Filmes de terror para mexer com seus sentidos

29/12/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Há uma semana, um dos títulos mais esperados da Netflix entrou no catálogo, deixando para os espectadores gringos e deste país Brasil experiências das mais diversas. Como excelentes formadores de opinião e produtores de conteúdo, os falantes da língua PT-BR já infestam as redes sociais com memes e brincadeiras relacionados ao filme “Bird Box”.

Segura esse crossover entre o clássico “Velocidade Máxima” (1994) e “Bird Box”, Sandra Bullock. Imagem: @fortalezaordinaria

Na trama, a personagem principal (interpretada por Sandra Bullock) precisa atravessar o país pela via aquática numa canoa com duas crianças pequenas. O problema é que eles terão de realizar a viagem com olhos vendados, pois uma estranha aparição de “criaturas” desconhecidas faz com que aqueles que as enxergam percam suas faculdades mentais, enlouquecendo e cometendo suicídio de qualquer maneira possível.

Nós do Roteiro Nerd fizemos uma análise honesta do longa metragem há uns dias e meses atrás também cobrimos a leitura do livro de Josh Malerman em que a obra foi inspirada, “Caixa de Pássaros”. Você pode conferir os dois aqui e aqui. O que trazemos agora são duas novas sugestões de histórias com uma concepção parecida e que desafiam o conceito de audiovisual. Para sobreviver a estes cenários, em um deles você não pode falar, e no outro, não pode escutar.

Um Lugar Silencioso (2018)

Dirigido, escrito, produzido e com atuação de John Krasinski (“The Office” e “Jack Ryan”), este filme conta a história de uma família composta por marido, esposa (na vida real e na ficção) e três filhos que precisam sobreviver em um universo pós-apocalíptico sem fazer qualquer barulho: a casa toda é adaptada, os integrantes tiveram de aprender a linguagem dos sinais, e a vida nunca mais foi a mesma depois da trágica morte do filho mais novo. É que nesta fazenda dos Estados Unidos e em vários outros locais do mundo uma entidade sobrenatural é ativada pela percepção do som, e estes monstros estão famintos por carne humana. Lembramos que já foi feita uma análise mais detalhada deste filme aqui.

Uma das atrizes, Millicent Simmonds, é de fato surda e foi quem trouxe à equipe envolvida a maior motivação para aprenderem a se comunicar com gestos. A garota, que interpreta a filha mais velha, tem uma construção de personagem extremamente rica, e a produção como um todo é muito cuidadosa em detalhes e nuances dramáticas. Emily Blunt, a esposa de Krasinski e de seu personagem no enredo, gravou uma das cenas mais impactantes em uma única tomada. Originalmente, o roteiro de “Um Lugar Silencioso” tinha apenas duas falas, mas foi adaptado mais tarde com alguns acréscimos.

Emily Blunt e Millicent Simmonds atuam como mãe e filha e procuram evitar um problema que fatalmente será encarado no futuro: a mulher está grávida de novo. Imagem: Divulgação

Para um iniciante na direção e no roteiro, Krasinski diz que a maior surpresa que recebeu da repercussão foi o comentário no Twitter do próprio mestre do terror, o escritor Stephen King, que relatou: “‘Um Lugar Silencioso’ é uma extraordinária obra de arte. Atuações incríveis, mas a coisa principal é o silêncio, e como ele faz com que o olhar da câmera fique tão aberto de tal maneira que poucos filmes conseguem”. Para quem assistiu no cinema, realmente a experiência foi especial: qualquer barulhinho na cadeira ao lado, seja um celular que caísse com o susto de alguém ou um casal dividindo saco de pipoca, deixava o espectador extremamente nervoso com o medo do desastre.

Arrecadando a marca impressionante de US$ 340 milhões nas bilheterias mundiais, o filme já tem continuação garantida pela Paramount Pictures, e Krasinski revelou que vai seguir no comando e que não será uma sequência convencional. Até 15 de maio de 2020, podemos esperar por uma história nova, provavelmente mostrando outros aspectos deste universo distópico, centrada em novas famílias ou diferentes métodos de sobrevivência.

Hush: A Morte Ouve (2016)

Maddie Toung é uma jovem escritora que perdeu a audição na adolescência e vive isolada em uma casa no campo, ocasionalmente recebendo visitas ou contato virtual com seus amigos e família. Em determinada noite, porém, algo fora do padrão acontece. Como o trailer acima diz: ela não pode ouvir. Ela não pode falar. Ela (não) está sozinha. O silêncio pode ser assassino.

Dirigido por Mike Flanagan — cineasta entusiasta do terror, também responsável pela série “A Maldição da Residência Hill” (2018) —, o longa promete deixar toda e qualquer alma atordoada de tensão porque explora muito bem a técnica do silêncio. Como em “Um Lugar Silencioso”, chega a mostrar sequências inteiras com total omissão do som de tela, e quem assiste é capaz de ouvir as próprias batidas do coração.

A figura do assassino mascarado é retomada quase em reverência aos típicos filmes de adolescente dos anos 1990, como “Pânico” (1996) e “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” (1997). Imagem: Divulgação

Confesso que eu (#Gabriel) gostaria de ver “Bird Box” no cinema, e uma técnica que teria utilizado caso fosse o diretor seria a falta de imagem, com cenas 100% escuras e o som do caos lá fora e da respiração dos personagens vendados. No caso, a diretora Susanne Bier preferiu colocar breves montagens em que cobria a lente com a venda da protagonista, deixando uma imagem ligeiramente embaçada, a trama do tecido em evidência na tela.

Em “Hush: A Morte Ouve”, a protagonista, interpretada pela excelente Kate Siegel, deve sobreviver a uma noite de pesadelo pois um estranho mascarado ameaça sua vida. Ele está armado e tem métodos de entrar na casa e se comunicar com a proprietária. Enquanto isso, o espectador fica se perguntando também por que diabos esse psicopata quer matar a pobre coitada. Numa sequência de ações bastante tensas e soluções de metalinguagem, o filme é outro que está na Netflix e vale muito o esforço. Para os mais sensíveis, sugiro sem hesitação conferir acompanhado de pelo menos uma pessoa de confiança.