Fahrenheit 451: Um pé na ficção, outro no realismo

28/05/2018 - POSTADO POR EM Filmes
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Em 1966, François Truffaut adaptou para as telas uma das principais obras do gênero de distopia. Por vezes esquecido em meio aos títulos mais populares (“1984”, “Admirável Mundo Novo”, “Laranja Mecânica”), “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, foi publicado em 1953, imaginando um futuro onde a literatura e a opinião própria eram abominados. Fiel ao livro, o longa de Truffaut explorou de forma superficial o tema da crítica ao sistema.

Em 2018, temos uma nova adaptação, dirigida por Ramin Bahrani, e produzida pela HBO. Com mais opções de recursos visuais, o filme atual traz um ambiente semelhante ao que vivemos, mas tem como ponto central a crítica à consciência coletiva manipulada pelo sistema.

Futuro obscuro

Com uma apresentação sucinta dos protagonistas, logo entendemos que, para o bombeiro Guy Montag (Michael B. Jordan), só há um sentido na vida: queimar livros. Essa é a sua função na sociedade que rejeita a literatura. Comandado pelo capitão dos bombeiros, John Beatty (Michael Shannon), Montag nunca precisou entender a justificativa de seu trabalho, tendo em Beatty uma figura paterna e um mentor.

Em uma ambientação similar à de “Blade Runner”, com telões em prédios dando notícias e comerciais, o trabalho dos bombeiros é exibido como um reality show, e Montag é um dos astros. A cidade nunca é mostrada durante o dia, simbolizando, provavelmente, a “falta de luz” da população.

Foto: Divulgação

O existencialismo da obra

O carisma de Michael B. Jordan dá uma dinâmica ao personagem, diferente tanto da obra literária quanto do filme de Truffaut. Seu ponto de virada, porém, vem com a eventual curiosidade do porquê queimar livros, e em um de seus incêndios, se atreve a guardar um exemplar e lê-lo, ato que pode levá-lo à cadeia.

O livro em questão é “Os diários do subsolo”, de Dostoievski, considerado um dos primeiros romances da corrente existencialista da história. Na obra, o protagonista passa por uma trajetória de questionamentos tanto da sociedade quanto de si mesmo como ser humano. A escolha de Montag não poderia ser melhor, visto que, a partir de agora, ele próprio começa a se indagar sobre seu papel.

Com a descoberta, junto de Clarisse (Sofia Boutella), uma jovem que o introduz ao “mundo proibido”, Montag enfrenta suas convicções e o modo de agir dos bombeiros. Os embates contra Beatty são os momentos de destaque, com uma presença ao mesmo tempo amedrontadora e respeitável de Michael Shannon. No livro, seu personagem é o mais dualista, sendo quem detém o conhecimento de vários livros e que, ainda assim, quer destruí-los.

Foto: Divulgação

O valor do remake

Fahrenheit 451” de 2018 é mais ativo e sombrio que o de Truffaut, apostando no carisma de B. Jordan, e alterando diversos elementos do livro de Bradbury. Entretanto, o ponto principal continua: o simbolismo do livro nunca será derrubado. Um objeto simples, repleto de histórias que serão sempre lembradas e compartilhadas, independente dos recursos tecnológicos que surjam.

Foto: Divulgação