Klux Klan.

A luta e a resistência são os dois temas primordiais que movimentam a trama, representados pelo casal Ron e Patrice. Imagem: Divulgação

Homens brancos em evidência

Spike Lee será o sexto cineasta negro a concorrer ao Oscar de Melhor Diretor. Isso em noventa anos desde que a cerimônia foi originada e com destaque para o fato de que nenhum deles levou o prêmio da categoria ainda. Parece que a própria indústria norte americana do cinema clama desesperadamente por mais espaço nas produções, seja em bastidores ou diante das câmeras.

Desta forma, se para fazer justamente seu ponto ou não, o diretor e roteirista acaba dando bastante tempo e espaço de tela para atores brancos. Temos na trama não só um, mas três colegas de trabalho, um chefe, um vilão indiscutível e outro secundário. Acaba que a própria resistência fica a cargo do protagonista, que respeita o lugar da mulher, mas pela natureza do enredo é sobreposta à dela. Uma das maiores injustiças, no entanto, vem dos bastidores: o ator protagonista não concorrerá ao Oscar, mas Driver (o Kylo Ren, de “Star Wars”) está no páreo para Melhor Ator Coadjuvante.

Walter Breachway (Ryan Eggold) foi um dos poucos personagens fictícios criados para o filme, mas do estereótipo de homem branco preconceituoso o mundo real está cheio. Imagem: Divulgação

Bons e maus momentos

O elenco inteiro, porém, é excepcional. Todos entregam ótimas performances nos seus locais de atuação e fala, e a sintonia entre o grupo inteiro parece florescer a cada cena, o que é maravilhoso para o desenrolar da trama. Tudo vai ficando gradualmente mais elaborado, e a história é envolvente do começo ao fim.

O carisma que David Washington demonstra é fantástico, o que acaba por oferecer a quem assiste uma experiência até divertida. Há sequências claramente engraçadas, mas que com um pouco mais de reflexão deixam o espectador ligeiramente desconfortável. Fica aquela sensação inquietante: “Será que eu deveria rir mesmo disso?”

Em contraponto a esses momentos de comicidade, a obra não deixa de mostrar poderosas realidades que incomodam mesmo, como na sequência em que alternam o discurso do movimento que clamava pela “purificação” da sociedade estadunidense e o comício de Stokely Carmichael, membro do Movimento dos Direitos Civis nos EUA. Ou como a organização de um encontro com Jerome Turner (Harry Belafonte), narrador de uma história atroz que nunca foi ficção.

A relação entre a força policial e a população negra ainda é assunto extremamente relevante. Imagem: Divulgação

Um perigo real

Talvez o grande soco no estômago dessa produção vem com as cenas reais do final, que traz trechos de histórias que estão acontecendo nos tempos atuais. As imagens, combinadas com textos bem ao estilo documental, são tão fortes, que quando se imagina que boa parte do que acabamos de assistir foi fato, a única coisa que dá para fazer é esperar recuperar as forças de se levantar da cadeira.

O protagonista mesmo recebe o nome do primeiro policial negro de Colorado, e não apenas isso. Sua história, adaptada com maestria por Lee, está registrada nos livros e muito dificilmente será esquecida por boa parte dos que vivenciaram a luta na época. Apesar de ter tomado a liberdade de criar e dramatizar alguns eventos para o cinema, a maior parte deles realmente aconteceu tal como está lá. Para muito além desta fruição pela arte que os filmes do Oscar geralmente carregam em si, “Infiltrado na Klan” é o tipo de obra que deve ser vista e conversada sobre. E é urgente.

Topher Grace interpreta o líder assustador da KKK, David Duke: controvérsia atrás de controvérsia. Imagem: Divulgação