Euphoria: a inquietação do adolescer

11/08/2019 - POSTADO POR EM Séries

Ah, a adolescência. Incontáveis são as produções que abordam esse período difícil e intenso em nossas vidas. De início, “Euphoria” pode ter passado a impressão de ser uma versão mais hardcore e estilizada de “Os 13 Porquês”. Mas o primor e a profundidade alcançada pela série estrelada por Zendaya foram dignas de nota. Uma coisa é certa: até agora ninguém retratou melhor do que “Euphoria” as provações e tribulações de tentar fazer xixi quando se está deprimido. Confira nosso veredito.

Pluralidade

Adaptada de uma minissérie israelense de mesmo nome, “Euphoria” acompanha uma porção de jovens navegando as pressões do colégio em meio as drogas, descobertas sexuais, primeiros romances, históricos familiares e as vivências de um mundo digital. Quem nos guia por esse retrato de uma geração imediatista é Rue (Zendaya), uma jovem usuária de drogas que, ao retornar da reabilitação após uma overdose que abala suas relações familiares, busca se manter longe de problemas quando se apaixona pela recém-chegada Jules (Hunter Schafer).

Jules é uma garota transgênero, personagem que acaba sendo um motor para diversas tramas, principalmente após se relacionar com Cal (Eric Dane), pai de um dos estudantes, e depois começar a flertar por meio de aplicativo de relacionamento com uma figura anônima que na verdade é Nate (Jacob Elordi), filho de Cal. Nate é nada menos que a estrela do time de futebol americano, o quarterback saudado como o rei da escola ao lado de Maddy (Alexa Demie), sua namorada de vai-e-vens. Para o espectador, desde o início se instala o sentimento de que isso não vai acabar bem.

Foto: Divulgação

Forma antes do conteúdo

Desde o princípio fica claro que “Euphoria” tem um forte senso estético que puxa o telespectador para dentro da tela. Mesmo sendo uma produção um tanto escura, as luzes neon somadas a um jogo de câmera ágil em constante movimento e uma montagem dinâmica prendem a atenção enquanto dizem algo sobre a personalidade da própria série e seu tema-objeto.

As histórias levam um tempo para fisgarem o interesse do público. Mas ao longo da temporada se torna cativante contemplar a humanidade falha de suas figuras. A cada episódio, somos recebidos com a introdução de algum personagem que tem sua vida narrada de forma onisciente por Rue. É “Euphoria” em sua melhor forma. O terceiro episódio teve até uma sequência animada que causou polêmica ao representar uma fanfic romântica entre Harry Styles e Louis Tomlinson, ex-membros do One Direction. Mas acima de tudo, um momento como esse atesta a ousadia e inventividade da série.

Foto: Divulgação

Mão firme

Sam Levinson, diretor e criador da produção, demonstra uma confiança bastante assertiva ao longo dos episódios. Conhecido em parte pelo thriller de humor negro “Assassination Nation” (2018), o realizador traz um pouco desse suspense para “Euphoria”, com destaque para o quarto episódio, definitivamente um ponto alto. Situado ao longo de uma noite em um parque de diversões, os encontros e desencontros que ocorrem no local são carregados de uma tensão palpável acompanhada das mais sutis quebras de expectativas.

Esses momentos de subversão, inclusive, perduram até o último momento do episódio final da temporada, que traz poucas respostas para conflitos centrais. É justificado, assim, o anúncio de uma segunda temporada da série, que espera-se que continue a abordar e desenvolver os dramas apresentados. Mas, mesmo sem as respostas esperadas, a conclusão que tivemos no episódio 8 traz uma recompensa que poucos produtos na TV hoje fazem, o sentimento de ser levado a um caminho inesperado executado com maestria.

Foto: Divulgação

Veredito

“Euphoria” apresenta um caleidoscópio de uma geração doente. Uma geração que sente que deve estar vivendo o auge de suas vidas, mas exatamente que auge é esse? Chris McKay (Algee Smith) reflete que simplesmente não é bom o suficiente para fazer aquilo para o qual foi treinado a vida toda: ser um jogador de futebol profissional. Kat Hernanderz (Barbie Ferreira) descobre o poder que sua confiança corporal pode trazer, mas parece um tanto apática quanto ao propósito para o qual utiliza isso. Assim como muitos personagens parecem descontentes com suas escolhas e seu lugar no mundo.

Falando sobre onde estão em suas vidas, Jules considera que está em 100%, “mas pretendo chegar em 150%”, afirma. A busca pela satisfação pessoal pode ser mais complexa para uns do que para outros. Mas a viagem de ser jovem em um universo tão caótico é bem representada pelos rostos cheios de glitter e tristeza estampados em “Euphoria”.

Pontos positivos

  • Forte personalidade estética com momentos de surrealismo
  • Personagens bem desenvolvidos ao longo da temporada
  • Abordagem natural de diversos temas polêmicos
  • Atuações consistentes

 

Pontos negativos

  • Conflitos promissores que acabam sem nenhum tipo de resolução
  • Início lento e teor pesado podem afastar alguns telespectadores


Nota: 8,5