Hereditário: O poder do terror sugestivo

04/07/2018 - POSTADO POR e EM Filmes
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Hereditário” estreou na chamada “Sessão da Meia-Noite” no festival de Sundance, em janeiro. A ocasião é reservada para filmes obscuros, que mexem com o espectador e desafiam a convencionalidade de diversos gêneros. E este ano, nenhum filme do festival deu tanto o que falar quanto “Hereditário”. Com a estreia do longa no Brasil, finalmente pudemos entender o motivo.

* Esta matéria pode conter spoilers de “Hereditário”.

Heranças indesejadas

Após a morte da avó e matriarca, a família de Annie (Toni Collette) vive um luto tímido, quase satisfeita pelo o que aconteceu. A figura de sua mãe aparentemente não era das mais simpáticas. O período de superação segue uma narrativa linear padrão de um drama familiar. Porém, quando acontece uma nova tragédia, o longa quebra a linha base e ganha tons de um terror psicológico convencional.

O uso de clichês do gênero, entretanto, são mesclados de maneira original, criando algo novo, embora com uma atmosfera semelhante a “O Bebê de Rosemary”, de 50 anos atrás, sempre mantendo a sugestão de um elemento externo e poderoso atormentando a família. Um elemento do qual talvez não haja escapatória.

Foto: Divulgação

Subversão desarmante

Se “Hereditário” começa como um drama familiar, cerca de um terço do filme adentro as coisas mudam de forma bizarra. A personagem Charlie, da estreante Milly Shapiro, havia ganhado bastante destaque na divulgação do longa, e na trama assume importância ao ser aquela que ainda sente falta da avó. É por isso que a surpresa é maior quando a menina, em um acidente de carro, tem a cabeça decepada por um poste. A cena é executada com uma frieza surreal.

A responsabilidade do acontecido cai majoritariamente sobre os ombros do irmão, que dirigia o veículo, e é o que leva a família à um espiral de horror. No início cética, a mãe decide aderir a um ritual para se comunicar com a filha morta, e acaba abrindo a própria casa para uma presença demoníaca. O que ela não sabe era que a sua mãe era uma espécie de sacerdotisa em um culto maligno, que buscava um hospedeiro humano para o demônio Paimon.

Construção do suspense

Tecnicamente, o filme foge dos padrões de cinematografia do suspense/terror, com planos mais abertos e cores claras, sem apelar para o escuro ou para sombras. Um bom jogo visual é obtido através de cortes súbitos entre dia/noite, como se o interruptor do céu fosse acionado. O movimento de câmera é fluido, mas sempre estável, inserindo o espectador no ambiente de modo que a tensão dos personagens nos acompanhe. Muitos dos elementos assustadores estão lá sem muito alarde, elevando a tensão do longa.

O elenco está bastante afiado aqui. Toni Collette é sem dúvidas a grande estrela, se destacando especialmente nas cenas de drama familiar, como uma discussão na mesa de jantar. Sua entrega ao papel fica clara também nas cenas de puro horror que acontecem com a personagem. Contracenam com ela atores competentes, com um destaque inesperado para Alex Wolff, no papel de Peter, filho de Annie.

Foto: Divulgação

Tragédia

Os minutos finais do longa são um show de horrores. O que era sugerido o filme inteiro passa a ser mostrado como real, e como se não fosse suficiente ser inconvencional, a produção vai se tornando mais e mais bizarra até o último minuto. Pessoas em combustão instantânea, mais cabeças decepadas, corpos voando, membros da seita completamente nus dentro e fora da casa. Os limites deixam de existir.

Para quem não estava entendendo nada do filme, há uma cena expositiva – até demais – na qual a personagem de Toni Collette joga na cara de todos o que estava acontecendo. Ainda assim, perguntas ficam no ar, com a sensação de um finale contemplativo e em aberto que o diretor desejava, à la “A Bruxa”. A diferença é que, se o final do filme de 2015 passava uma ideia até de libertação da sua personagem, o que acontece aqui se desenrola como um trágico e macabro legado familiar do qual não se pode fugir. O que só contribui para tornar tudo mais inquietante.

Presença oculta

Produzir filmes de terror sem os clichês jumpscares se tornou difícil nos últimos anos. A fórmula ainda atrai grande público, pela simples certeza de levar vários sustos na sessão, e sair satisfeito com isso, independente da trama. Algumas produções recentes tentaram quebrar esse paradigma. “A Bruxa”, de 2015, e “Um Lugar Silencioso”, de 2018, mostraram que nem só de jumpscares são feitos filmes desse gênero.

É possível morrer de medo no cinema sem dar pulinhos na poltrona, com algo ordinário, mas muito eficaz: a sugestão.Há maneira mais competente de prender a atenção do espectador do que afirmando uma presença importante sem mostrá-la? É o que “Hereditário”, de Ari Aster, proporciona.

Foto: Divulgação